Barulho não “fere” o cérebro, mas pode aumentar estresse, prejudicar o sono e elevar riscos no Carnaval
Neurologista explica que ruído intenso ativa circuitos de estresse, eleva o cortisol e, somado a privação de sono, álcool e energéticos, pode aumentar impulsividade, acidentes e até arritmias em predispostos
16/02/2026 às 16:33por Redação Plox
16/02/2026 às 16:33
— por Redação Plox
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Embora o ruído intenso não provoque, diretamente, uma lesão estrutural no cérebro, ele interfere no funcionamento do sistema nervoso. O estímulo sonoro constante mantém o cérebro em estado de alerta, dificulta o sono, altera o humor e aumenta a fadiga mental. Pessoas com maior sensibilidade sensorial, como indivíduos no espectro autista, tendem a sofrer ainda mais com sons agudos e repetitivos.
Neurologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, Guilherme Olival destaca que o excesso de estímulo auditivo ativa circuitos ligados ao estresse. Nessa situação, o cérebro passa a interpretar a intensidade sonora como uma espécie de ameaça, elevando a liberação de cortisol, hormônio associado à resposta de alerta.
O resultado pode ser irritabilidade, dificuldade de concentração e sensação de esgotamento cognitivo. O uso de protetores auriculares, nesse contexto, não protege apenas a audição. Ao reduzir o estímulo sonoro, também diminui a ativação desses circuitos de estresse, funcionando como uma barreira indireta contra a sobrecarga neural.
Bloco do Urso em 2025, em Santa Rita do Sapucaí (MG)
Foto: Bloco do Urso/Divulgação
Noites em claro desregulam o controle do cérebro
Se o barulho mantém o cérebro em alerta, a falta de sono impede que ele se recupere. A primeira região a ser afetada por uma noite mal dormida é o córtex pré-frontal, área responsável por julgamento, planejamento e controle de impulsos. Em seguida, estruturas ligadas à memória, como o hipocampo, também passam a operar de forma menos eficiente.
Segundo Olival, após 24 horas acordado, o desempenho cognitivo pode se aproximar ao de alguém sob efeito significativo de álcool, com prejuízo da atenção e da capacidade de reação. Do ponto de vista biológico, há aumento do cortisol, desregulação de neurotransmissores e maior ativação da amígdala, estrutura relacionada às respostas emocionais.
A privação repetida gera a chamada “dívida de sono”. Uma boa noite de descanso pode aliviar a sensação subjetiva de cansaço, mas as funções executivas demoram dias para voltar ao normal. Em casos prolongados — 48 ou 72 horas sem dormir — o cérebro pode apresentar alucinações, crises convulsivas e episódios de “apagão” como mecanismo de proteção.
Picarelli observa que cada pessoa tem um limiar individual, mas, de forma geral, adultos precisam de cerca de 8 horas de sono por noite para manter desempenho adequado. Dormir menos por vários dias consecutivos compromete memória, raciocínio e reflexos — cenário comum após longas maratonas de blocos.
Álcool afeta controle, memória e coordenação
O álcool atua como depressor do sistema nervoso central. Nas primeiras doses, inibe neurônios ligados ao controle inibitório, o que ajuda a explicar a sensação de euforia e desinibição inicial. À medida que a concentração aumenta no organismo, áreas como o cerebelo, relacionado à coordenação motora, e o hipocampo, essencial para a formação de memórias, passam a ser comprometidas.
Nesse estágio, surgem fala arrastada, desequilíbrio e os chamados “apagões”, quando períodos inteiros deixam de ser registrados na memória. Em níveis ainda mais elevados, pode ocorrer depressão respiratória e até coma alcoólico.
Os efeitos variam conforme a velocidade de ingestão, a presença de alimento no estômago, o metabolismo individual e a concentração de álcool na bebida. Bebidas destiladas, com teor alcoólico acima de 40%, elevam rapidamente a quantidade de álcool no sangue.
O consumo repetido em grandes quantidades — o chamado binge drinking — tende a gerar efeito cumulativo. Ao longo dos anos, o uso frequente está associado à atrofia cerebral, prejuízo cognitivo, neuropatias periféricas e deficiência de vitaminas do complexo B, além de danos hepáticos graves, como cirrose.
A combinação que potencializa os danos
Isoladamente, barulho intenso, falta de sono e álcool já comprometem o funcionamento do cérebro. Em combinação, esses fatores se potencializam. A privação de sono reduz o controle inibitório, e o álcool enfraquece ainda mais esse sistema. O resultado é maior impulsividade, pior avaliação de risco e aumento da probabilidade de acidentes, conflitos e comportamentos perigosos.
A mistura com energéticos pode mascarar a sonolência, mas não reduz o prejuízo cognitivo. Na prática, apenas prolonga o tempo de exposição ao álcool e pode aumentar o risco de arritmias e convulsões em pessoas predispostas.
Indivíduos com enxaqueca, epilepsia, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) ou transtornos de ansiedade formam um grupo ainda mais vulnerável. Alterações de sono e estímulos intensos são gatilhos conhecidos para crises, especialmente em quem já tem diagnóstico neurológico prévio.
Sinais de alerta após o Carnaval
Depois dos dias de folia, alguns sintomas exigem avaliação médica. Entre eles estão:
Zumbido persistente, que deve ser avaliado com urgência por um otorrinolaringologista.
Confusão mental.
Amnésia prolongada.
Desorientação.
Dor de cabeça súbita e intensa.
Convulsões.
Fraqueza em um lado do corpo.
Perda visual.
Como curtir sem sobrecarregar o cérebro
Os especialistas lembram que o cérebro responde bem a estímulos prazerosos, como música e dança. O problema está no excesso e na falta de períodos de recuperação. Algumas medidas simples ajudam a proteger o sistema nervoso durante o Carnaval:
Dormir de 6 a 8 horas sempre que possível.
Intercalar momentos de descanso entre blocos e eventos.
Manter hidratação adequada ao longo do dia.
Evitar misturar álcool com energéticos.
Usar proteção auditiva em ambientes com som muito alto.
Equilibrar estímulo e descanso é fundamental para aproveitar a festa sem impor uma carga excessiva ao cérebro.