Detentos do Leste de MG trabalham na produção de uniformes para o sistema prisional

15/01/2020 19:26

Pioneira na manufatura de roupas para presos do Estado, penitenciária produz 6 mil peças por mês há 25 anos

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Os uniformes vermelhos utilizados por detentos em todo o Estado de Minas Gerais têm sua origem no próprio sistema prisional: as roupas são produzidas por presos em fábricas instaladas dentro de dez unidades. Além de ser uma ferramenta de ressocialização, ao garantir trabalho aos internos, a iniciativa também gera economia aos cofres públicos, pois evita a aquisição externa das roupas.

CAP 2208 Foto: Divulgação / Carlos Alberto Pereira

 

A pioneira dessa produção é a Penitenciária de Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, de onde sai a maior parte das calças que abastecem todo o sistema prisional. De segunda a sexta-feira, das 8h às 16h, 24 presos modelam, cortam e costuram as peças. Depois de pronto, o material é encaminhado para a Região Metropolitana de Belo Horizonte e distribuído para todo o estado. São 26 máquinas alocadas em um espaço de 187 metros quadrados, com produção média de 6 mil itens ao mês.

A oficina da penitenciária existe desde 1995 e é a mais antiga confecção para usufruto do Estado. O espaço funciona em uma antiga fazenda, inaugurada em 1984 nos moldes de uma colônia agrícola. A ideia da produção das roupas partiu de um servidor que é alfaiate. Na época, não existiam uniformes para presos, o que causava certo transtorno, já que dificultava a identificação deles. “O uniforme padroniza e cria uma identidade quando todos estão iguais”, diz o policial penal por trás do projeto, Vicente de Paula Rosa da Silva.

Silva conta que, quando começou a trabalhar na unidade prisional, viu essa necessidade. Ele conversou com o diretor, explicando que, com material e máquinas, seria possível criar uma fábrica, sendo que ele próprio ensinaria os presos a costurar. “O secretário da época autorizou a compra de maquinário e mais de 500 metros de pano azul royal. Fizemos uniforme para todos os presos e mandamos as fotos para a Secretaria de Segurança, que gostou da ideia e ordenou que a produção se expandisse para todo o Estado”, lembra.

O vermelho, atual cor dos uniformes, também surgiu na Penitenciária de Teófilo Otoni. Por estar localizada em uma área rural, com muita vegetação no entorno, o azul às vezes se confundia com o verde do mato, enquanto o vermelho propiciava um contraste mais forte.

Há 38 anos na penitenciária, Vicente Silva já se aposentou, mas retornou ao trabalho. Nos 25 anos em que comanda a confecção, ele estima que mais de 10 mil presos aprenderam a costurar. Além de ensinar como fazer os moldes, cortar, costurar e utilizar as máquinas, o servidor também é responsável pela manutenção dos equipamentos. Ele foi, ainda, quem deu suporte à instalação de confecções de uniforme em outras unidades prisionais do Estado, nos anos 1990.
“O trabalho, em qualquer área, é uma terapia ocupacional para quem gosta. As pessoas mudam sistematicamente, e essa mudança é perceptível pela expressão facial do recluso”, afirma Vicente. “Costumo dizer que todos nós somos produtos do meio em que vivemos, e grande parte dos sentenciados não tiveram sequer uma oportunidade. Por isso a importância dessa produção. Temos uma chance valiosa para mostrá-los o outro lado da moeda”, avalia.
Produção interna
Atualmente, a fábrica de Teófilo Otoni só produz calças masculinas. A confecção de uniformes é feita em mais outras nove unidades prisionais espalhadas pelo Estado. Lençóis, camisas, bermudas, calças, chinelos e também vassouras e rodos são feitos por presos. Aproximadamente 40 mil peças saem das fábricas todos os meses. 

A produção se divide da seguinte forma:

Penitenciária de Formiga – camisas;
Penitenciária Francisco Floriano de Paula, em Governador Valadares – bermudas;
Presídio de Itajubá – camisas;
Presídio de Caxambu – camisas, calças e bermudas femininas;
Presídio de Eugenópolis – lençóis;
Penitenciária de Teófilo Otoni – calças;
Presídio de Floramar, em Divinópolis – lençóis;
Presídio Professor Jacy de Assis, em Uberlândia – calças e bermudas;
Penitenciária Doutor Manoel Martins Lisboa Júnior, em Muriaé – chinelos, rodos e vassouras;
Penitenciária Dênio Moreira de Carvalho, em Ipaba – bermudas.

Ainda neste ano, duas unidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte, a Penitenciária Professor Jason Soares Albergaria, em São Joaquim de Bicas, e a Penitenciária José Abranches Gonçalves, em Ribeirão das Neves, também entrarão para a lista de confecções.

A Diretoria de Trabalho e Produção (DTP), setor responsável por coordenar a manufatura de uniformes do Departamento Penitenciário de Minas Gerais (Depen-MG), também está em negociações para levar novas fábricas para duas unidades com localização estratégica, o que facilitaria a distribuição: a Penitenciária Agostinho de Oliveira Junior, em Unaí, e o Presídio Regional de Montes Claros.

Ressocialização

No terreno da Penitenciária de Teófilo Otoni há também um pomar e um curral, onde 12 presos trabalham, e uma fábrica de bloquetes do lado externo, com dez detentos envolvidos na atividade. Dentro da unidade, 31 presos trabalham na horta e no jardim; outros 47 estão divididos em limpeza, entrega de marmitas, barbearia, reciclagem, manutenção, entre outros serviços gerais; 57 fazem artesanatos na cela e cinco trabalham na cozinha. Uma escola estadual também está instalada, com 151 alunos inscritos.
 



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