Anvisa deve decidir nas próximas semanas sobre rivais de Ozempic e Wegovy
Agência analisa pedidos para venda em farmácias de novos medicamentos com semaglutida, enquanto cresce a pressão por acesso e debate sobre preços e uso fora da bula
15/02/2026 às 14:18por Redação Plox
15/02/2026 às 14:18
— por Redação Plox
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A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deve se pronunciar nas próximas semanas sobre pedidos de autorização para a venda em farmácias de dois novos concorrentes de Ozempic e Wegovy, as canetas emagrecedoras da Novo Nordisk que usam a semaglutida como princípio ativo.
Novo Nordisk e Eurofarma vão lançar dois medicamentos injetáveis que possuem semaglutida
Foto: Freepik/imagem ilustrativa
A substância perde a patente em 20 de março, abrindo caminho para novos produtos no mercado. Por enquanto, porém, não há medicamentos rivais com registro aprovado no Brasil. Também não há garantia de aval imediato da agência, que pode solicitar informações adicionais às empresas ou até rejeitar os processos.
Análises em fase final na Anvisa
De acordo com a Anvisa, os pedidos estão em fase de revisão interna final para receber as primeiras manifestações. Um dos medicamentos em avaliação é da EMS, único laboratório nacional que já comercializa canetas emagrecedoras de geração anterior, à base de liraglutida, concorrentes de Saxenda e Victoza.
O outro pedido em estágio avançado foi inicialmente protocolado pela Momenta, empresa do grupo Eurofarma. Em nota, a companhia informou ter transferido o processo para a Ávita Care. A Eurofarma já atua no mercado de emagrecedores desde 2025, quando firmou parceria com a Novo Nordisk para a entrega de Poviztra e Extensior, marcas que também utilizam semaglutida.
A agência relata ainda ter rejeitado, em dezembro, o pedido de registro de um produto do laboratório Megalabs contendo liraglutida. A resposta à reportagem foi enviada no último dia 5, após questionamento via Lei de Acesso à Informação (LAI).
Como atuam as canetas emagrecedoras
As canetas pertencem ao grupo dos medicamentos agonistas de GLP-1, hormônio produzido no intestino que participa do controle da glicose no sangue e da sensação de saciedade. As principais marcas atualmente em circulação são baseadas em semaglutida (Ozempic e Wegovy, da Novo Nordisk) e em tirzepatida (Mounjaro, da Lilly). No caso da tirzepatida, o fármaco também age no receptor do hormônio GIP e tem patente válida até 2036.
A expectativa de aumento de concorrência alimenta a aposta de que os preços das canetas emagrecedoras possam cair, mesmo sem genéricos aprovados.
Pressão por acesso e queda de preços
O avanço desses medicamentos no mercado ocorre em meio a forte pressão de consumidores, parte da indústria e setores do mundo político para ampliar a oferta e reduzir custos. Ao mesmo tempo, o crescimento do uso para fins estéticos ou fora da bula, somado à expansão de versões manipuladas, acende alertas em associações e sociedades médicas.
Em 9 de fevereiro, a Câmara dos Deputados aprovou um requerimento de urgência para acelerar a análise de um projeto de lei que propõe a quebra de patentes de produtos contendo tirzepatida, como o Mounjaro. A indústria farmacêutica e o governo se posicionam contra a medida.
No total, a Anvisa avalia 14 pedidos de registro de produtos à base de semaglutida e outros sete com liraglutida. Nenhum deles está classificado como genérico, categoria em que o preço deve ser pelo menos 35% menor que o do medicamento de referência.
Governo Lula entra na disputa dos emagrecedores
Em 2025, a disputa pelo mercado de emagrecedores ganhou novo fôlego com a intervenção direta do governo Lula. A pedido do Ministério da Saúde, a Anvisa decidiu antecipar a análise de 20 processos de registro de medicamentos contendo liraglutida ou semaglutida, passando essas solicitações à frente de outros pedidos na fila.
A iniciativa foi tomada poucos dias após o ministro Alexandre Padilha gravar um vídeo no qual faz referência aos produtos lançados pela EMS.
Aquelas canetinhas que o pessoal está usando direto por aí, mais um produto na área, baixando o preço para a população
Alexandre Padilha
A EMS é hoje uma das empresas em posição mais favorável nesse segmento. A farmacêutica possui fábrica própria de peptídeos sintéticos em Hortolândia (SP), tecnologia usada na produção das canetas, e recebeu desde 2020 créditos de R$ 736 milhões do BNDES ligados a essa planta industrial.
Em nota, a empresa informou que aguarda a manifestação da Anvisa sobre seus produtos de semaglutida e destacou que as canetas já lançadas, Lirux e Olire, ambas à base de liraglutida, são amplamente comercializadas no país.
Críticas à priorização e impacto em outras terapias
O plano de acelerar a aprovação de canetas emagrecedoras motivou críticas de entidades do setor, como Interfarma e Sindusfarma, que apontaram risco de insegurança jurídica e atraso em outras análises. Já a PróGenéricos argumentou que a procura pelos fármacos cresceu de forma exponencial e classificou a medida como decorrente de “razões excepcionais de interesse público”.
Documentos internos da Anvisa obtidos pela reportagem mostram que técnicos da agência também veem a estratégia com reservas. Eles alertam que a prioridade dada aos emagrecedores pode atrasar o lançamento de medicamentos considerados mais importantes, inclusive para doenças graves como câncer, epilepsia, Parkinson avançado e AME (atrofia muscular espinhal).
Em resposta, a Anvisa afirma ter estabelecido um limite para o número de processos com tramitação acelerada, de forma a evitar prejuízos a outras terapias. A agência acrescenta que havia risco de desabastecimento das canetas e que a decisão de priorização favorece produtos com etapas de fabricação em território nacional.
Perspectiva de entrada no SUS
No governo, integrantes apontam que há interesse em levar o tratamento com canetas emagrecedoras ao SUS. As primeiras avaliações, porém, barraram a incorporação devido ao alto impacto financeiro, estimado em patamar bilionário.
Uma das principais frentes para viabilizar a oferta na rede pública é a parceria firmada entre a EMS e a Fiocruz para transferência da tecnologia de produção das canetas, em um modelo de produção nacional que poderia reduzir custos no médio e longo prazo.