Lula acompanha desfile sobre sua trajetória na Sapucaí e desce à pista ao lado de Eduardo Paes

Acadêmicos de Niterói levou para a avenida momentos pessoais e políticos do presidente; Planalto, PT e TSE orientaram para evitar interpretação de propaganda antecipada

16/02/2026 às 08:02 por Redação Plox

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acompanhou na noite deste domingo (15/2) o desfile da Acadêmicos de Niterói na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, em uma apresentação que reconstituiu momentos pessoais e políticos de sua trajetória. Ele permaneceu a maior parte do tempo no camarote da Prefeitura, mas desceu à pista em determinado momento para cumprimentar o mestre-sala e a porta-bandeira ao lado do prefeito Eduardo Paes (PSD).

Lula desceu para a avenida na Marquês de Sapucaí durante desfile da Acadêmicos de Niterói

Lula desceu para a avenida na Marquês de Sapucaí durante desfile da Acadêmicos de Niterói

Foto: Reprodução/TV Globo


Desfile exalta trajetória de Lula e cita fome, soberania e anistia

Durante o desfile, integrantes da escola fizeram o gesto do “L” com as mãos, e trechos do samba-enredo foram entoados pelo público em referência entendida como ligada à campanha do petista. A letra trouxe menções a programas de combate à fome, à mobilidade social de filhos de trabalhadores e à defesa da soberania sem “mitos falsos” e “sem anistia”, além de resgatar a frase “o amor venceu o medo”. Uma ala representou a “Estrela Vermelha”, associada ao PT, e houve referência a Lula como deputado constituinte.

A primeira-dama Janja estava prevista para desfilar no último carro alegórico, mas desistiu após recomendações jurídicas e permaneceu no camarote. Ela foi substituída pela cantora Fafá de Belém. Janja havia participado do ensaio técnico da escola em 7 de fevereiro, e uma ala recebeu o nome de “Solte sua Janja”. Marisa Letícia, esposa de Lula que morreu em 2017, também foi simbolizada na avenida.

Lula, aliados e adversários ganham versões na avenida

Lula foi interpretado pelo humorista Paulo Vieira e surgiu em diferentes momentos de sua vida pública, como nas posses presidenciais e no período em que esteve preso entre 2018 e 2019. O presidente também apareceu em diversas imagens, entre elas uma escultura metálica de 18 metros. O enredo percorreu passagens de sua vida em Garanhuns (CE), São Paulo e Brasília, e a atriz Dira Paes deu vida a Dona Lindu, mãe de Lula.

O desfile ainda levou para a Sapucaí representações de aliados e oponentes do petista, entre eles os ex-presidentes Dilma Rousseff, Fernando Collor, Michel Temer e Jair Bolsonaro. Este último foi apresentado como o palhaço “Bozo”, em uma alusão à prisão e ao uso de tornozeleira eletrônica. O ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes também teve sua imagem simbolizada na avenida.

O governo do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apareceu em referências visuais, com a utilização de bonés com a frase Make America Great Again (Maga) e fantasias com orelhas de Mickey Mouse.

Bandeiras do Brasil foram exibidas em diferentes releituras. Uma delas foi a obra “KilomboAldeya”, do artista carioca Matheus Ribs, em preto e vermelho, criada em 2020 para representar a demarcação de territórios.

Planalto, PT e TSE atuam para evitar propaganda antecipada

A presença de Lula na Sapucaí ocorreu em meio a alertas do Palácio do Planalto, do PT e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre o risco de o desfile ser interpretado como propaganda eleitoral antecipada. O presidente é cotado para disputar um quarto mandato. A oposição tentou na Justiça barrar o samba-enredo e o repasse de recursos públicos à Acadêmicos de Niterói, sem sucesso. O TSE negou os pedidos, mas reforçou que eventuais práticas de propaganda antecipada poderiam ser analisadas posteriormente.

Nos bastidores, ministros de Estado foram orientados a não desfilar. A recomendação foi divulgada em publicação da Presidência da República. Na sexta-feira (13/2), a Secretaria de Comunicação Social informou ter consultado a Comissão de Ética Pública da Presidência, após sugestão da Advocacia-Geral da União, sobre a participação de autoridades no Carnaval, com o objetivo de assegurar o respeito à legislação administrativa e eleitoral e aos padrões de conduta exigidos da alta administração pública.

Foram estabelecidas quatro orientações principais, entre elas a de que autoridades evitassem manifestações que pudessem ser caracterizadas como propaganda antecipada, como pedido explícito de voto ou divulgação de conteúdo eleitoral. Ficou vedado também o uso de diárias e passagens para participação em festas de caráter privado.

Mesmo nas atividades de cunho estritamente pessoal, não se afasta o dever de observância aos princípios e normas de regência da ética e da moralidade administrativas

nota da Secretaria de Comunicação Social

O Planalto recomendou ainda que fossem recusados convites de empresas em situações de possível conflito de interesse, seja por decisões regulatórias, contratações diretas ou políticas públicas sob responsabilidade do governo. Atividades de caráter institucional realizadas durante o Carnaval deveriam constar nas agendas oficiais.

Cartilha do PT define conduta de militantes e restringe menções eleitorais

O Partido dos Trabalhadores publicou uma cartilha com orientações específicas para militantes, dirigentes e autoridades presentes na Marquês de Sapucaí. O documento ressalta que a homenagem a Lula foi uma iniciativa exclusiva da escola de samba e que o desfile teria caráter estritamente cultural, sem atividades de cunho eleitoral, o que seria proibido neste momento.

Entre as regras, o PT pediu que não fossem utilizados roupas, bandeiras, faixas ou adereços com referências ao partido, ao número 13 ou às eleições. Também ficou proibida qualquer alusão a Lula no campo eleitoral, incluindo expressões como “Lula 2026” ou “Lula outra vez”. A sigla estendeu o cuidado às redes sociais, orientando que legendas de publicações sobre o desfile evitassem termos como “precisamos vencer”, “vamos ganhar” ou “convença seus amigos”, assim como hashtags do tipo “#Lula13” ou “#Lula2026”.

As entrevistas, segundo a cartilha, deveriam se restringir a três eixos: a importância cultural do Carnaval; a trajetória pessoal de Lula sob perspectiva histórica e biográfica; e a liberdade artística e a autonomia criativa da escola de samba. Manifestações sobre ações do governo Lula não deveriam ser feitas por militantes e aliados, e ataques ou insinuações contra outros pré-candidatos deveriam ser evitados.

A legenda alertou que o descumprimento das recomendações poderia trazer prejuízos significativos ao partido e ao presidente, além de configurar possível infração ética e disciplinar prevista no Estatuto do PT. Em meio a esse cenário de máxima cautela, o desfile da Acadêmicos de Niterói na Sapucaí transformou a trajetória de Lula em enredo de Carnaval, sob vigilância jurídica e política.

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