Exportações de veículos do Brasil caem 28% no início de 2026 com retração da Argentina

Após um 2025 de alta impulsionada pelo mercado argentino, o setor enfrenta cenário externo menos favorável: embarques recuaram para 59,4 mil unidades no bimestre, enquanto o México cresceu em fevereiro e amenizou parte da queda

14/03/2026 às 10:31 por Redação Plox

Depois de um ano de exportações crescentes, impulsionadas pela demanda da Argentina, a indústria automobilística brasileira iniciou 2026 diante de um cenário externo mais adverso. As vendas externas de veículos recuaram no primeiro bimestre, refletindo a retração do mercado argentino, que vinha sendo o principal destino dos embarques nacionais. Entre janeiro e fevereiro, foram exportadas 59,4 mil unidades, ante 82,4 mil no mesmo período de 2025, o que representa queda de 28%. O tombo só não foi maior porque o México apareceu como novo foco de demanda: em fevereiro, as vendas para o mercado mexicano saltaram de 2,2 mil para 9,1 mil unidades.


Toyota Hiace sendo montado em Zárate, Argentina

Toyota Hiace sendo montado em Zárate, Argentina

Foto: Divulgação


Argentina perde fôlego e puxa queda das exportações

A Argentina sempre foi o principal destino dos veículos produzidos no Brasil e, em 2025, impulsionou a recuperação do setor. As exportações cresceram 32% no ano passado, embaladas por uma demanda argentina crescente e constante. Em 2025, o país vizinho respondeu por 59% dos embarques, absorvendo 302 mil dos 528 mil veículos exportados pelo Brasil.

Em 2026, o quadro mudou. Entre janeiro e fevereiro, os embarques para a Argentina recuaram de 15,6 mil para 14,4 mil unidades, uma redução de 7,5%. Embora o porcentual pareça moderado, o impacto é amplificado pelo peso argentino nas vendas externas da indústria automobilística brasileira. A retração de um parceiro que concentra mais da metade das exportações do setor tem efeito imediato sobre a balança comercial e o nível de atividade das montadoras.

México surge como alívio parcial no curto prazo

No movimento oposto, o México apareceu como um importante fator de compensação no início de 2026. Em fevereiro, as exportações brasileiras para o mercado mexicano passaram de 2,2 mil para 9,1 mil unidades, revelando uma demanda inesperada que ajudou a amenizar a queda no total exportado.

Esse avanço, no entanto, ainda não é suficiente para neutralizar o freio vindo da Argentina. O desempenho mexicano funciona como alívio pontual, mas não substitui o volume e a relevância histórica do mercado argentino para a indústria automobilística do Brasil.

Importações argentinas em forte retração

O enfraquecimento da demanda da Argentina não se limita aos veículos. Dados da Abeceb, consultoria argentina, mostram queda nas importações de todos os produtos provenientes do Brasil, com impacto ainda maior no setor automotivo. Em fevereiro, as compras argentinas somaram US$ 1,057 bilhão, recuo de 26,5% em relação ao mesmo mês do ano anterior, o maior declínio desde julho de 2024.

Segundo a consultoria, a retração geral é explicada, em grande medida, pela redução das importações de produtos automotivos. Em fevereiro, o setor respondeu por 74% da queda total, com uma diminuição de US$ 284 milhões nas compras.

O recuo foi mais intenso no segmento de caminhões, cujas importações caíram 64,3% na comparação com fevereiro de 2025. Nos comerciais leves, a queda foi de 51,4%. As compras de automóveis recuaram 43,6%, enquanto as importações de peças e acessórios diminuíram 30,9%.

A redução nas vendas de peças fabricadas no Brasil indica um menor ritmo de produção nas montadoras instaladas na Argentina. Esse movimento reflete a retração do mercado interno diante de incertezas sobre a capacidade do governo de Javier Milei de conter a inflação e honrar o pagamento da dívida externa.

Produção nas montadoras brasileiras desacelera

A piora do cenário externo já se traduz na linha de montagem. No primeiro bimestre de 2026, o Brasil produziu 338 mil veículos, queda de 8,9% em relação ao mesmo período de 2025. A combinação entre menor demanda da Argentina e ritmo mais fraco nas exportações em geral passou a puxar para baixo o nível de produção nas fábricas nacionais.

No mercado interno, o quadro é mais estável. Entre janeiro e fevereiro, foram vendidas 355,7 mil unidades, um recuo discreto de 0,1% na comparação anual. A leve estabilidade das vendas domésticas ajuda a sustentar parte da produção, mas não compensa totalmente a perda de mercado externo.

A demanda interna também evidencia o avanço dos veículos importados, em especial das marcas chinesas, que ampliam presença nas concessionárias brasileiras e acirram a concorrência com a produção local.

Caminhões sentem pouco efeito do Move Brasil

O segmento de veículos comerciais, particularmente o de carga, enfrenta um cenário mais duro. No primeiro bimestre, as vendas de caminhões caíram 28,7% em relação ao mesmo período de 2025. A produção recuou 27% na mesma base de comparação.

Os números indicam que o Move Brasil, programa de incentivo do governo federal que oferece financiamento com juros menores e subsídio do BNDES para renovação de frota, ainda não produziu o efeito esperado sobre o mercado. Mesmo com linhas de crédito mais baratas, a incerteza em relação aos custos de operação — especialmente o preço do diesel e do frete, pressionados pelas tensões no Oriente Médio — leva transportadoras a adiar decisões de compra.

Cenário para os próximos meses

Com a Argentina em desaceleração e o México em ascensão pontual, o eixo das exportações brasileiras de veículos entra em fase de reequilíbrio. O desempenho da indústria nos próximos meses dependerá da capacidade de manter ou ampliar a demanda em outros mercados, enquanto o parceiro histórico atravessa um período de ajuste econômico.

Ao mesmo tempo, o comportamento da demanda interna e a resposta do segmento de caminhões aos incentivos do Move Brasil serão decisivos para definir o ritmo de produção das montadoras ao longo de 2026, em um ambiente de custos mais incertos e menor dinamismo no comércio exterior.

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