Estudo define limites semanais de THC ligados a risco de transtorno por uso de cannabis

Pesquisa internacional estima doses de THC associadas ao surgimento de sintomas de TUC em adolescentes e adultos e alerta que apenas a abstinência é totalmente segura

13/01/2026 às 11:54 por Redação Plox

Um estudo publicado nesta segunda-feira (12) na revista da Sociedade para o Estudo da Dependência Química estimou, pela primeira vez, a partir de que dose semanal de maconha cresce de forma significativa o risco de desenvolver transtorno por uso de cannabis (TUC).

Calcula-se que cerca de 22% dos consumidores de maconha irão apresentar TUC em algum momento da vida. O transtorno é caracterizado pela perda de controle sobre o uso da droga, mesmo diante de prejuízos claros na rotina. Compromissos com escola, trabalho ou família passam a ser negligenciados, e surgem sintomas de abstinência – como inquietação e distúrbios do sono – quando a pessoa tenta interromper o consumo.

A pesquisa foi liderada pela psicóloga e pesquisadora em dependência química da Universidade de Bath, no Reino Unido, Rachel L. Thorne. O grupo definiu que cada unidade de tetrahidrocanabinol (THC) – principal componente psicoativo da maconha – corresponde a 5 miligramas. A ideia foi criar uma medida padronizada, semelhante às doses padrão usadas para o álcool.

Os resultados apontam que o consumo semanal de 6 unidades de THC (30 mg) por adolescentes e 8,3 unidades (41,3 mg) por adultos já é suficiente para o aparecimento de sintomas de TUC. Quando o consumo ultrapassa 6,45 unidades (32,2 mg) em adolescentes e 13,4 unidades (67 mg) em adultos, o risco passa a ser de um transtorno de intensidade moderada a grave.


Detalhes de uma flor de cannabis

Detalhes de uma flor de cannabis

Foto: Reprodução

Unidades de THC e risco de transtorno

Os autores destacam que o estudo busca estabelecer limites de risco semanais com base em unidades padrão de THC, de forma semelhante às diretrizes usadas para álcool. Eles também ressaltam que a frequência e a quantidade de consumo não são os únicos fatores envolvidos: características individuais e contextuais podem aumentar o risco de desenvolvimento de TUC.

Diferentemente do álcool, a maconha reúne diversos compostos ativos, cuja interação influencia tanto os efeitos quanto os riscos. Embora o THC seja o principal fator associado ao desenvolvimento de transtorno, outros canabinoides e o modo de consumo – por meio de cigarros, vaporizadores ou produtos comestíveis – alteram de forma significativa a dose efetiva e o impacto no organismo.

Mesmo com essas variáveis, o estudo indica que o consumo diário de um baseado seria suficiente para o desenvolvimento de TUC em qualquer faixa etária. Pesquisas anteriores estimam que um cigarro de maconha médio contém cerca de 7 mg de THC.

Doses distintas para adolescentes e adultos

Para chegar aos limites propostos, os pesquisadores utilizaram dados do estudo CannTeen, que acompanhou 85 adolescentes, com 16 e 17 anos, e 65 adultos, entre 26 e 29 anos, todos consumidores regulares de maconha no ano anterior ao início da pesquisa.

Cada participante foi entrevistado cinco vezes ao longo de um período de um ano. Ao final, foi realizado um diagnóstico clínico de TUC, permitindo relacionar a quantidade semanal de THC consumida com a presença ou não do transtorno.

A amostra total de 150 pessoas é considerada pequena, e o teor real de THC dos produtos usados pelos participantes precisou ser estimado com base em fontes externas, já que não houve análise laboratorial de cada amostra consumida individualmente.

Apesar dessas limitações, os autores relatam que a sensibilidade dos limites propostos foi alta: os modelos conseguiram identificar corretamente cerca de 9 em cada 10 indivíduos com TUC, o que sugere que esses valores podem ser úteis como referência inicial para avaliação de risco.

Limites como orientação, não como regra rígida

Os pesquisadores ressaltam que os valores de corte não substituem avaliação médica nem devem ser usados como único critério para diagnóstico ou tratamento. A proposta é que sirvam como ferramenta de triagem e como um parâmetro para orientar consumidores sobre o risco associado a diferentes níveis de consumo semanal de THC.

Assim, os números devem ser entendidos mais como orientações preliminares do que como fronteiras estritamente seguras. Ainda assim, reforçam a relação direta entre maior ingestão semanal de THC e aumento do risco de desenvolver transtorno por uso de cannabis.

A pesquisa destaca que, do ponto de vista da prevenção do TUC, apenas a abstinência pode ser considerada uma estratégia totalmente segura. O estabelecimento de limites, porém, pode ajudar profissionais de saúde a avaliar com mais precisão o grau de risco e a identificar sinais precoces de um possível distúrbio.

Segundo os autores, diretrizes de menor risco podem ser formuladas a partir desses achados, de modo a orientar pessoas que optam por consumir maconha mas desejam reduzir a probabilidade de danos, especialmente mantendo o consumo semanal de THC abaixo dos limites apontados.

Risco de banalização e interpretação equivocada

Especialistas apontam que limites numéricos podem ser úteis para comunicar riscos à população, mas também trazem um desafio: o perigo de que o consumo abaixo desses valores seja visto como totalmente inofensivo ou até benéfico, o que não é o objetivo das diretrizes.

Nessa perspectiva, os próprios pesquisadores e outros especialistas em dependência química defendem que qualquer comunicação sobre limites de THC enfatize a ideia de redução de danos, e não de “segurança garantida”.

Falta de informação sobre o teor real de THC

Um dos principais entraves para a aplicação prática desses limites é o fato de que muitos consumidores não conhecem o teor de THC dos produtos que usam. Isso é especialmente verdadeiro em contextos de cultivo doméstico ou de compra em mercados ilegais, em que não há rotulagem padronizada e confiável.

Sem essa informação, torna-se difícil contabilizar quantas unidades de THC estão sendo ingeridas por semana e, portanto, comparar o consumo pessoal com os limites sugeridos pela pesquisa.

Outra crítica é que, com as regras atuais em muitos países, não existe um sistema nacional ou padronizado de comunicação de unidades de THC. Em muitos mercados, o consumidor simplesmente não tem acesso consistente a dados laboratoriais sobre a concentração do composto nas diferentes formas de maconha disponíveis.

Mercado regulamentado e unidades padronizadas

Na avaliação de especialistas em neurofarmacologia e dependência química, os resultados do estudo representam um passo relevante ao fornecer uma estimativa quantitativa de um limite de consumo semanal associado a menor risco de dependência.

Esses especialistas defendem a criação de um mercado de maconha regulado, em que produtos tragam rótulos claros com a quantidade de THC por dose ou por unidade, em estrutura semelhante à rotulagem de bebidas alcoólicas. Só com essa transparência o consumidor poderia monitorar de fato o próprio risco em relação ao TUC.

Nesse cenário, as unidades de THC propostas pelo estudo poderiam ajudar a tornar mais objetiva uma discussão que, até agora, costuma ser vaga: onde termina o uso ocasional e começa o consumo considerado “alto” ou “arriscado” de maconha.

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