MPT e MTE resgatam 44 indígenas de trabalho análogo à escravidão na região de Araçatuba

Fiscalização encontrou alojamentos degradantes ligados a sindicato, com denúncias de salários atrasados, falta de alimentação, jornadas exaustivas e suspeita de recrutamento nas aldeias que pode configurar tráfico de pessoas

14/03/2026 às 12:12 por Redação Plox

Uma operação conjunta do Ministério Público do Trabalho (MPT) e do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) resgatou indígenas submetidos a condições análogas à escravidão na região de Araçatuba, no interior de São Paulo, entre os dias 2 e 6 de março. A fiscalização identificou graves violações a direitos fundamentais em diversos alojamentos do Sindicato dos Trabalhadores na Movimentação de Mercadorias em Geral e dos Estivadores e Capatazes de Araçatuba, usados para abrigar mão de obra indígena e avulsa.


Indígenas eram recrutados de suas aldeias com falsas promessas de emprego. Sindicato de Araçatuba mantinha vítimas em condições precárias

Indígenas eram recrutados de suas aldeias com falsas promessas de emprego. Sindicato de Araçatuba mantinha vítimas em condições precárias

Foto: Divulgação/MPT


Indígenas eram recrutados de suas aldeias com falsas promessas de emprego. Sindicato de Araçatuba mantinha vítimas em condições precárias

Indígenas eram recrutados de suas aldeias com falsas promessas de emprego. Sindicato de Araçatuba mantinha vítimas em condições precárias

Foto: Divulgação/MPT


Indígenas eram recrutados de suas aldeias com falsas promessas de emprego. Sindicato de Araçatuba mantinha vítimas em condições precárias

Indígenas eram recrutados de suas aldeias com falsas promessas de emprego. Sindicato de Araçatuba mantinha vítimas em condições precárias

Foto: Divulgação/MPT


Indígenas eram recrutados de suas aldeias com falsas promessas de emprego. Sindicato de Araçatuba mantinha vítimas em condições precárias

Indígenas eram recrutados de suas aldeias com falsas promessas de emprego. Sindicato de Araçatuba mantinha vítimas em condições precárias

Foto: Divulgação/MPT


Alojamentos precários e falta de comida

Em um dos alojamentos, localizado em Votuporanga, a equipe de fiscalização encontrou quatro trabalhadores das etnias Terena, Guarani e Caiuá em situação de extrema vulnerabilidade, com salários atrasados e sem acesso à alimentação.

Já em Floreal, trabalhadores vindos do Mato Grosso do Sul aguardavam havia 15 dias o início da safra sem receber qualquer remuneração, o que dificultava a compra de mantimentos básicos.

Ao todo, foram inspecionados cinco alojamentos, também nas cidades de Araçatuba e Buritama. As moradias apresentavam problemas graves de higiene e conforto, com sanitários precários e em número insuficiente. Nos espaços, os trabalhadores eram submetidos a forte odor e calor intenso.

De acordo com o relato da operação, 44 indígenas foram resgatados nessas condições.

Recrutamento em aldeias e suspeita de tráfico

A investigação apontou que os indígenas eram recrutados diretamente em suas aldeias de origem. Intermediários se deslocavam até esses territórios e ofereciam vagas de trabalho aos caciques, com promessas que não se confirmavam na prática. Segundo o MPT, essa dinâmica pode configurar tráfico de pessoas, a depender do que for comprovado.

Ao chegarem ao destino, os trabalhadores eram submetidos a jornadas exaustivas, como o descarregamento de sacos de soja e café, sem folga semanal fixa. Em Buritama, por exemplo, os relatos indicam que a escala ia de segunda-feira a domingo.

Os sistemas de remuneração também levantaram dúvidas. O sindicato descontava 13% dos salários a título de contribuição assistencial e repassava aos trabalhadores os custos com alimentação. Esse arranjo expunha os operários a risco iminente de endividamento e de permanência forçada no trabalho.

A submissão de trabalhadores a alojamentos degradantes e a jornadas que ignoram o descanso semanal é uma afronta direta à dignidade da pessoa humana

Regina Duarte da Silva, procuradora e coordenadora da Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (Conaete) na 15ª Região

Morte em carreta de soja expõe falta de proteção

Um dos episódios que mais chamou a atenção da força-tarefa foi o de um trabalhador que morreu soterrado em uma carreta de soja após dois anos de serviços avulsos. Na época do acidente, o sindicato não possuía seguro de vida para a vítima, que vivia em situação de rua em Araçatuba.

Durante a fiscalização realizada neste mês, a secretária-geral da entidade afirmou possuir apólices de seguro para os trabalhadores ativos, mas não apresentou a documentação comprobatória.

A investigação também indicou que o sindicato não dispõe de instrumentos coletivos de trabalho vigentes, sob a justificativa de problemas administrativos e dificuldades de registro junto ao MTE.

Para o MPT, o cenário na região de Araçatuba revela uma desestruturação profunda das garantias trabalhistas, com impacto maior sobre populações vulneráveis, como os povos indígenas, atraídos por promessas de renda e submetidos a ciclos de precariedade e risco à vida.

Termo de Ajuste de Conduta e acompanhamento

Diante das irregularidades, o sindicato firmou um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o MPT e o MTE. O acordo estabelece prazos para pagamento de verbas rescisórias e indenizações individuais e determina a regularização imediata das condições de trabalho e moradia, prevendo sanções em caso de descumprimento.

Auditores-fiscais do trabalho lavraram autos de resgate por trabalho análogo à escravidão e providenciaram a emissão de guias de seguro-desemprego para as vítimas.

Segundo o MPT, o sindicato permanece na condição de investigado em procedimento conduzido pela promotoria em Araçatuba, que acompanhará o cumprimento efetivo do TAC e a conduta trabalhista da entidade.

As denúncias de situações semelhantes podem ser apresentadas aos canais oficiais do MPT e do MTE, inclusive de forma anônima, reforçando o papel das operações integradas de fiscalização no combate ao trabalho análogo à escravidão e ao possível tráfico de pessoas.

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