Durante entrevista ao portal UOL nesta quarta-feira (14), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) declarou que não há mais recursos disponíveis caso seja condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na investigação relacionada à suposta tentativa de golpe de Estado em 2022. Segundo ele, a condenação representaria o fim de sua trajetória política: "Se eu for condenado, pronto, acabou, é 'game over'".
Foto: STF A fala ocorre após a Primeira Turma do STF ter recebido, por unanimidade, a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) no final de março, transformando Bolsonaro e outros sete acusados em réus por integrarem o núcleo central da chamada trama golpista. A Corte pretende julgar o mérito ainda em 2025, com o objetivo de evitar interferências nas eleições presidenciais de 2026.
Ao longo da entrevista, Bolsonaro voltou a criticar o STF, alegando que não sente satisfação em desgastar a imagem da Corte, mas que ela estaria sendo alvo de desgaste nacional e internacional. "Romênia, França, EUA também passaram por isso com o lawfare", afirmou. O termo, usado por ele, define o uso das leis para perseguir adversários políticos.
Apesar do tom crítico, o ex-presidente negou estar promovendo sucessores políticos. Embora tenha elogiado Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, evitou endossar seu nome para uma eventual candidatura presidencial. Bolsonaro também minimizou o encontro com o general Mário Fernandes no Palácio da Alvorada ao final de seu mandato. Fernandes está preso por suposto envolvimento no plano conhecido como 'Punhal Verde e Amarelo', que visava assassinar figuras como o presidente Lula (PT), o vice Geraldo Alckmin (PSB) e o ministro do STF, Alexandre de Moraes.
O ex-presidente afirmou que o general foi ao local apenas para prestar solidariedade e que cabe à Polícia Federal averiguar os detalhes do caso, que ele chegou a classificar como "roteiro de novela".
Outro ponto polêmico abordado foi a delação premiada do ex-ajudante de ordens, Mauro César Cid. Bolsonaro evitou afirmar se Cid mentiu, mas o acusou de ter sido submetido a tortura, comparando sua situação ao "pau de arara do século 21". A expressão remete a práticas de tortura da ditadura militar, período que o ex-presidente frequentemente defende. Segundo ele, a delação perdeu validade pela ausência de espontaneidade e verdade.
Em abril, ao ser questionado pela Folha de S.Paulo sobre uma eventual prisão, Bolsonaro afirmou que isso marcaria o "fim da vida" dele, ressaltando ter 70 anos de idade. Ele é acusado de cinco crimes, cujas penas somadas ultrapassam os 40 anos.
A entrevista foi concedida em meio a um embate entre a Câmara dos Deputados e o STF. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), reagiu à decisão da Corte de anular uma manobra parlamentar em favor do deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), também réu no caso. Motta anunciou que levou a questão ao plenário do STF por meio de uma ADPF e sinalizou apoio à proposta de emenda constitucional que visa limitar decisões monocráticas dos ministros da Corte.
A PEC, aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) em outubro do ano passado, prevê que decisões individuais dos magistrados não possam derrubar leis aprovadas pelo Congresso. A medida integra um pacote de ações articuladas por parlamentares insatisfeitos com a atuação do STF.