Suicídios em Minas crescem 34,5% em uma década e expõem crise de saúde mental

Estado registra salto de 1.357 mortes em 2014 para 1.825 em 2024; especialistas apontam impacto da pandemia, agravamento de transtornos mentais e avanço da depressão entre jovens, enquanto cresce a procura por apoio emocional e grupos de acolhimento

15/01/2026 às 07:46 por Redação Plox

Os efeitos emocionais, sociais e econômicos deixados pela pandemia de Covid-19 seguem presentes em Minas Gerais e ajudam a explicar uma epidemia silenciosa: o avanço dos casos de suicídio. Dados do Estado apontam que o número de pessoas que tiraram a própria vida aumentou 34,5% na última década, passando de 1.357 registros em 2014 para 1.825 em 2024. No período, ao menos 18.055 mineiros morreram dessa forma — o equivalente a uma morte a cada pouco mais de cinco horas.

No Colar Metropolitano, que reúne Belo Horizonte e outras 49 cidades do entorno, a alta estimada foi de 11%, conforme os dados mais recentes do DataSUS, divulgados em dezembro de 2025. No pico das notificações no Estado, em 2022, aproximadamente seis famílias enterravam, todos os dias, um parente que morreu por suicídio. “Foi um período de estresse crônico gravíssimo, que é sempre gatilho para doenças, inclusive as psíquicas. Ainda que muito tenha sido elaborado desde então, algumas cicatrizes nunca curam”, afirma o psicólogo Thales Coutinho.

Foto: Freepik


Fenômeno complexo e agravado pela pandemia

A psicóloga Vivian Zicker, membro da Associação de Estudos e Prevenção do Suicídio (ABEPS), destaca que o suicídio é um fenômeno multifatorial, sem causa única. Ela ressalta que a grande maioria dos casos está ligada a transtornos mentais, mas que há fatores de risco que se somam, especialmente após a pandemia: perda de status social, troca de escola das crianças, medo intenso durante o auge das mortes por Covid-19 e o surgimento ou agravamento de quadros de pânico, ansiedade e depressão.

Segundo a especialista, a decisão de tirar a própria vida costuma ser precedida por um longo processo interno, em que pensamentos sobre a morte ganham força e mudam de intensidade, passando de algo distante para uma ideia fixa. Mesmo quando o ato ocorre de forma aparentemente impulsiva, o sofrimento mental já vinha se acumulando.

A chamada “gota d’água” pode ser um acontecimento cotidiano, como pressão por produtividade, desemprego, endividamento, maior isolamento, falta de conexões afetivas, abuso de substâncias ou um momento agudo de solidão. O sociólogo Luciano Gomes ressalta que, quando os fatores externos da sociedade estão minimamente organizados, é menos provável que se observe um aumento relevante nas taxas de suicídio.

Depressão entre jovens e impacto do isolamento

A neurocientista, psicanalista e psicopedagoga Angela Mathylde aponta o avanço da depressão entre crianças e adolescentes como outro fator que ajuda a explicar o cenário atual em Minas. Segundo ela, o cérebro nessa faixa etária está em formação, ainda sem autorregulação emocional, o que torna o “não” e a frustração especialmente intensos e difíceis de manejar.

Angela lista o uso excessivo de telas, a exposição a conteúdos inadequados, a pressão por desempenho, a violência emocional e a solidão afetiva como elementos que podem empurrar crianças e jovens para quadros depressivos. Nesse contexto, falar sobre suicídio de forma responsável na adolescência é visto como fundamental, porque o que agrava o risco não é o diálogo, mas o silêncio em torno do sofrimento psíquico.

Demanda crescente por apoio emocional

Entre janeiro e setembro de 2025, o Disque 188, do Centro de Valorização da Vida (CVV), registrou 232.257 ligações de pessoas em busca de ajuda em Minas Gerais. Isso significa que, em média, 853 mineiros recorreram diariamente ao serviço, que oferece apoio emocional gratuito, anônimo e disponível 24 horas, com foco na prevenção do suicídio. Na prática, o telefone tocou a cada 1 minuto e 40 segundos.

A voluntária e porta-voz do CVV em Belo Horizonte, Norma Moreira, atende parte dessas ligações, guiada pela crença na empatia como ferramenta de cuidado. Ela relata que muitas chamadas vêm de pessoas que não desejam necessariamente morrer, mas que querem sair de uma situação considerada insuportável, marcada por sentimentos que não conseguem nomear ou compartilhar no próprio círculo de convivência.

Na prevenção ao suicídio, muitas vezes a pessoa liga não porque quer morrer, mas porque quer sair de uma situação muito dolorosa, acabar com um sentimento que não é compreendido. Nós não nascemos para viver sozinhos; o pertencimento é muito importante. Por isso, quando atendemos, estamos ali para fazer companhia, acolher, respeitar aquela história

Norma Moreira, voluntária e porta-voz do CVV em Belo Horizonte

Ela observa que, na madrugada, os relatos costumam ser mais intensos, já que o silêncio externo aumenta a percepção da solidão. Em muitos casos, quem liga volta a buscar o CVV diversas vezes, no mesmo dia ou ao longo de anos. Norma relata que, à medida que as pessoas encontram um espaço de escuta para falar de suas dores, tendem a aliviar um pouco o sofrimento e a afastar a ideia do autoextermínio.

Estigma agrava o luto de quem fica

O sofrimento não se limita a quem atravessa uma crise suicida. Familiares e amigos também precisam lidar com as consequências da perda, frequentemente marcadas por estigma e silêncio. A aposentada Regina Célia Ferreira Camelo, de 56 anos, perdeu a filha primogênita, Luiza, por suicídio há 11 anos, quando a jovem tinha apenas 16 anos, e descreve a experiência como um luto infinito.

Desde então, Regina criou a filha caçula, hoje adulta, mudou de casa, voltou à faculdade e está perto de concluir a graduação em psicologia. Nada, porém, foi suficiente para apagar as lembranças daquele ano. Enquanto muitos a enxergam como uma mulher “forte”, ela conta que aprendeu a engolir o choro e a evitar falar de uma dor que sente não ser compreendida, ao mesmo tempo em que busca respostas que não existem.

Ela relata ter tido pouco acolhimento no próprio círculo familiar. Com medo de piorar o estado de saúde da sogra, que estava em casa no momento da ocorrência, precisou inventar outra causa para a morte de Luiza. Anos depois, a mãe de Regina morreu sem saber o que de fato aconteceu com a neta; a família havia pedido que o assunto não fosse mencionado, e ela chegou ao fim da vida acreditando que a jovem estava em um intercâmbio no exterior.

Luto por suicídio e sentimento de culpa

Regina descreve os dias seguintes à morte da filha como uma experiência de morte em vida. Ela se dividia entre o esforço para apoiar a filha mais nova, então com 13 anos, e a sensação de vazio absoluto. Voltou a estudar para tentar ocupar a mente, mas, sozinha, precisava encontrar formas de lidar com a avalanche de emoções que a consumia.

Ela afirma que a morte por suicídio carrega um peso adicional: não é vista socialmente como outras perdas, provocadas por doenças ou acidentes. Sobre esse tipo de luto, relata ter sentido estigma, julgamentos, vergonha social e uma profunda sensação de fracasso como mãe, por não ter evitado a tragédia, mesmo com a filha estando em um cômodo ao lado. Com o tempo, a culpa diminuiu, mas deu lugar a uma saudade atravessada pela falta de explicações — já que, ao contrário de outras mortes, as razões do suicídio costumam ir embora com quem partiu.

Para a psicóloga Vivian Zicker, que também representa no Brasil a Associação de Suicidologia da América Latina e Caribe (ASULAC) e coordena o Grupo de Apoio a Enlutados por Suicídio (GAES) da UFMG, esses relatos são comuns entre familiares e amigos de pessoas que morreram dessa forma. Ela ressalta que, muitas vezes, a vítima e seus parentes são julgados já no velório, em uma busca social por culpados, quando, na realidade, o suicídio não se estrutura como um crime, mas como desfecho de um adoecimento mental grave.

Rede de enlutados e ressignificação

A pouca compreensão social sobre o tema cria um “cinturão de enlutados” ao redor de cada morte. Estimativas citadas por profissionais da área indicam que um único suicídio pode impactar indiretamente até cerca de cem pessoas, que, mesmo em silêncio, se perguntam se poderiam ter feito algo diferente. Esse questionamento se soma ao trauma de uma perda inesperada, sem possibilidade de despedida, como explica a psicóloga Daniela Piroli, mediadora do grupo de apoio Sobre Vivências.

Ela descreve esse processo como um “luto de si mesmo”: além de chorar quem se foi, sobreviventes precisam reconstruir a própria identidade e o sentido da vida na ausência do ente querido. Ao compartilhar histórias em grupo, parte desse peso é dividido e encontra eco em trajetórias semelhantes.

Quando o silêncio vira barulho interno

O advogado Ayrton Ângelo da Silva, de 61 anos, experimentou esse tipo de dor em 2023, quando perdeu o filho único, Leonardo, de 29 anos. Ele define a experiência como um “barulho desesperadamente silencioso”, que contrasta com a tendência das pessoas ao redor de evitarem o assunto. Enquanto o mundo tentava seguir adiante, Ayrton sentia necessidade de revisitar lembranças, procurar sinais e entender o que poderia ter passado despercebido.

Leonardo era biomédico, tinha um comércio e, embora fosse ansioso, não havia apresentado, segundo o pai, sinais claros de ideação suicida. Para Ayrton, o luto por suicídio é mais complexo justamente porque projeta na família a sensação de falência, despertando sentimentos conflitantes como raiva, revolta e culpa.

Ele encontrou algum alívio ao participar de um grupo de apoio a sobreviventes do suicídio, onde pôde falar sem ser julgado. Com o tempo, relata ter conseguido reduzir parte da culpa associada ao episódio, ainda que a saudade continue presente.

Compartilhar histórias reduz o peso do estigma

De acordo com a psicóloga Vivian Zicker, coordenadora do GAES, o compartilhamento de histórias em ambientes seguros é um ponto de virada para muitos enlutados. Ao ouvir relatos semelhantes, familiares e amigos tendem a compreender que a morte por suicídio está ligada a um adoecimento mental e à falta de alternativas percebidas por quem tirou a própria vida, e não a uma escolha racional e simples.

Para a especialista, essa compreensão ajuda a aliviar a culpa e a sensação de condenação social, fortalecendo os sobreviventes e permitindo que eles reencontrem algum sentido na própria trajetória.

Ações do poder público em saúde mental

Em nota, o governo de Minas informou que, desde 2019, foram investidos R$ 718 milhões nas diferentes etapas do cuidado em saúde mental, da atenção primária aos serviços de urgência. As ações incluem a ampliação e o fortalecimento da rede de atendimento voltada ao sofrimento psíquico, em um cenário em que a demanda por acolhimento e prevenção segue em alta.

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