Brasileiro é detido na Venezuela após entrar disfarçado para gravar documentário

Pietro Krauss relata pressão, ameaças e violação de privacidade ao ser acusado de tentar entrar ilegalmente no país, após negativas formais na imigração venezuelana

13/01/2026 às 08:58 por Redação Plox

O documentarista brasileiro Pietro Krauss foi detido por autoridades venezuelanas nesta segunda-feira (12) ao tentar entrar no país pela fronteira com a Colômbia para gravar um projeto audiovisual. A ação ocorreu depois de duas negativas formais de entrada. Desta vez, ele tentou cruzar de moto, com a ajuda de um cidadão venezuelano e usando roupas comuns da região para se passar por morador local.

Krauss viajava com o sócio, o produtor Pedro Paracampos, para filmar o segundo episódio de um documentário sobre países em crise econômica e em situação de conflito. A primeira parte do projeto foi gravada na Argentina, em 2023.

Segundo o documentarista, a decisão de ir à Venezuela foi tomada logo após os ataques dos Estados Unidos ao país, em 3 de janeiro. A operação militar resultou na prisão de Nicolás Maduro, acusado pelo governo norte-americano de diversos crimes.

Após o ataque, as autoridades venezuelanas reforçaram o controle nas fronteiras e restringiram a atuação de profissionais da imprensa. Dezenas de jornalistas passaram a acompanhar a situação a partir de Cúcuta, cidade colombiana na fronteira com a Venezuela.


O documentarista Pietro Krauss e o sócio, Pedro Paracampos, durante viagem para gravação de documentário

O documentarista Pietro Krauss e o sócio, Pedro Paracampos, durante viagem para gravação de documentário

Foto: Arquivo pessoal


Tentativas frustradas de entrada pela imigração

A primeira tentativa de entrada na Venezuela ocorreu na quinta-feira (8), pouco depois da chegada da dupla a Cúcuta. Eles buscaram ingressar no país pela imigração, de forma regular, com a intenção de seguir de carro até Caracas. O acesso, porém, foi negado por agentes venezuelanos.

De acordo com Krauss, os agentes informaram que seria necessária uma carta de indicação, um tipo de carta-convite de um morador da Venezuela que se responsabilizasse pelo visitante. A dupla então acionou um amigo no país para providenciar o documento.

Com a carta em mãos, eles voltaram à fronteira no domingo (11). Mesmo assim, a entrada foi novamente recusada, após uma entrevista que durou cerca de cinco horas. Durante esse processo, um agente exigiu acesso ao celular de Krauss, o que, segundo ele, incluiu a visualização de fotos pessoais e violação de sua privacidade. O documentarista relatou também um clima hostil e irritação dos agentes quando souberam que ele não era jornalista, mas documentarista.

Plano de travessia disfarçado e detenção

A terceira tentativa ocorreu na terça-feira (12). Com a ajuda de um amigo venezuelano, os brasileiros planejaram cruzar a fronteira de moto, passando-se por moradores locais. A estratégia incluía o uso de roupas comuns da região e acessórios para tentar não chamar atenção como estrangeiros.

Krauss foi o primeiro a tentar a travessia, na garupa da moto. Paracampos permaneceu na Colômbia, aguardando o retorno do condutor venezuelano. O plano, porém, foi interrompido quando o veículo foi parado para revista na imigração.


Fronteira entre Colômbia e Venezuela em Cúcuta, em 7 de janeiro de 2026

Fronteira entre Colômbia e Venezuela em Cúcuta, em 7 de janeiro de 2026

Foto: Schneyder Mendoza/AFP

Segundo Krauss, o soldado responsável pela abordagem o reconheceu como um dos viajantes retidos na entrevista do dia anterior. O documentarista afirma que, a partir da apresentação do passaporte, a situação se agravou, com o agente irritado e agressivo.

Ele foi detido sob acusação de tentativa de entrada ilegal e levado para uma unidade imigratória em San Antonio del Táchira, já em território venezuelano. Krauss relatou ainda que os agentes suspeitaram de que Paracampos pudesse ter cruzado a fronteira por outra rota e fizeram ameaças caso ele fosse encontrado na Venezuela.

Pressão, ameaças e intervenção de policial

A tensão só mudou, segundo o documentarista, quando ele mencionou o conselho de um policial que, no dia anterior, teria sugerido que os dois tentassem entrar novamente no país. Krauss foi então levado para identificar esse agente. Diante dos superiores, o policial confirmou a versão e acabou sendo repreendido, de acordo com o relato.

Na avaliação de Krauss, essa confirmação foi decisiva para que ele fosse liberado. Ele afirma acreditar que, sem essa intervenção, não teria sido autorizado a deixar o local.

Expulsão, banimento e perda de material

Após a liberação, Krauss foi escoltado até a fronteira e obrigado a atravessar a pé de volta para a Colômbia. Ele relata ter sido formalmente banido da Venezuela e informado de que não poderá retornar ao país por vários anos. O documentarista também assinou documentos sem ter tempo de ler seu conteúdo.

Segundo ele, as autoridades fizeram registros fotográficos e telefonemas na sua frente, reforçando a ordem de não permitir o retorno dos dois brasileiros. Krauss também afirma que agentes apagaram dados do seu celular, incluindo fotos, conversas e material de trabalho. Ele conseguiu preservar apenas o que já estava salvo na nuvem.

Durante as tentativas de entrada, o brasileiro diz ter percebido insinuações de suborno. Em um dos episódios, um agente comentou que a Venezuela não precisava de dinheiro estrangeiro, “a menos que quisessem dar”. Em outra ocasião, um policial teria pedido “plata”, em referência a dinheiro.


Os documentaristas Pietro Krauss e⁠ Pedro Paracampos

Os documentaristas Pietro Krauss e⁠ Pedro Paracampos

Foto: Arquivo pessoal

Impacto emocional e continuidade do documentário

Abalado, Krauss afirma que chegou ao hotel na Colômbia ainda tremendo e demorou para conseguir avisar a noiva, a atriz Sophia Valverde, e a família sobre o que havia ocorrido. Ele e Paracampos passam bem e devem retornar ao Brasil nesta terça-feira (13).

Apesar da expulsão, do banimento e da perda de parte do material, o documentarista diz que o projeto não será cancelado. O episódio sobre a Venezuela deve ser concluído com entrevistas realizadas com venezuelanos na Colômbia e com imagens obtidas por outros repórteres.

Por enquanto, Krauss não cogita tentar voltar à Venezuela, alegando medo de represálias e ausência de segurança jurídica. Ele afirma que gostaria de conhecer o país um dia como turista, para visitar as praias e a capital, mas que isso está fora de cogitação no momento, principalmente após o que viveu na fronteira.

Compartilhar a notícia

V e j a A g o r a