Exame toxicológico da CNH: quais drogas são detectadas e como funciona o teste

Nova lei aprovada em dezembro de 2025 estende teste de larga janela a candidatos à primeira habilitação nas categorias A e B, com detecção de drogas por até 90 dias, custo médio entre R$ 110 e R$ 250 e expectativa de até 2 milhões de novos exames em 2026

16/01/2026 às 09:46 por Redação Plox

Em dezembro de 2025, o Congresso Nacional aprovou a exigência do exame toxicológico para a emissão da primeira CNH nas categorias A e B. Com a mudança, quem pretende tirar a habilitação precisa apresentar resultado negativo em um teste capaz de identificar o uso de drogas nos últimos meses. A nova regra amplia o alcance de um tipo de exame já obrigatório para motoristas profissionais e reacende a dúvida: afinal, o que reprova no teste toxicológico?

Com a ampliação da exigência, cresce a atenção sobre quais substâncias levam ao resultado positivo. Entre 2021 e 2025, a cocaína liderou a lista de drogas mais detectadas em exames toxicológicos no Brasil feitos com motoristas das categorias C, D e E, segundo dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran). O volume elevado de registros, porém, não significa necessariamente que seja a substância mais consumida. Especialistas explicam que um único episódio de uso pode deixar vários “rastros” no organismo, todos identificáveis pelo teste.


Vai tirar a primeira CNH? Veja o que pode reprovar no exame toxicológico

Vai tirar a primeira CNH? Veja o que pode reprovar no exame toxicológico

Foto: Agência Brasil

O que reprova no exame toxicológico da CNH

O exame toxicológico de larga janela é organizado por classes de substâncias, que reúnem diferentes compostos analisados em conjunto. Se qualquer uma das drogas de uma dessas classes for detectada dentro da janela de análise, o resultado é considerado positivo.

Entre as classes pesquisadas, estão:

Anfetaminas: rebite, ecstasy (MDMA) e “bolinha”.

Canabinoides: maconha, haxixe, skunk.

Opiáceos/Opioides: morfina, heroína, ópio bruto e oxicodona.

Cocaína: cocaína, crack, bazuca.

Outros: mazindol, remédio para emagrecimento com efeito estimulante.

Essas referências são utilizadas em laboratórios especializados, como os que contam com atuação de médicas em exames toxicológicos.

Como o exame toxicológico é feito

O exame de larga janela utiliza amostras de cabelo, pelos ou unhas e identifica o consumo de substâncias psicoativas em um período retrospectivo mínimo de 90 dias, podendo chegar a 180 dias. A análise não mede apenas o uso recente, mas um histórico de exposição às drogas.

O processo inclui coleta em postos credenciados, envio ao laboratório, análise detalhada e emissão de laudo rastreável. A confiabilidade do procedimento é garantida por normas técnicas, cadeia de custódia e protocolos específicos para evitar contaminação ou adulteração da amostra.

Cabelos e unhas funcionam como ‘arquivos biológicos’, permitindo detectar o uso de drogas semanas ou até meses após o consumo, com mais confiabilidade do que exames de sangue ou urina

Aryadyne Bueno

O passo a passo normalmente segue estas etapas:

1. Agendamento e escolha de um laboratório credenciado.

2. Coleta da amostra biológica (cabelo, pelos ou unhas).

3. Envio da amostra ao laboratório.

4. Análise laboratorial por métodos específicos.

5. Emissão do laudo com o resultado.

As drogas mais detectadas entre 2021 e 2025

Levantamentos feitos com motoristas profissionais mostram predominância da cocaína nos resultados positivos. De acordo com dados da Senatran referentes ao período entre 2021 e 2025, as substâncias mais detectadas foram:

Cocaína: 462.643 detecções (cerca de 87%).

Opiáceos: 37.797 (7%).

Anfetaminas: 21.938 (4%).

Maconha: 10.525 (2%).

A presença maciça da cocaína nos exames está relacionada à forma como a droga é metabolizada pelo organismo. Após o consumo, a substância é transformada em diferentes metabólitos que permanecem incorporados aos fios de cabelo por longos períodos, o que amplia as chances de detecção.

Esses metabólitos podem ser identificados mesmo depois de a droga ter sido eliminada do sangue ou da urina. Assim, um único episódio de uso pode gerar múltiplas detecções associadas à mesma substância, sem que isso signifique consumo frequente.

As anfetaminas também aparecem com destaque entre os resultados positivos e estão frequentemente ligadas ao uso de estimulantes conhecidos como “rebites”, usados para tentar prolongar o estado de alerta em viagens longas.

Entre 2021 e 2025, a Senatran registra a realização de quase 18,5 milhões de exames toxicológicos em motoristas profissionais. Desse total, cerca de 223 mil apresentaram resultado positivo, o que corresponde a pouco mais de 1,2%. No mesmo período, foram registradas mais de 530 mil detecções de substâncias, número superior ao de exames positivos porque um único teste pode apontar mais de um composto ligado à mesma droga.

Casos práticos: quando o uso de drogas reprova

Na prática, o exame de larga janela pode apontar consumo mesmo em situações de uso eventual. Alguns cenários ajudam a entender:

“Usei maconha em uma festa há dois meses. Vou reprovar?”

Há risco de reprovação. O uso recreativo de canabinoides, como a maconha (THC), pode ser detectado porque os metabólitos da droga ficam incorporados à queratina presente em cabelos, pelos e unhas. O exame considera uma janela mínima de 90 dias.

“Usei cocaína ocasionalmente. Aparece?”

Sim. Mesmo o uso recreativo ou esporádico de cocaína costuma ser detectado no exame de larga janela. O laudo não mede dose exata, apenas a presença acima de limites técnicos estabelecidos. Técnicas como cromatografia e espectrometria de massa permitem identificar níveis muito baixos de metabólitos.

“Quanto tempo a cocaína fica no cabelo?”

O exame analisa, em regra, um histórico mínimo de 90 dias, independentemente de a droga ter sido usada uma única vez ou em poucas ocasiões dentro desse período.

“O exame detecta álcool?”

Não. O álcool não faz parte do painel pesquisado no exame toxicológico exigido para a CNH.

Remédios que podem reprovar no exame

Entre os medicamentos, o principal que pode levar à reprovação é o mazindol, emagrecedor com efeito estimulante que integra a lista de substâncias pesquisadas no exame toxicológico da CNH.

Especialistas recomendam que o candidato à habilitação informe ao laboratório o uso de medicamentos e apresente prescrição médica. Ainda assim, a detecção de mazindol tende a resultar em laudo positivo, já que o composto está incluído na relação de drogas monitoradas pelos órgãos de trânsito.

O mazindol é um estimulante do sistema nervoso central, estruturalmente relacionado às anfetaminas, e por isso é identificado pelo exame. O condutor que testar positivo não poderá obter ou renovar a CNH até apresentar resultado negativo. O uso da substância pode afetar o sistema nervoso central, provocando insônia, agitação, aumento da pressão arterial e alteração de reflexos.

Mitos e tentativas de burlar o teste toxicológico

Com a popularização do exame, multiplicam-se também os mitos sobre formas de escapar da detecção. Alguns dos mais comuns são:

1. Raspar o cabelo evita o exame.

Não evita. Se não houver cabelo disponível, o laboratório pode utilizar pelos do corpo ou unhas para a coleta da amostra.

2. É possível fazer o exame com urina ou sangue.

Não. O exame toxicológico de larga janela exigido para a CNH utiliza exclusivamente cabelo, pelos ou unhas, justamente porque essas estruturas armazenam substâncias químicas por períodos prolongados.

3. Dá para “limpar” o organismo em semanas com água, chás ou dieta.

Não. A janela de detecção é de meses e não é influenciada por hidratação, exercícios ou mudanças alimentares, já que a análise é feita diretamente no material queratínico (cabelo, pelos, unhas).

4. Remédios comuns podem dar positivo.

Em geral, não. Medicamentos de uso habitual não são alvo do exame. A principal exceção é o mazindol, que integra o painel de substâncias monitoradas.

O que muda para quem vai tirar a primeira CNH

A nova exigência foi aprovada por meio do Projeto de Lei nº 15.153/2025. Até então, o exame toxicológico era obrigatório apenas para condutores das categorias C, D e E, que abrangem veículos de carga, transporte coletivo e combinações com unidades acopladas. Com a mudança, passa a ser exigido também para candidatos à primeira habilitação nas categorias A e B.

Laboratórios credenciados estimam um impacto significativo no volume de testes. A expectativa é de que a nova regra gere entre 1,3 milhão e 2 milhões de novos exames em 2026, o que representa um crescimento superior a um terço em relação ao mercado atual.

O exame toxicológico é uma ferramenta importante para aumentar a segurança viária, prevenir acidentes e garantir que condutores não estejam sob efeito de substâncias psicoativas. É uma medida de proteção não só ao motorista, mas também a passageiros, pedestres e à sociedade

Aryadyne Bueno

Onde fazer o exame e qual o custo

O exame toxicológico deve ser realizado em laboratórios credenciados pelos órgãos de trânsito federais. A legislação que instituiu a nova obrigatoriedade também permite que clínicas médicas de aptidão física e mental instalem postos de coleta, desde que autorizadas.

A validade do laudo é de 90 dias a partir da data de coleta, prazo que precisa ser observado pelo candidato para não perder o resultado. Segundo entidades da área de toxicologia, o custo médio do exame fica entre R$ 110 e R$ 250, com prazo de até 10 dias úteis para a emissão do laudo.

Com a ampliação da exigência, o exame toxicológico passa a ser uma etapa adicional na obtenção da CNH, reforçando o controle sobre o uso de drogas por condutores e ampliando a fiscalização sobre a aptidão para dirigir.

Compartilhar a notícia

V e j a A g o r a