Redes sociais estão indo pelo caminho errado, diz fundador do Orkut

O turco Orkut Büyükkökten analisa o cenário atual no universo das mídias sociais

Por Plox

15/02/2021 12h48 - Atualizado há 13 dias

Para o engenheiro de software Orkut Büyükkökten , fundador da rede social de mesmo nome que fez sucesso no Brasil, as plataformas de tecnologia têm caminhado em um sentido errado. “O foco total das redes sociais mudou do usuário para o que é melhor para a companhia, como ela pode fazer o máximo de dinheiro”, diz ele.
Aos 46 anos, o turco Orkut hoje é CEO do Hello Network , rede social que fundou com o objetivo de trazer a experiência das comunidades do Orkut de volta ao público. Hoje, o Hello tem cerca de dois milhões de usuários em todo o mundo.

Apaixonado pelo Brasil, por abraços e por sorrisos, como ele mesmo afirma, Orkut tem uma visão idealizadora das redes sociais. Para ele, a tecnologia deve ser utilizada para promover união e felicidade - e se isso não acontece atualmente, a culpa é das empresas que criam as plataformas usadas pelas pessoas.

criador do orkut

 

Confira a entrevista ao iG, com o turco Orkut Büyükkökten

Quando o Orkut estava em seu auge, que foi enorme aqui no Brasil, a sociedade no geral e até as leis não tinham muito essa preocupação com privacidade de dados como temos atualmente. Hoje, na gestão da Hello, eu imagino que você lide com isso de uma forma muito diferente. O que mudou de lá para cá nesse sentido?

Com o Orkut e também agora com o Hello, nossa prioridade é o usuário, e nós projetamos todas as experiências conectando pessoas e criando ambientes felizes. E quando arquitetamos e projetamos o Hello, nós tínhamos o usuário em primeiro lugar. Como resultado, criamos um ambiente feliz que não era vulnerável a violações de questões de privacidade ou segurança.

Se você olhar para as mídias sociais hoje, a prioridade delas é basicamente a autopromoção, porque elas são projetadas para que a base de usuários possa se autopromover. Isso porque quando eles se autopromovem, eles conseguem mais visualizações e interação, e gastam mais tempo no serviço. E quando eles gastam mais tempo, isso ajuda marqueteiros, anunciantes, terceiros e acionistas.

Então, o foco total das redes sociais mudou do usuário para o que é melhor para a companhia, como ela pode fazer o máximo de dinheiro. Como resultado, a maior preocupação é a receita. E para maximizar a receita, eles maximizam tempo de uso e cliques em publicidade, e não o usuário.

Então, houve uma grande mudança no cenário de redes sociais, e é por isso que vemos todos esses problemas sobre privacidade e segurança, porque se a companhia sabe que pode compartilhar os dados do usuário para lucrar com isso, ela não vai hesitar de forma nenhuma. E a atenção aos dados ficam nas políticas de privacidade e termos de serviços, mas ninguém realmente lê esses documentos. Então, sempre que uma empresa deseja compartilhar os dados de um usuário, ela precisa ser explícita sobre o que está fazendo com eles, mas esse não é o caso.

Hoje se fala muito no poder das redes sociais. Recentemente, a gente viu Donald Trump ser expulso de várias delas , e também o impacto do Facebook na política de Mianmar. Como você acha que as redes sociais devem lidar com a questão da moderação de conteúdo?

Essa é uma pergunta muito válida. Eu acho que as empresas tentam pegar oatalho e automatizar a moderação de conteúdo, porque custa muito mais dinheiro contratar humanos de verdade para olhar o conteúdo. E elas também pegam o atalho porque eles não têm o interesse do usuário em alta. O que elas se importam é em como podem manter as equipes de moderação de conteúdo menores, para que não gastem muito dinheiro.

Inteligência artificial e machine learning podem fazer um ótimo trabalho para conter bullying, spam e contas falsas. Mas no final das contas, você precisa de algum tipo de suporte dentro da empresa que ajude na moderação. E você também precisa criar uma comunidade que se importe com o serviço e também faça uma auto moderação.

Tanto no Orkut quanto no Hello, nós temos um time de suporte mas, no final, é a própria comunidade, os usuários, que marcam e reportam conteúdos suspeitos. Como resultado, não tivemos problemas como spam, fake news ou desinformação.

Outros políticos de outros países, como é o caso do Brasil, também já violaram e seguem violando as políticas de redes sociais. Você acha que o que aconteceu com Trump pode acontecer em outros lugares do mundo ?

Definitivamente. Eu acho que o Twitter fez um trabalho maravilhoso ao dizer “você não pode dar informações falsas”. Por exemplo, se o presidente vai e diz “você não precisa tomar a vacina contra a Covid-19”, isso seria uma bagunça. Todo mundo vai acreditar nele quando ler isso no Twitter. E isso de fato coloca a vida das pessoas em risco.

E nós vimos eleições, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, sair da influência que as redes sociais têm. E esse poder é meio assustador porque ele não é moderado e pessoas que tem agenda política e que conseguem gastar centenas de milhões de dólares em campanha política conseguem espalhar falsa informação. Porque a disseminação não é resultado do quão confiável você é, mas sim de quanto dinheiro você tem.

O Orkut foi um sucesso enorme aqui no Brasil, mas a gente não ouve falar muito do Hello. Conte para os seus fãs brasileiros o que sua rede social atual tem de diferente das demais.

Se você pensa no Orkut, o maior e mais popular recurso foram as comunidades. E [no Hello] nós projetamos todo o produto em torno das comunidades, e tornamos isso ainda melhor com o que chamamos de Personas.

Quando você entra no Hello, você escolhe cinco interesses ou paixões pelas quais você é mais interessado, e nós conseguimos mostrar outros usuários e conteúdos. Se você olhar para as mídias sociais hoje, elas são principalmente sobre transmissão. No Pinterest, você transmite seus favoritos, no Twitter, você transmite tuítes, no Instagram, você transmite fotos. Ou, então, é sobre mensagens um a um, se você pensar no WhatsApp, por exemplo.

E nós temos novos e interessantes produtos que surgem todos os dias. Nós temos o Clubhouse, que é quase como apresentar seu próprio programa de rádio ou podcast. Mas nenhum desses serviços realmente permite que você conheça novas pessoas e compartilhe pelo que você é apaixonado.

E nós projetamos o Hello como um lugar seguro onde você pode ser quem você realmente é, sem ser julgado, se conectando com outras pessoas, e conhecendo novas pessoas. E não existe nenhuma outra rede social que esteja fazendo isso agora.

 

Fonte: https://tecnologia.ig.com.br/2021-02-14/redes-sociais-estao-indo-pelo-caminho-errado-diz-fundador-do-orkut.html
PLOX BRASIL © Copyright 2008 - 2021