Cáries e doença gengival juntas são associadas a risco 86% maior de AVC, aponta estudo

Pesquisa com quase 6 mil adultos acompanhados por 20 anos encontrou maior incidência de derrame em quem tinha as duas condições bucais; autores ressaltam que o trabalho não comprova causa e efeito

14/03/2026 às 07:59 por Redação Plox

Ter cáries e doença gengival ao mesmo tempo pode estar associado a um risco significativamente maior de acidente vascular cerebral (AVC). Um estudo publicado na revista científica Neurology Open Access, da Academia Americana de Neurologia, encontrou uma ligação entre a combinação desses problemas bucais e um aumento no risco de AVC em comparação com pessoas que têm boa saúde bucal. Os resultados também indicam que a má saúde bucal pode estar relacionada a um risco 36% maior de eventos cardiovasculares graves, como ataque cardíaco, doença cardíaca fatal ou AVC.

A pesquisa não prova que os problemas bucais causem diretamente os AVCs, mas sugere que melhorar a saúde dos dentes e gengivas pode ser uma estratégia importante — e frequentemente negligenciada — na prevenção da doença.


Imagem ilustrativa

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Foto: Freepik


Como o estudo foi feito

O trabalho analisou dados de 5.986 adultos, com idade média de 63 anos, que não tinham histórico de AVC no início do acompanhamento. Todos os participantes passaram por exames odontológicos para avaliar a presença de cáries, doença gengival (periodontal) ou ambas.

A partir desses resultados, os pesquisadores dividiram o grupo em três categorias:

  • pessoas com boca saudável
  • pessoas com apenas doença gengival
  • pessoas com doença gengival e cáries

Os participantes foram acompanhados por duas décadas, com base em contatos telefônicos e registros médicos, para identificar quem desenvolveu AVC ao longo do tempo.

Risco de AVC aumenta quando há dois problemas bucais

Ao longo do acompanhamento, surgiram diferenças importantes entre os grupos:

  • entre os participantes com boca saudável, 4% sofreram um AVC;
  • entre aqueles com apenas doença gengival, o índice foi de 7%;
  • no grupo com doença gengival e cáries, o número chegou a 10%.

Depois de ajustes para fatores como idade, índice de massa corporal e tabagismo, os pesquisadores observaram que:

  • pessoas com doença gengival e cáries tinham 86% mais risco de AVC em comparação com quem tinha boca saudável;
  • aquelas com apenas doença gengival apresentaram 44% mais risco.

Os AVCs avaliados foram do tipo isquêmico, o mais comum. Eles ocorrem quando um coágulo ou outro bloqueio reduz o fluxo sanguíneo para o cérebro, impedindo que o órgão receba oxigênio e nutrientes.

Ligação com eventos cardiovasculares graves

Além do AVC, o estudo examinou um conjunto de eventos cardiovasculares graves, incluindo ataque cardíaco, doença cardíaca fatal e o próprio AVC. Nesse cenário mais amplo, pessoas com doença gengival e cáries tiveram risco 36% maior desses eventos em comparação com participantes com boa saúde bucal.

Os autores ressaltam que o trabalho mostra uma associação estatística, não uma relação de causa e efeito, mas reforçam que a saúde da boca pode estar conectada à saúde do coração e do cérebro.

O papel das visitas regulares ao dentista

A pesquisa também avaliou os hábitos de cuidado odontológico. Quem relatou ir ao dentista com regularidade apresentou:

  • 81% menos probabilidade de ter ao mesmo tempo doença gengival e cáries;
  • 29% menos probabilidade de apresentar apenas doença gengival.

Esses achados sugerem que consultas periódicas podem reduzir a chance de o paciente chegar ao quadro mais preocupante, em que cáries e inflamações gengivais aparecem juntas — justamente a combinação associada ao maior risco de AVC.

O que dizem os especialistas

Segundo o autor do estudo, Souvik Sen, da Universidade da Carolina do Sul, os resultados reforçam a importância de olhar para a boca como parte da saúde geral.

“Este estudo reforça a ideia de que cuidar dos dentes e gengivas não se resume apenas ao sorriso; pode ajudar a proteger o cérebro”, afirmou.

Souvik Sen

A diretora da Associação Brasileira de Odontologia Ludimila Saiter explicou que, do ponto de vista clínico, há pelo menos dois caminhos possíveis para conectar uma infecção na boca a problemas cardiovasculares ou cerebrais: uma via direta, por meio da circulação de bactérias, e o efeito de inflamações crônicas no organismo como um todo.

Ela detalha que as bactérias da cavidade bucal podem entrar na corrente sanguínea por meio da inflamação gengival e se alojar em válvulas cardíacas ou em placas de gordura nas artérias. Além disso, uma infecção crônica faz o corpo produzir substâncias inflamatórias que circulam por todo o organismo, danificando vasos sanguíneos e aumentando o risco de eventos como infarto e AVC.

Saiter observa ainda que, na prática dos consultórios, a relação entre boca e saúde geral é frequente, e que a cavidade oral não funciona de forma isolada. Quando uma infecção bucal severa é tratada, é comum notar melhora em indicadores gerais de saúde, como controle de pressão ou de diabetes.

Sinais de alerta que não devem ser ignorados

Especialistas lembram que gengiva saudável não sangra. Um dos erros mais comuns é considerar o sangramento gengival como algo normal.

Outros sinais de alerta incluem:

  • lesões (feridas) na boca que persistem por mais de 15 dias;
  • sensação de “dente amolecido”;
  • gengiva vermelha ou inchada.

Diante desses sintomas, a orientação é procurar avaliação odontológica, em vez de esperar a próxima consulta de rotina.

Com que frequência ir ao dentista

A recomendação padrão para prevenir doenças bucais é consultar o dentista a cada seis meses. Esse é, em média, o tempo necessário para que o cálculo dental (tártaro) se acumule e problemas iniciais comecem a aparecer.

No entanto, ao notar qualquer alteração na cavidade bucal, o ideal é agendar uma consulta imediatamente, sem aguardar o intervalo de rotina.

Para alguns grupos de risco — como fumantes, diabéticos ou pessoas com histórico de doença periodontal — o intervalo sugerido é menor, em torno de três meses, podendo ser ainda mais curto conforme avaliação profissional, sobretudo quando o objetivo é controlar doenças já instaladas.

O que são cáries e doença periodontal

As cáries são cavidades no esmalte dentário provocadas pela ação de bactérias da placa, que produzem ácidos ao metabolizar restos de alimentos e açúcares. Elas costumam estar relacionadas ao consumo de produtos açucarados ou ricos em amido, além de fatores como higiene bucal inadequada e predisposição genética.

Já a doença periodontal é uma inflamação ou infecção que afeta a gengiva e o osso que sustenta os dentes. Quando não tratada, pode evoluir e levar à perda dentária.

Manter uma rotina de escovação adequada, uso de fio dental e acompanhamento profissional ajuda a evitar tanto as cáries quanto a doença periodontal — e, à luz do estudo, pode também reduzir o risco de problemas cardiovasculares e de AVC.

Limitações da pesquisa e implicações para a prevenção

Os autores do trabalho destacam algumas limitações. A saúde bucal dos participantes foi avaliada apenas uma vez, no início do estudo, o que significa que mudanças ao longo dos anos não foram registradas. Outros fatores de saúde não medidos também podem ter influenciado os resultados.

Mesmo assim, os pesquisadores defendem que os achados são consistentes ao apontar que manter dentes e gengivas saudáveis pode ser uma parte relevante da prevenção do AVC, ao lado de cuidados já conhecidos, como controle da pressão arterial, do colesterol, do diabetes e abandono do tabagismo.

O estudo foi publicado na Neurology Open Access em outubro de 2025.

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