Desinformação com IA explode nos últimos dois anos, aponta levantamento da Agência Lupa
Estudo com 1.294 checagens em ao menos dez idiomas indica que 81,2% dos casos surgiram de janeiro de 2024 a março de 2026, com foco em eleições, guerras e golpes
16/04/2026 às 09:36por Redação Plox
16/04/2026 às 09:36
— por Redação Plox
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O rosto é igual. A voz, também. Mas a informação pode ser suspeita. Com o avanço das ferramentas de inteligência artificial (IA), profissionais de checagem de fatos alertam que a desconfiança diante do conteúdo recebido por diferentes meios se tornou mais necessária do que em qualquer outro momento.
Esse cenário é retratado em um levantamento divulgado nesta semana pela Agência Lupa, produzido a partir de 1.294 checagens profissionais em pelo menos dez idiomas. O mapeamento tem o título “O impacto da IA no Fact-checking Global”.
Pessoa usando chat de inteligência artificial – imagem ilustrativa. (
Foto: Reprodução, Freepik)
Desinformação com IA se concentra nos últimos dois anos
De acordo com o painel, 81,2% dos casos de desinformação com tecnologias de IA surgiram apenas nos últimos dois anos, entre janeiro de 2024 e março de 2026. Entre os temas mais frequentes estão eleições, guerras e golpes.
Para a gerente de inovação e formação da Agência Lupa, Cristina Tardáguila, a IA está redefinindo o campo da desinformação em escala global.
A imensa maioria das peças que são analisadas pelos checadores acaba levando a etiqueta de falso ou de enganoso. A IA dificilmente tem sido feita para impulsionar conteúdos verdadeiros
Cristina Tardáguila
Além de vídeos, mentiras circulam em múltiplos formatos
Segundo a pesquisadora e fundadora da Lupa, a desinformação gerada ou manipulada por IA chega ao público em diferentes formatos, como vídeos, áudios curtos, fotos e textos. A preocupação se intensifica em períodos eleitorais, por considerar que essas práticas ameaçam democracias.
Ao comentar o contexto deste ano, ela afirma:
“Este é um ano eleitoral importante no Brasil e em outros parceiros da região”. Tardáguila
Tardáguila cita processos nos Estados Unidos, no Peru, na Costa Rica e na Colômbia, e avalia que esse cenário deve impactar tanto os checadores quanto os eleitores desses países. *
Na avaliação da pesquisadora, o uso de IA para manipular conteúdos deixou de ser pontual e passou a integrar de forma permanente o ambiente da desinformação digital. Os dados do levantamento indicam que o volume de checagens que identificaram esse tipo de mentira cresceu de 160 casos em 2023 para 578 em 2025. Até março deste ano, já havia 205 verificações.
O estudo não traz recorte geográfico, e sim linguístico. Em inglês, foram identificados 427 casos de desinformação por IA e deepfakes. Em espanhol, foram 198, e em português, 111.
Educação midiática é apontada como “vacina” contra a desinformação
Para Tardáguila, a prioridade neste momento é ampliar a educação midiática. Ela afirma que projetos de checagem ao redor do mundo apoiam legislações que promovam e estimulem a sociedade a compreender o que pode ser falso nas postagens, em um papel semelhante ao de uma vacina.
Na visão da pesquisadora, isso exige uma política pública que contemple educação midiática e literacia — definida no texto como a habilidade de ler, escrever, interpretar e utilizar a linguagem de forma eficiente — a ser implementada com urgência nas escolas.
Ela também aponta que empresas de comunicação tradicionais podem colaborar, além das agências de checagem, e destaca que a checagem precisa seguir critérios fixos de transparência e rigor. O estudo considerou checagens publicadas e indexadas pelo Google no Fact Check Explorer, ferramenta gratuita de busca para verificação de informações desmentidas.
Ao tratar do cenário de 2026, Tardáguila avalia que o brasileiro precisa estar atento e preparado para identificar conteúdos enganosos gerados com IA. Ela afirma ainda que qualquer cidadão pode fazer uma checagem quando tiver dúvida sobre a legitimidade de uma informação recebida e informa que a própria Agência Lupa criou um curso gratuito para iniciantes.