Netflix estuda oferta 100% em dinheiro para comprar Warner Bros. Discovery
Revisão do acordo firmado no fim de 2023 prevê proposta integral em dinheiro, após volatilidade das ações e refinanciamento de empréstimo de US$ 59 bilhões, em meio a forte escrutínio regulatório e disputa com rivais
14/01/2026 às 11:39por Redação Plox
14/01/2026 às 11:39
— por Redação Plox
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A Netflix estuda rever os termos do acordo firmado com a Warner Bros. Discovery no fim do ano passado e avalia apresentar uma proposta de compra 100% em dinheiro pela companhia. A mudança de estratégia surpreendeu o mercado e ocorre em meio à forte volatilidade das ações envolvidas na negociação.
Foto: Pixabay
De acordo com informações da Bloomberg, obtidas junto a pessoas próximas às tratativas, o objetivo da alteração é acelerar o processo de venda, que ainda deve levar meses para ser concluído e segue condicionado à aprovação de órgãos regulatórios nos Estados Unidos.
No acerto original, os acionistas da Warner Bros. Discovery – dona da HBO, CNN e do estúdio de cinema Warner Bros. – receberiam US$ 23,25 em dinheiro e US$ 4,50 em ações ordinárias da Netflix, com ajustes previstos caso os papéis da empresa recuassem abaixo de US$ 97,91.
Oscilação nas ações e impacto no mercado
Desde que a Netflix tornou público seu interesse na compra da Warner, os papéis da gigante do streaming perderam cerca de um quarto de seu valor. Na terça-feira (13/1), as ações chegaram a ser negociadas a US$ 89,07 na Bolsa de Valores de Nova York.
No fechamento do pregão, as ações da Warner avançaram 1,6%, cotadas a US$ 28,86, enquanto os papéis da Netflix caíram 1%, para US$ 90,32. A volatilidade tem pressionado o desenho financeiro da operação e alimentado dúvidas entre investidores sobre o tamanho do risco assumido pela companhia.
Refinanciamento do “empréstimo-ponte”
Favorita a assumir o controle da Warner, a Netflix já havia decidido refinanciar parte de um “empréstimo-ponte” de US$ 59 bilhões, utilizado para sustentar a proposta formal pela empresa. O movimento foi feito com uma dívida mais barata e de prazo mais longo, reforçando o pacote financeiro atrelado à transação.
No mercado, o empréstimo-ponte é um financiamento de curto prazo usado para suprir necessidades imediatas de caixa enquanto se aguarda um financiamento permanente ou a venda de um ativo. É comum em operações imobiliárias e corporativas, pois libera recursos rapidamente, mas costuma ter juros mais altos e exigir garantias. Funciona como uma espécie de “ponte” até a entrada do capital definitivo, em prazos que, em geral, variam de 1 a 18 meses.
A Netflix obteve uma linha de crédito rotativo de US$ 5 bilhões (R$ 27,5 bilhões) e dois empréstimos a prazo para refinanciar parte do empréstimo-ponte contratado para a oferta pela Warner. Entre os bancos envolvidos estariam Wells Fargo, BNP Paribas e HSBC.
A dívida vence em intervalos escalonados. Caso a aquisição avance, a linha de crédito rotativo, que permite empréstimos e pagamentos flexíveis, vencerá em 2030 ou três anos após a conclusão do negócio – o que ocorrer primeiro. Já os empréstimos a prazo, com saque diferido, vencerão em dois e três anos, respectivamente.
Detalhes da proposta bilionária
Em dezembro do ano passado, a Netflix anunciou que havia chegado a um acordo para adquirir os estúdios de TV e cinema e a divisão de streaming da Warner, em uma operação estimada entre US$ 72 bilhões (cerca de R$ 381,2 bilhões) e US$ 83 bilhões (R$ 438 bilhões).
A proposta foi de algo entre US$ 28 e US$ 30 por ação, quase todo o valor em dinheiro, além de uma multa de US$ 5 bilhões caso o negócio seja barrado por reguladores. Esse pacote superou ofertas de grupos como a Paramount Skydance e a Comcast, que miravam apenas partes da companhia.
Com o acordo, a Netflix passará a controlar um dos ativos mais tradicionais e valiosos de Hollywood. A plataforma ampliará de forma significativa sua capacidade de produção de conteúdo e terá acesso ao vasto acervo de filmes da Warner e a franquias icônicas como Harry Potter e Senhor dos Anéis.
Em carta enviada à Warner, a Paramount contestou o processo de negociação da venda da companhia e alegou que a empresa teria abandonado um modelo justo de licitação ao declarar a Netflix vencedora, sem critérios claros e transparentes para os demais interessados.
Pressões regulatórias e preocupações com concorrência
A possível compra da Warner pela Netflix tem provocado preocupação em diferentes segmentos do mercado. Investidores questionam a capacidade da empresa de streaming de administrar um conglomerado desse porte e de absorver sua estrutura de dívida.
Além disso, a transação deve enfrentar barreiras na legislação antitruste tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. O negócio concentra, sob o guarda-chuva da Netflix, uma concorrente com HBO Max e quase 130 milhões de assinantes, o que intensifica o debate sobre concentração de mercado e poder nas plataformas de streaming.
O próprio presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já fez críticas públicas à operação, sinalizando pressão política adicional sobre um acordo que ainda terá de passar por rigorosa análise regulatória.
Paramount vai à Justiça contra a Warner
No início da semana, após ter sua última oferta de compra recusada pela Warner Bros. Discovery, a Paramount Skydance ingressou na Justiça contra a empresa e exigiu a apresentação dos detalhes do acordo firmado com a Netflix. A ação foi protocolada em um tribunal do estado de Delaware, nos Estados Unidos.
Paralelamente, a Paramount enviou uma carta aos acionistas da Warner, reafirmando sua oferta de US$ 30 por ação e conclamando investidores a aderirem à proposta.
A Warner deixou de incluir qualquer divulgação sobre como avaliou a participação remanescente da Global Networks, como avaliou a transação geral com a Netflix, como funciona a redução do preço de compra por conta da dívida na transação com a Netflix, ou mesmo qual é a base para seu ‘ajuste de risco’ em relação à nossa oferta integral em dinheiro de US$ 30 por ação
David Ellison, CEO da Paramount, em documento aos acionistas
Dias antes, o Conselho de Administração da Warner Bros. Discovery havia rejeitado, por unanimidade, uma nova proposta da Paramount. A oferta, de US$ 108,4 bilhões, não foi considerada uma “proposta superior” à da Netflix, que já tinha anunciado, no início de dezembro, um acordo bilionário para adquirir a companhia.
Decisão do conselho e nível de endividamento
Com a recusa, o Conselho de Administração da Warner recomendou novamente que os acionistas rejeitassem a proposta da Paramount, encerrando uma disputa que se arrastava havia meses. Em nota, o colegiado classificou a oferta rival como de “valor insuficiente” e com “riscos elevados”, sobretudo por depender fortemente de financiamento via dívida.
Segundo os cálculos apresentados, caso a proposta da Paramount fosse aceita, a nova empresa resultante ficaria com uma dívida estimada em US$ 87 bilhões (R$ 467,9 bilhões) após a conclusão do negócio, exigindo a captação de um volume muito grande de recursos adicionais e ampliando significativamente o risco da operação.
A Warner Bros. Discovery é uma multinacional de mídia e conglomerado de entretenimento, criada a partir da fusão entre a WarnerMedia e a Discovery Inc., concluída em abril de 2022. Já a Paramount Skydance nasceu da combinação entre a Paramount Global e a Skydance Media, em operação finalizada em agosto deste ano.