Estudo aponta falhas em bases oficiais sobre câncer de pele no Brasil e alerta para impacto no diagnóstico precoce

Fundação do Câncer identifica ausência de dados como raça/cor e escolaridade em registros usados para monitorar a doença; em 2023, câncer de pele matou 5.588 pessoas no país

14/04/2026 às 11:47 por Redação Plox

Pesquisadores da Fundação do Câncer afirmam que os bancos de dados oficiais sobre câncer de pele no Brasil têm lacunas que podem comprometer o diagnóstico precoce e o tratamento da doença. Segundo a instituição, só em 2023 o câncer de pele matou 5.588 pessoas no país.

© Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Arquivo

© Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Arquivo


A análise foi feita a partir de informações dos Registros Hospitalares de Câncer (RHC), do Integrador dos Registros Hospitalares de Câncer (IRHC) e do Sistema de Informação sobre Mortalidade. Epidemiologistas e estatísticos identificaram falhas consideradas relevantes para a definição de políticas públicas de prevenção.

Lacunas em raça/cor da pele e escolaridade

Entre os problemas apontados pela Fundação do Câncer estão a ausência de dados sobre raça e cor da pele em mais de 36% dos casos e sobre escolaridade em cerca de 26% dos registros de pacientes.

As informações são importantes em um país como o nosso, onde a radiação ultravioleta é muito alta ou extremamente alta Alfredo Scaff

De acordo com o coordenador do estudo, o epidemiologista Alfredo Scaff, esses dados podem orientar ações de prevenção e ajudar na detecção e no tratamento precoces do câncer de pele, com impacto na redução do diagnóstico tardio.

Diferenças regionais nos registros

A Região Sudeste (ES, MG, RJ e SP) concentrou o maior percentual de falta de informações sobre raça/cor da pele, tanto nos casos de câncer de pele não melanoma (66,4%) quanto no melanoma (68,7%). Para os pesquisadores, essa incompletude restringe análises mais precisas sobre desigualdades raciais.

Já a região Centro-Oeste (DF, GO, MS e MT) apresentou o maior percentual de ausência de informações sobre escolaridade, novamente nos dois tipos: 74% nos casos de câncer não melanoma e 67% no melanoma.

Câncer de pele é o mais comum no país

Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o câncer de pele é o mais frequente no Brasil. Os principais tipos são os carcinomas basocelular — que atinge células basais na camada mais superficial da pele — e espinocelular, que se desenvolve em células escamosas, também na epiderme.

O melanoma, por sua vez, tem origem nos melanócitos (células produtoras de melanina). Ele é menos comum, mas é descrito como mais agressivo e com maior potencial de disseminação.

Estimativas para 2026 a 2028 e cenário no Sul

O Inca estima que, entre 2026 e 2028, sejam registrados anualmente cerca de 263.282 novos casos de câncer de pele não melanoma e 9.360 casos de melanoma. A previsão é de que a maioria seja identificada na região Sul (PR, RS e SC), que em 2024 registrou as taxas mais elevadas de mortalidade por câncer de pele melanoma, sobretudo entre homens.

Estudo aponta mais de 452 mil casos em uma década

Com base em dados oficiais do Inca, a Fundação do Câncer informa que, entre 2014 e 2023, foram registrados 452.162 casos de câncer de pele no Brasil. A doença é mais comum a partir dos 50 anos. O câncer de pele não melanoma vitima mais homens, enquanto o melanoma atinge homens e mulheres indistintamente, em todas as regiões.

Radiação ultravioleta é o principal fator de risco

A exposição à radiação ultravioleta é apontada como o principal fator de risco para todos os tipos de câncer de pele. O risco varia conforme a cor da pele — maior em pessoas de pele clara — e depende da intensidade e do padrão de exposição solar.

O texto também cita outros fatores associados ao desenvolvimento da doença, como histórico familiar, presença de pintas benignas com aparência irregular (nevos displásicos), múltiplos nevos, histórico de queimaduras solares intensas e fatores ocupacionais e ambientais, como exposição a alguns produtos.

Trabalho ao ar livre e fontes artificiais entram no alerta

Scaff chama atenção para a ideia de que risco e proteção não se resumem a praia e protetor solar. Ele destaca que pessoas que trabalham ao ar livre — como garis, policiais, trabalhadores da construção civil e da agricultura — têm maior exposição e precisam considerar, além do protetor solar, outros equipamentos de proteção individual, como blusas, chapéus e óculos com proteção UV.

O pesquisador também apontou o risco da exposição a fontes artificiais, como câmeras de bronzeamento. Segundo ele, a exposição intensa e intermitente, especialmente com queimaduras solares na infância e na adolescência, eleva o risco de melanoma, enquanto a exposição crônica se relaciona mais aos cânceres de pele não melanoma.

Ministério da Saúde ainda analisa resultados

A Agência Brasil informou que entrou em contato com o Ministério da Saúde, que ainda está analisando os resultados da pesquisa da Fundação do Câncer, e aguarda uma manifestação.

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