Defesa de coronel mantém tese de suicídio em morte da PM Gisele, e família fala em feminicídio

Quase um mês após a policial ser encontrada com tiro na cabeça no Brás, em São Paulo, caso foi reclassificado como morte suspeita e segue sem conclusão, à espera de laudos complementares

14/03/2026 às 10:49 por Redação Plox

Quase um mês após a morte da policial militar Gisele Alves Santana, encontrada com um tiro na cabeça no apartamento onde morava com o marido no Brás, em São Paulo, a versão sobre o que aconteceu segue em disputa. A defesa do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto mantém a tese de que a soldado cometeu suicídio, enquanto a família de Gisele afirma que ela foi vítima de feminicídio e cobra medidas mais duras contra o oficial. A Polícia Civil ainda aguarda laudos complementares para concluir o inquérito.


A soldado da PM Gisele Alves Santana era casada com o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto

A soldado da PM Gisele Alves Santana era casada com o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto

Foto: Reprodução


Defesa fala em suicídio; família aponta feminicídio

A morte de Gisele ocorreu em 18 de fevereiro, dentro do imóvel do casal. O caso foi registrado inicialmente como suicídio. Com o avanço das diligências e questionamentos levantados por parentes, o episódio passou a ser tratado como “morte suspeita”, com a inclusão da hipótese de feminicídio entre as linhas de investigação.

A defesa de Geraldo sustenta publicamente a versão de que a soldado tirou a própria vida com um tiro na cabeça no apartamento do casal. Do outro lado, o advogado que representa os interesses da família de Gisele atribui a morte a um crime, classificando o episódio como feminicídio cometido pelo próprio marido.

O ex-marido de Gisele também foi ouvido pela Polícia Civil. Segundo o advogado que acompanha a família, ele relatou em depoimento que a soldado nunca manifestou intenção de cometer suicídio.

Depoimentos dos socorristas que atenderam a ocorrência envolvendo a PM Gisele Alves, em 18 de fevereiro de 2026.

Depoimentos dos socorristas que atenderam a ocorrência envolvendo a PM Gisele Alves, em 18 de fevereiro de 2026.

Foto: Reprodução/TV Globo


Inquérito muda de rumo e polícia refaz cenário da morte

Com a contestação da família e novos elementos técnicos, a Polícia Civil reclassificou o caso como morte suspeita. A Justiça determinou a redistribuição para a Vara do Júri, ao entender que há indícios de crime doloso contra a vida, categoria que inclui feminicídio.

Como parte da investigação, peritos realizaram uma reprodução simulada do que pode ter ocorrido no apartamento do casal no Brás, etapa usada para confrontar a narrativa apresentada pelo tenente-coronel com os vestígios coletados e os depoimentos tomados.

Por decisão judicial, o corpo de Gisele chegou a ser exumado para novos exames, justamente porque permaneciam dúvidas técnicas sobre as circunstâncias da morte. Paralelamente, a Polícia Militar instaurou um Inquérito Policial Militar após receber denúncias anônimas sobre uma relação marcada por ameaças, perseguição e instabilidade emocional atribuídas ao tenente-coronel.

Laudos reforçam dúvidas e abrem duas linhas: suicídio ou crime

Os laudos já produzidos pela Polícia Técnico-Científica se tornaram centrais para a apuração. O exame necroscópico apontou traumatismo decorrente de disparo encostado do lado direito da cabeça como causa da morte e identificou lesões no rosto e pescoço compatíveis com pressão digital e marcas de unhas, confirmadas no primeiro exame e na exumação.

O laudo residuográfico não detectou pólvora nas mãos de Gisele nem do coronel, o que gera estranheza em relação à hipótese de suicídio. Já o laudo da trajetória do tiro indicou que o disparo foi de baixo para cima.

Ainda faltam ser anexados ao inquérito o laudo toxicológico, que deve apontar se Gisele consumiu alguma substância antes de morrer, e o laudo do local da morte, com registros fotográficos da posição do corpo. Peritos já adiantaram que encontraram sangue no banheiro, embora Gisele tenha sido encontrada morta em outro cômodo, o que também é analisado pelos investigadores.

Mesmo com os indícios que levantam dúvidas sobre a versão inicial, a Polícia Civil ainda não descartou formalmente a hipótese de suicídio e trabalha com as duas possibilidades: morte autoprovocada ou feminicídio.

Depoimentos e contradições na versão do oficial

Gisele tinha 32 anos e o tenente-coronel, 53. Foi ele quem relatou à Polícia Civil que, após uma discussão, comunicou à esposa que queria se separar e foi tomar banho. Um minuto depois, segundo sua versão, Gisele teria pegado sua arma e atirado contra a própria cabeça, sem que ele presenciasse o disparo. O oficial também foi o responsável por acionar a Polícia Militar para pedir ajuda.

Agentes que atenderam a ocorrência relataram estranheza ao fato de a arma estar ainda na mão de Gisele, algo considerado incomum em casos de suicídio por disparo de arma de fogo. Outro ponto sob análise é a informação de que o tenente-coronel teria dito que estava no banho quando o tiro foi disparado, mas estaria com o corpo seco quando as equipes chegaram ao local. Imagens de câmera de segurança registraram a ida de um desembargador amigo do oficial ao prédio após a ligação feita pelo coronel; depois do encontro, ele tomou banho.

Na avaliação da família e de seu advogado, a delegacia já teria elementos para pedir a prisão preventiva do oficial, com base em depoimentos de testemunhas, suspeitas de alteração da cena da morte e na soma dos laudos periciais já concluídos.

Impacto para a corporação e debate sobre violência doméstica

O tenente-coronel se afastou das atividades na corporação após a morte de Gisele. O escritório que o representa informou que ele participou da reconstituição do caso e pretende que o oficial volte a depor após a conclusão dos exames pendentes, incluindo o laudo complementar do Instituto Médico Legal.

Um médico do esporte que atendeu o casal dias antes da morte será indicado pela defesa como testemunha, para relatar que os dois buscaram orientação com o objetivo de adotar uma rotina mais saudável em conjunto.

Enquanto isso, o caso alimenta o debate público sobre violência doméstica, relações abusivas e a dificuldade de se caracterizar crimes contra a vida em situações inicialmente tratadas como suicídio, mas em que novos elementos técnicos e testemunhais impõem reavaliação.

Próximos passos da investigação

A delegacia responsável pela apuração aguarda a chegada e a análise dos laudos complementares para fechar o inquérito e definir se houve suicídio ou crime. O conjunto de evidências — incluindo exames necroscópicos, análises de trajetória do tiro, laudos residuográficos, reconstituição do fato e depoimentos — deve embasar o encaminhamento do caso ao Ministério Público.

Com a conclusão do inquérito, caberá à Promotoria decidir se apresenta denúncia criminal, considerando a hipótese de feminicídio, ou se pede o arquivamento, caso a tese de suicídio prevaleça. Até lá, a disputa de versões segue entre a defesa do tenente-coronel, que insiste em suicídio, e a família de Gisele, que acusa feminicídio e pressiona por responsabilização.

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