Empresas ligadas ao caso Master criam R$ 45,5 bi em ‘estoques de carbono’ sobre terra da União
Golden Green e Global Carbon inflaram bilhões em ativos a partir de área pública destinada à reforma agrária no Amazonas, vetada pelo Incra para uso privado, com validação de grandes consultorias e ligação a fundos investigados na Operação Carbono Oculto
16/01/2026 às 09:53por Redação Plox
16/01/2026 às 09:53
— por Redação Plox
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Empresas ligadas ao chamado caso Master construíram uma valorização conjunta superior a R$ 45,5 bilhões a partir de milhões de “créditos de estoques de carbono” associados a uma área pública da União na Amazônia, que não poderia servir de base para esse tipo de ativo privado.
Documentos aos quais a reportagem teve acesso mostram que a Golden Green e a Global Carbon, ambas controladas por fundos geridos pela Reag, investigada pela Polícia Federal, passaram por reavaliações bilionárias de ativos. Essas operações se apoiaram na contabilidade de unidades de estoque de carbono vinculadas à área conhecida como Fazenda Floresta Amazônica, em Apuí (AM), com extensão declarada de 143,9 milhões de hectares.
Investigação sobre o Banco Master tem envolvido diversas figuras |
Foto: Divulgação
Área é pública e destinada à reforma agrária, diz Incra
Essa terra, porém, não pertence às empresas e, segundo o governo federal, também não poderia ser arrendada para exploração econômica privada, por se tratar de área pública com destinação social, voltada à reforma agrária.
O Incra confirmou a informação à reportagem e declarou que se trata de área da União, destinada a projeto de assentamento federal, com matrícula e portaria de arrecadação dos anos 1980. De acordo com a autarquia, qualquer negociação de ativos de carbono baseada na floresta dessa região configura ato irregular e causa danos à União.
Para conter a movimentação em torno do imóvel, o Incra informou ter aberto processo administrativo de fiscalização que vetou o cadastro da área no Sistema Nacional de Cadastro Rural (SNCR) e negou sua certificação no Sistema de Gestão Fundiária (Sigef). Na prática, o território não está regularizado como propriedade privada, nem pode sustentar direito exclusivo sobre a terra ou sobre seu suposto “estoque” ambiental.
Mesmo assim, auditorias e consultorias de renome precificaram unidades de estoque de carbono e atualizaram, ao longo do tempo, o valor desses “ativos”, sem registrar ressalvas sobre o litígio em torno da origem dos créditos. Os relatórios se concentraram na validação do modelo contábil e da metodologia, sem discutir a situação fundiária da área usada como lastro.
Como o estoque de carbono virou ativo bilionário
Golden Green e Global Carbon afirmam que o inventário de carbono foi elaborado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), que estimou um estoque total de 168,8 milhões de toneladas de CO₂ na área apontada. A partir desse número, as empresas avançaram para a precificação do carbono.
Em 2020, a Ernest Young foi contratada para analisar a metodologia de cálculo utilizada, com foco na checagem das fórmulas adotadas. A partir dessa análise, foi definido, por exemplo, que cada unidade de carbono teria valor de R$ 129,30.
Dois anos depois, em 2022, a Golden Green contratou a PwC Auditores Independentes para revisar as demonstrações financeiras. O parecer chancelou um aumento do valor para R$ 149,56 por unidade. Com 74,228 milhões de créditos de estoque de carbono registrados em balanço, o ativo total foi estimado em R$ 11,1 bilhões.
Em dezembro de 2024, a Crowe também examinou os números da Golden Green e aprovou nova atualização: cada unidade de estoque passou a valer R$ 197,49, o que representou uma alta de 32% em dois anos e levou o valor total do ativo a R$ 14,6 bilhões.
Os pareceres não trazem alertas sobre a origem concreta dos créditos, limitando-se a aceitar que o modelo contábil estava correto e que o carbono estaria lastreado em Créditos de Produto Rural (CPR), supostamente sob guarda de um escritório em Londres.
De armarinho a R$ 31 bilhões em quatro anos
O mesmo padrão aparece no caso da Global Carbon. Constituída em 2020 como um pequeno armarinho em São Paulo, com capital social de apenas R$ 100, a empresa alcançou valor de R$ 31 bilhões em 2024, também apoiada em estoques de carbono associados à mesma área pública na Amazônia.
Golden Green e Global Carbon ergueram, assim, suas cifras bilionárias sobre o mesmo território, localizado em uma região marcada pelo avanço do desmatamento e pela grilagem de terras.
A Golden Green tem como investidor o fundo Jade; a Global Carbon, o fundo New Jade 2. Ambos são administrados pela Reag e estão sob investigação no âmbito da Operação Carbono Oculto, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro ligada ao PCC. O New Jade 2 aparece na ponta de uma cadeia de controle de fundos que começa no Hans 95, um dos seis veículos classificados como fraudulentos pelo Banco Central.
Estoque não é crédito de carbono negociável
Além do impasse sobre a posse da terra, especialistas apontam que não há referência de mercado que justifique o preço atribuído aos estoques de carbono registrado pelas empresas. No mercado hoje se negocia crédito de carbono, e não “crédito de estoque de carbono”.
O crédito de carbono é um certificado emitido por um programa reconhecido, associado a uma redução comprovada e passível de venda de emissões de gases de efeito estufa. Já o “estoque de carbono” é apenas uma estimativa de quanto CO₂ está armazenado em uma determinada área — o que, por si só, não se converte em crédito de mercado, nem garante comprador ou preço.
Em documentos próprios, Golden Green e Global Carbon admitem que se apoiam em premissas internas, justamente porque não existem transações de referência para esse tipo de ativo. O que as empresas alegam possuir é um estoque estimado, e não créditos gerados, certificados e negociáveis.
Laudos de avaliação e contestações
O economista Marco Aurélio Hardt, da Horbia Partners, assinou o laudo mais recente de valorização da Global Carbon, de dezembro de 2024. Ele afirmou que baseia a avaliação no preço de uma cesta de commodities e no balanço financeiro apresentado pela empresa.
Eu assumo isso como dado. Não fiz cálculo nenhum, eu apenas reproduzi o que está no balanço patrimonial da empresa, que é auditado. A prova que o ativo existe está na auditoria que foi feita sobre o balanço. Meu laudo é de avaliação econômica.Marco Aurélio Hardt
No caso da Golden Green, Hardt reconhece ter avaliado a empresa em R$ 14,2 bilhões em agosto de 2025, mesmo sem dispor de balanço auditado por terceiro, mencionando que contou apenas com as demonstrações fornecidas pela própria companhia. Ele sustenta que esse tipo de avaliação é permitido pelas normas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Reações das empresas e dos envolvidos
A reportagem procurou os diretores da Golden Green, mas não obteve retorno. A assessoria da Global Carbon afirmou que a informação do Incra sobre o caráter público da área é correta e disse que essa confirmação só chegou à empresa dois anos depois da originação dos ativos ambientais.
Segundo a Global Carbon, ao tomar conhecimento da situação, o desenvolvedor do projeto ambiental comunicou o fato ao Incra em janeiro de 2025 e a companhia diz estar em fase avançada de tratativas com a diretoria fundiária da autarquia para buscar a regularização dos ativos ambientais.
A defesa de Daniel Vorcaro declarou que nem o Banco Master nem seu controlador são ou foram cotistas, gestores ou administradores dos fundos ou veículos citados e afirmou que vem colaborando com as autoridades competentes, reiterando confiança de que o esclarecimento dos fatos afastará associações consideradas indevidas.
A Reag informou que Golden Green e Global Carbon “são empresas em fase de preparação”, com ativos ambientais oficialmente registrados, mas que ainda não foram transformados em produto ou receita porque dependem de etapas técnicas ou regulatórias antes de serem comercializados. A gestora também sustenta que as empresas detêm áreas de floresta voltadas à geração de crédito de carbono.
Posicionamento das auditorias
A Ernst Young declarou que foi contratada apenas para um serviço de checagem da metodologia e das fórmulas matemáticas desenvolvidas pela Brasil Mata Viva (BMV), esclarecendo que avaliou apenas a fórmula de cálculo, e não os valores, tampouco a origem dos ativos.
A empresa acrescentou que não houve contratação de serviços de auditoria e que o trabalho tinha como único propósito subsidiar a administração da BMV em suas análises, sem autorização para divulgação ou uso para outros fins.
A PwC não se manifestou até a publicação desta reportagem. Já Marcelo Lico, sócio-fundador do Grupo Crowe Macro Brasil, afirmou que o trabalho da firma foi realizado em conformidade com as normas brasileiras e internacionais e que o objetivo da auditoria é expressar opinião sobre demonstrações contábeis com base nas evidências disponíveis à época.