Explosão de afastamentos por burnout pressiona gastos da Previdência Social

Auxílios-doença por esgotamento crescem 493% entre 2021 e 2024, em cenário de pós-pandemia, home office e uberização do trabalho, elevando custos do INSS e gerando passivo bilionário na Justiça

13/01/2026 às 14:12 por Redação Plox

O diagnóstico de burnout da empresária e hoje criadora de conteúdo Carla Ramalho, 34, só veio depois de meses de sinais ignorados. Olho tremendo, insônia, lapsos de memória, irritabilidade e queda de desempenho foram se tornando rotina enquanto ela atuava como gerente de marketing em uma multinacional. Mesmo exausta, seguia trabalhando como se o esgotamento fosse parte natural do dia a dia. Afastada por 15 dias, tentou voltar, mas teve uma crise de pânico e pediu demissão.

Os afastamentos por burnout — síndrome do esgotamento profissional — se multiplicaram por seis em quatro anos e já pressionam as contas da Previdência Social, num cenário em que o estresse crônico e a falta de limites entre vida pessoal e trabalho ganham espaço.

O esgotamento no trabalho não é fácil de ser identificado e pode levar o profissional a ser afastado por outras doenças

O esgotamento no trabalho não é fácil de ser identificado e pode levar o profissional a ser afastado por outras doenças

Foto: crédito: pixabay


Explosão de auxílios-doença e pressão sobre a Previdência

Dados do Ministério da Previdência Social (MPS) mostram que os auxílios-doença por esgotamento no trabalho e falta de lazer cresceram 493% em três anos: passaram de 823 casos, em 2021, para 4.880, em 2024. Apenas nos seis primeiros meses de 2025, já foram registrados 3.494 afastamentos, o equivalente a 71,6% do total de 2024.

Especialistas apontam que os números podem estar subestimados. O esgotamento nem sempre é reconhecido como burnout e pode aparecer nos laudos como outras doenças, especialmente transtornos mentais. Além disso, trabalhadores informais, que não contribuem com o INSS, ficam fora das estatísticas oficiais.

Em 2024, o INSS concedeu 472,3 mil auxílios-doença relacionados à saúde mental — incluindo depressão, ansiedade e outras síndromes — de um total de 3,6 milhões de afastamentos. Em 2023, haviam sido 283,5 mil. De janeiro a junho de 2025, os transtornos mentais já responderam por 271.076 afastamentos, em um universo superior a 2 milhões de auxílios, o que corresponde a aproximadamente um em cada sete casos, se aproximando das concessões por problemas ósseos e musculares, que lideram as estatísticas do instituto.

As despesas com auxílios-doença também aceleraram. Os gastos passaram de R$ 18,9 bilhões, em 2022, para R$ 31,8 bilhões, em 2024, alta de 68%. No mesmo período, a despesa total da Previdência subiu de R$ 734,3 bilhões (2022) para R$ 876,9 bilhões (2024), um aumento de 19,4%.

Tabu, medo e esgotamento silencioso

Carla não chegou a receber auxílio-doença. Nos primeiros 15 dias de afastamento, o salário é pago pela empresa; só depois desse período o benefício passa a ser responsabilidade do INSS, para quem tem carteira assinada. Ela conta que só conseguiu se recuperar porque tinha rede de apoio e estabilidade financeira.

O preconceito em relação à saúde mental e o medo de ser visto como fraco fazem muitos trabalhadores evitarem o afastamento ou até mesmo uma consulta médica. Em conteúdos publicados na internet, Carla tenta esclarecer a diferença entre a síndrome de burnout, um adoecimento crônico, e um episódio de burnout pontual, condição que ela também vivenciou.

A percepção de que sofrer com exaustão extrema é parte inerente da competitividade do mercado de trabalho contribui para que muitos casos sejam empurrados adiante, sem tratamento adequado, até o colapso.

Pandemia, home office e informalidade agravam cenário

O avanço acelerado dos afastamentos por transtornos mentais acendeu um alerta no governo. Estudos de impacto começaram ainda em 2022, durante a transição de gestão, quando já se observavam efeitos prolongados do pós-pandemia.

A ampliação do home office, o aumento do tempo conectado e o crescimento da informalidade e da chamada uberização do trabalho passaram a ser considerados fatores centrais do novo quadro de adoecimento. A percepção de disponibilidade permanente, somada à dificuldade de estabelecer fronteiras entre jornada e vida pessoal, intensificou quadros de ansiedade e cansaço extremo.

Regras mais rígidas e adiamento de multas

Em 2023, uma normativa do Ministério da Saúde reforçou o enquadramento do burnout como doença ocupacional, consolidando o direito ao auxílio-doença que garante estabilidade na volta ao trabalho. Em 2024, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) passou a exigir que empresas mapeiem riscos psicossociais em seus ambientes.

A pressão de empregadores, porém, levou o governo a adiar para maio de 2026 o início da aplicação de multas às companhias que descumprirem a norma. Até lá, especialistas alertam que o impacto sobre a saúde dos trabalhadores e sobre a Previdência tende a continuar crescendo.

Exaustão contínua e adoecimento múltiplo

A historiadora e jornalista Ana Carolina Rangel, 44, viveu anos em estado de exaustão permanente sem perceber que estava doente. Dormia com dois celulares e se mantinha disponível para a empresa quase 24 horas por dia. Nesse período, teve hérnia de disco, infecções de ouvido e garganta recorrentes e sofreu dois abortos.

Foi apenas durante a pandemia de Covid-19 que, diante do agravamento do quadro, recebeu o diagnóstico de síndrome de burnout. Ana Carolina, que hoje atua como especialista em felicidade corporativa, associa o aumento do esgotamento à intensificação de antigos problemas, como jornadas longas e dificuldades de deslocamento, somados ao crescimento da ansiedade alimentada pela internet e pela sensação de conexão constante.

Outro elemento que ela aponta é a precarização do trabalho. Muitas pessoas de baixa renda, diz, precisam complementar o salário com atividades informais, incluindo trabalhos por aplicativos, o que amplia o desgaste e reduz ainda mais o tempo de descanso.

Segundo a especialista, é difícil que o trabalhador identifique sozinho o burnout ou consiga sair dele sem apoio. Em meio ao esgotamento, outras doenças começam a se manifestar, confundindo diagnósticos e atrasando o tratamento. Com cansaço crônico e sono irregular, a imunidade cai, abrindo espaço para sucessivas complicações de saúde.

Benefícios sem carência e impacto ampliado

De acordo com o MTE, estudos indicam que o impacto do adoecimento mental não se restringe ao período em que o trabalhador está afastado. Benefícios por doenças ocupacionais não exigem carência no INSS, ou seja, não é necessário cumprir um número mínimo de contribuições para ter direito ao auxílio, o que amplia o universo de trabalhadores cobertos. Ao mesmo tempo, as contribuições deixam de ser recolhidas enquanto o benefício é pago.

Nesses casos, o profissional segue recebendo os depósitos de FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) por parte da empresa e tem estabilidade de 12 meses após o retorno ao trabalho. Quando o afastamento é classificado como auxílio previdenciário por doença comum, essas garantias não se aplicam.

Burnout como fenômeno estrutural do trabalho

Para especialistas da área de Previdência, o crescimento dos afastamentos por transtornos mentais é visto como um fenômeno estrutural e de longa duração, que se intensificou a partir dos anos 2000 e ganhou força após a pandemia, com as mudanças no mercado de trabalho.

Setores como o bancário já registravam, há mais de uma década, altos índices de adoecimento psíquico, associados à pressão por metas, monitoramento rigoroso de desempenho e insegurança em relação ao emprego. Além disso, enquanto auxílios-doença comuns costumam durar de três a quatro meses, benefícios ligados à saúde mental frequentemente se estendem por seis meses ou mais, aumentando o custo para a Previdência.

O impacto, porém, não se limita às despesas públicas. A combinação de afastamentos longos, perda de renda e dificuldade de recolocação compromete a produtividade do país e afeta de forma profunda a vida de quem adoece.

Ações trabalhistas e custos bilionários

Na Justiça do Trabalho, o reflexo também é visível. Advogados que atuam na área previdenciária e trabalhista relatam crescimento no número de processos relacionados à síndrome de burnout, tanto em volume quanto em gravidade. Os casos que chegam ao Judiciário, em geral, envolvem exposições prolongadas a ambientes considerados tóxicos ou adoecedores.

Levantamento do escritório Trench Rossi Watanabe mostra que o termo burnout apareceu em 17,2 mil processos trabalhistas distribuídos em 2024, em petições iniciais, sentenças, acórdãos e decisões do Tribunal Superior do Trabalho (TST). Em 2025, foram 20,1 mil menções, alta de 16,9%.

Segundo a advogada Priscila Kirchhoff, sócia do escritório, o passivo potencial das ações que mencionam burnout chegou a R$ 3,63 bilhões para as empresas em 2025, com valor médio de causa de R$ 286 mil por processo.

Especialistas defendem que o burnout, reconhecido como doença do trabalho no Brasil desde 1999, seja encarado como um problema estrutural da organização do trabalho contemporâneo, e não como fragilidade individual. Os custos para a Previdência são elevados, mas o impacto sobre o trabalhador pode ser irreversível: o valor do benefício por incapacidade costuma ser inferior à remuneração habitual, gerando perda de renda, instabilidade financeira e dificuldades para custear tratamento e medicação, muitas vezes contínuos e caros.

Como acessar o auxílio-doença por burnout

Para obter auxílio-doença no INSS, o trabalhador precisa apresentar atestado médico com a CID (Classificação Internacional de Doenças) e laudos que comprovem a relação entre o quadro de adoecimento e o trabalho. O pedido deve ser feito pela Central 135, pelo aplicativo Meu INSS ou pelo site do instituto.

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