Relatório final da CPI do Crime Organizado liga facções à lavagem no sistema financeiro e pede indiciamento de ministros do STF

Texto de 220 páginas apresentado por Alessandro Vieira cita uso de fundos, fintechs e criptomoedas, propõe mais controle de armas e aponta exploração de menores nas redes; documento ainda será votado pela comissão

14/04/2026 às 15:34 por Redação Plox

Com cerca de 220 páginas, o relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado no Senado, apresentado nesta terça-feira (14) pelo relator Alessandro Vieira (MDB-SE), relaciona a atuação de facções e milícias a operações do mercado financeiro usadas para lavagem de dinheiro.

A comissão foi criada para apurar a atuação, expansão e funcionamento de organizações criminosas no território brasileiro, com foco em facções e milícias, e propor soluções para o enfrentamento do problema, especialmente por meio do aperfeiçoamento da legislação em vigor.


Relátorio da CPI do crime organizado é apresentado nesta terça-feira, documento tem 220 páginas.

Foto: Geraldo Magela / Agência Brasil


Os grupos criminosos, além de criptoativos e outros ativos – virtuais ou não –, têm igualmente se valido do sistema financeiro formal para ocultar ou dissimular a natureza ilícita dos bens originários Alessandro Vieira

No documento, Vieira cita o Banco Master como exemplo do uso do sistema financeiro para lavagem de dinheiro do crime organizado no Brasil. Segundo o relator, o caso evidenciou um nível de sofisticação em que facções de base territorial operariam em “simbiose” com agentes do mercado financeiro formal, valendo-se de fundos de investimento, gestoras de ativos e instituições bancárias.

O senador afirma ainda que a CPI constatou que a lavagem de dinheiro segue como mecanismo central de sustentação do crime organizado, com o uso de mercados lícitos para reciclar recursos do tráfico de drogas e de armas. No relatório, são citados setores como tabaco, ouro, combustíveis, mercado imobiliário e bebidas, além do uso de fintechs, criptomoedas e fundos de investimento, o que, para o relator, indica um padrão de operação com características empresariais.

O texto apresentado ainda depende de aprovação da CPI do Crime Organizado. A comissão pode pedir vistas do relatório, com sessão marcada para a tarde desta terça-feira (14).

Facções, milícias e a trilha do dinheiro

Diante da conexão apontada entre crime organizado e sistema financeiro, Alessandro Vieira sustenta que o enfrentamento não pode se restringir ao combate ostensivo em áreas dominadas por facções. Para o relator, é necessário atingir as cadeias econômicas que sustentam essas estruturas, com atenção especial a mercados de consumo massivo, rotas logísticas consolidadas e setores em que há aparência de legalidade.

Sem esse enfoque econômico e patrimonial, argumenta, a repressão tende a recair apenas sobre as manifestações visíveis da criminalidade, preservando os mecanismos que garantiriam sua reprodução financeira e institucional.

A CPI do Crime no Senado foi instalada após uma operação policial no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, que terminou com 122 mortesa maior letalidade de uma operação na história do país, segundo o texto.

Controle de armas entra na lista de prioridades

O relatório também aponta a necessidade de ampliar a fiscalização de armas e munições no Brasil. Na avaliação do relator, alterações legislativas e falhas de fiscalização criariam um ambiente propício a desvios e usos indevidos, tema que, segundo ele, interessa diretamente ao crime organizado.

Durante o governo de Jair Bolsonaro, foram editados decretos e regulamentos que flexibilizaram a posse de armas de fogo, em linha com a plataforma do governo anterior. Um estudo do Instituto Sou da Paz, citado no texto, aponta que medidas de flexibilização favoreceram o desvio de parte desse armamento para as mãos de criminosos.

Em 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou decretos para restringir o acesso a armas, revertendo a flexibilização no monitoramento e no acesso que havia sido promovida durante o governo anterior.

Plataformas digitais e aliciamento de crianças e adolescentes

Outro eixo da CPI foi o papel das plataformas digitais na criminalidade organizada e os ganhos econômicos de bigtechs com crimes cometidos na internet. No relatório, Alessandro Vieira afirma que o ambiente digital se tornou um elemento estruturante no aliciamento e na exploração de crianças e adolescentes.

O documento aponta, ainda, que o quadro seria agravado por uma atuação “predominantemente passiva” das plataformas, baseada em denúncias feitas por usuários — o que, segundo o relator, é especialmente problemático porque crianças e adolescentes não teriam plena capacidade de identificar, compreender e reagir adequadamente a situações de violência e exploração.

Dados citados no relatório indicam que a SaferNet Brasil registrou, entre janeiro e julho de 2025, 49.336 denúncias de abuso e exploração sexual infantil online, um aumento de 18,9%. O número corresponderia a 64% das denúncias de crimes cibernéticos no período.

Sistema prisional e déficit nas forças de segurança

O relatório descreve como “alarmante” o déficit de vagas no sistema prisional brasileiro, que ultrapassaria 202 mil. O problema é tratado como grave porque, segundo o documento, os presídios seriam a principal plataforma de facções no país. O Brasil, ainda de acordo com o texto, tem a terceira maior população prisional do mundo, com 701 mil pessoas presas.

Para reduzir o déficit, o relator calcula que seriam necessários aportes de R$ 14 bilhões para construção de novas vagas.

O documento também menciona um efetivo considerado “diminuto” nas forças de segurança, em razão das dimensões do país, e aponta que a Polícia Federal operaria com 40% de déficit no quadro funcional. Para o relator, a descapitalização de órgãos de controle e inteligência reduziria a capacidade do Estado de detectar, investigar e reprimir atividades ilícitas, funcionando como estímulo à expansão do crime organizado.

Pedidos de indiciamento e recomendação de intervenção no Rio

No mesmo relatório, Alessandro Vieira pede o indiciamento dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet. A base apontada para esses indiciamentos é o caso do Banco Master.

Segundo o relator, haveria indícios do cometimento de crimes de responsabilidade, incluindo “proferir julgamento, quando, por lei, seja suspeito na causa” e “proceder de modo incompatível com a honra, dignidade e decoro de suas funções”.

Além disso, o relatório recomenda que o presidente da República decrete uma intervenção federal no estado do Rio de Janeiro, classificada como medida “indispensável” diante da infiltração do crime no poder público local, o que, segundo o texto, comprometeria a capacidade do estado de conduzir, com autonomia e idoneidade, as ações necessárias de enfrentamento.

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