Imagens mostram últimos atos de chefe de segurança que morreu ao tentar resgatar brigadistas em incêndio no Shopping Tijuca
Imagens registram Anderson Aguiar do Prado combatendo chamas e voltando várias vezes à área tomada por fumaça para resgatar brigadistas e clientes; suspeitas sobre falhas em equipamentos dividem familiares e empresa enquanto a 19ª DP investiga o caso
16/01/2026 às 09:53por Redação Plox
16/01/2026 às 09:53
— por Redação Plox
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Câmeras de segurança registraram os últimos momentos de Anderson Aguiar do Prado, chefe da segurança do Shopping Tijuca, na Zona Norte do Rio. Ele morreu após tentar salvar brigadistas durante o incêndio que atingiu o centro comercial no dia 2 de janeiro. As imagens internas, obtidas com exclusividade pelo RJ2, mostram quando ele enfrenta a fumaça e o fogo para proteger funcionários e clientes.
O incêndio começou por volta das 18h04 na loja Bellart, no subsolo do shopping. Cerca de cinco minutos depois, Anderson já corria pelo corredor com a primeira mangueira para tentar conter as chamas.
As imagens o mostram no subsolo, desenrolando mangueiras de incêndio e tentando conter o fogo sozinho, em meio ao público que ainda circulava na área. Às 18h12, ele surge com uma segunda mangueira e, em seguida, ajuda na entrada da primeira brigadista no local.
Três minutos após a chegada da brigadista Emellynn Silvia Aguiar, que morreu por asfixia, a fumaça já tomava o subsolo. Anderson volta a aparecer esticando mangueiras e conversando com colegas que saem cambaleando da região tomada pela fumaça.
Anderson pega uma mangueira para tentar iniciar o combate ao fogo
Foto: Reprodução/TV Globo
Últimas tentativas de resgate
Às 18h23, a fumaça começa a se espalhar ainda mais pelo subsolo. Anderson retorna diversas vezes à loja em chamas, mesmo sem equipamentos completos de proteção. Às 18h31, decide entrar de novo para tentar resgatar duas brigadistas. São as últimas imagens dele consciente.
Segundo o chefe da equipe de brigadistas, Anderson desceu novamente ao subsolo para tentar retirar as duas profissionais que tinham ficado para trás e chegou a indicar a saída para uma delas antes de desmaiar, enquanto seguia atrás de Emellynn.
O corpo de Anderson só volta a aparecer nas câmeras, já no térreo, cerca de duas horas depois, quando é retirado desacordado pelos bombeiros, com máscara de oxigênio. Ele foi levado ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos.
Anderson corre para entrar novamente na loja em chamas
Foto: Reprodução/TV Globo
Anderson, já sem paletó, entra pela última vez na loja. Esta é a última imagem dele antes de ser retirado desacordado
Foto: Reprodução/TV Globo
Chefe da segurança do Shopping Tijuca, Anderson morreu no incêndio tentando salvar brigadistas
Foto: Reprodução/TV Globo
Morte de brigadista e suspeitas sobre cilindro de oxigênio
O corpo de Emellynn foi localizado sem vida na madrugada seguinte. À 1h25, bombeiros retiraram a brigadista pela escada rolante até o térreo do shopping. A perícia apontou asfixia como causa da morte.
Colegas de trabalho levantaram a suspeita de que o oxigênio do cilindro teria acabado, o que poderia ter impedido Emellynn de deixar a loja antes de perder a consciência por inalação de fumaça.
Em depoimento à polícia, a mãe da brigadista relatou que a filha demonstrava preocupação com a quantidade de oxigênio nos cilindros usados pela equipe. Em uma ocasião, segundo o relato, Emellynn comentou que um dos cilindros estava “leve”, com cerca de 15 quilos, quando o peso correto deveria ser de 30 quilos.
A mãe também disse que a filha reclamava de defeitos na máscara de proteção e de problemas recorrentes no sistema de combate a incêndio, sem que providências fossem tomadas.
Já o diretor de operações da empresa CM Couto, responsável pelos brigadistas do shopping, afirmou à polícia que os cilindros passaram por supervisão em outubro do ano anterior e que todos os equipamentos tinham menos de três anos de uso. Ele explicou que o tempo de duração do oxigênio varia entre 20 e 30 minutos e que os cilindros contam com um dispositivo de segurança que emite um sinal sonoro quando restam cerca de 20% da carga, orientando o retorno à área segura antes da perda de visibilidade ou do acionamento do alarme.
Nesta quinta-feira, o chefe da equipe de brigadistas que atuou no incêndio declarou que todos os equipamentos funcionaram normalmente e que passavam por checagens periódicas.
Emellyn foi uma das mortas no incêndio
Foto: Reprodução/TV Globo
Movimentação no shopping durante o incêndio
O Shopping Tijuca tem dez andares e, segundo a administração, cerca de 7 mil pessoas estavam no local no momento do incêndio. Imagens analisadas pela reportagem mostram que, até pelo menos uma hora após o início do fogo, ainda havia clientes circulando pelo centro comercial.
A polícia apura por que, mesmo com os bombeiros já no local, o estacionamento continuou aberto para a entrada de veículos. Já se sabe que ao menos um cliente acessou o shopping 40 minutos depois do início do incêndio.
Outros registros mostram duas mulheres chegando ao subsolo de elevador às 18h32, a poucos metros da loja em chamas, aparentemente desorientadas. Câmeras da portaria da Rua Enaldo Cravo Peixoto também indicam a entrada de pedestres cerca de 40 minutos após o começo do fogo.
A partir das 18h50, as imagens revelam um movimento mais intenso de saída. Algumas pessoas aparecem com o rosto coberto, enquanto outras correm para deixar o prédio. Às 19h03, uma das portarias é fechada, e novos clientes passam a ser impedidos de entrar.
As gravações usadas na investigação não abrangem outras áreas do shopping, como o estacionamento e os cinemas, que ficam no sétimo andar.
Veja como ficou o subsolo do Shopping Tijuca três dias após incêndio que matou duas pessoas
Foto: Divulgação Corpo de Bombeiros
Versão do Shopping Tijuca
Em nota, o Shopping Tijuca afirmou que os protocolos de emergência foram cumpridos e que cerca de 7 mil pessoas foram evacuadas em segurança. Segundo o comunicado, a loja onde o fogo começou foi esvaziada em cinco minutos pela brigada, e o subsolo, considerado área crítica naquele momento, foi evacuado em 12 minutos, antes da chegada dos bombeiros.
A administração diz ainda que os seis pisos superiores passaram por evacuação gradual, para evitar acidentes e pânico. Sobre o hidrante, o shopping sustenta que a manutenção e a verificação do funcionamento dos equipamentos internos das lojas são responsabilidade dos lojistas, conforme normas e contratos.
De acordo com a nota, no primeiro combate às chamas, até a chegada e assunção da ocorrência pelo Corpo de Bombeiros, a brigada utilizou o sistema de combate a incêndio existente no corredor do subsolo. O shopping afirma que todos os equipamentos e sistemas passam por inspeções de rotina.
Os cilindros usados pela brigada, segundo o comunicado, são fornecidos e supervisionados pela CM Couto, empresa especializada que presta o serviço ao centro comercial. O shopping reforçou que mantém colaboração permanente com as investigações em andamento.
Veja como ficou o interior do Shopping Tijuca três dias após incêndio que matou duas pessoas
Foto: Corpo de Bombeiros
Reabertura parcial e avanço da investigação
O shopping será reaberto ao público na sexta-feira (16). O incêndio começou no subsolo e atingiu também lojas do primeiro andar. O subsolo e parte do primeiro piso foram interditados pela Defesa Civil e permanecerão fechados mesmo com a retomada parcial do funcionamento.
A 19ª DP (Tijuca) investiga as circunstâncias do incêndio. Nesta semana, prestaram depoimento o sócio da CM Couto, responsável pela brigada do shopping, a superintendente do centro comercial e brigadistas que fizeram o primeiro combate ao fogo.
O supervisor da loja onde o incêndio começou relatou à polícia que o hidrante dentro da Bellart estava sem água. Ele contou ainda que o combate às chamas pela brigada do shopping teve início sete minutos depois de os funcionários perceberem a grande quantidade de fumaça no estoque.
Segundo esse depoimento, uma das vítimas, Anderson Aguiar do Prado, foi com outro segurança até um quiosque vizinho buscar água para tentar ajudar a conter o fogo, ambos sem equipamento apropriado para combate direto ao incêndio.