Mercosul e União Europeia fecham acordo histórico de livre comércio em Assunção

Tratado concluído após negociações iniciadas em 1999 cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, com redução tarifária em mais de 90% do comércio e ainda depende de ratificação nos dois blocos

17/01/2026 às 17:31 por Redação Plox

ASSUNÇÃO, PARAGUAI — Um dos principais teatros da capital paraguaia, cercado por jardins de Roberto Burle Marx e por um conjunto arquitetônico influenciado por projetos brasileiros e argentinos, foi palco, na tarde deste sábado (17/1), de um momento aguardado há 26 anos: a assinatura do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia.

Foto: Presidência


A cerimônia começou por volta das 12h, resultado de negociações iniciadas em 1999. Juntos, os dois blocos reúnem cerca de 720 milhões de pessoas e somam um Produto Interno Bruto (PIB) de aproximadamente US$ 22 trilhões.

Acordo busca autonomia em cenário global polarizado

Aprovado pela Comissão da União Europeia no início de janeiro, o acordo é visto como uma tentativa de ampliar a autonomia geopolítica de Mercosul e UE em um contexto marcado pela predominância de China e Estados Unidos.

Os países do cone sul esperam acesso privilegiado ao mercado europeu, enquanto a União Europeia mira ampliar sua presença em áreas nas quais é mais competitiva, como tecnologia, indústria e setor farmacêutico.

Líderes presentes e papel do Brasil nas negociações

Além do anfitrião, o presidente paraguaio Santiago Peña, participaram da cerimônia o uruguaio Yamandú Orsi e o argentino Javier Milei. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apontado como um dos articuladores centrais das negociações recentes, não compareceu ao evento.

Em seu discurso, Peña ressaltou o simbolismo de o tratado ser assinado em Assunção, cidade que recebeu, em 1991, o tratado fundador do Mercosul, e classificou a data como histórica para a integração regional e para o comércio internacional.

Lula, que não conseguiu concluir o acordo durante a Cúpula do Mercosul em dezembro, em Foz do Iguaçu, havia se reunido na véspera, no Rio de Janeiro, com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, para celebrar politicamente o avanço do entendimento comercial.

Ursula destaca maior área de livre comércio do mundo

Ursula von der Leyen afirmou se sentir honrada por participar da assinatura em uma cidade associada às origens da integração sul-americana. Ela enfatizou que o tratado conecta continentes e é fruto do esforço dos quatro países do Mercosul.

A presidente da Comissão Europeia ressaltou que, com o acordo, Mercosul e UE estabelecem uma das maiores áreas de livre comércio do planeta, somando um mercado de centenas de milhões de consumidores e quase um quinto do PIB mundial, reforçando a opção pelo comércio considerado “justo” e por benefícios concretos para populações e empresas de ambos os lados.

Lula e o discurso em defesa do multilateralismo

No encontro da sexta-feira (16/1), no Rio, Lula e von der Leyen classificaram o entendimento como uma vitória do multilateralismo. O presidente brasileiro sublinhou que a parceria está ancorada no respeito aos compromissos assumidos no âmbito das Nações Unidas e da Organização Mundial do Comércio.

Na cerimônia em Assunção, o Brasil foi representado pelo chanceler Mauro Vieira. Também participaram o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, o presidente do Panamá, Raúl Mulino, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa.

Brasil fala em desenvolvimento sustentável e inclusão

Mauro Vieira definiu o tratado como o estabelecimento efetivo de uma parceria estratégica, voltada à construção de uma relação duradoura, orientada para o desenvolvimento sustentável e para o bem-estar. O chanceler afirmou que o acordo deve favorecer crescimento com inclusão social e gerar maior segurança econômica para as duas regiões.

Vieira ponderou, no entanto, que ainda será necessário zelar pela implementação do que foi pactuado, especialmente em um cenário internacional de incertezas e tensões, destacando que a agenda comum inclui também democracia, estado de direito e proteção ambiental.

Milei defende mais abertura e critica protecionismo

O presidente argentino Javier Milei classificou a data como um momento de grande transcendência política e econômica para a região. Ele recordou que a Argentina impulsionou o avanço das tratativas durante sua presidência temporária do Mercosul no ano anterior, defendendo valores de liberdade de comércio refletidos no texto.

Milei advertiu para a importância de preservar, na etapa de implementação, os termos negociados, argumentando que mecanismos como novas cotas ou isenções podem esvaziar os objetivos do tratado. Ao criticar o protecionismo, sugeriu que a Argentina seguirá apoiando iniciativas de integração com parceiros que compartilhem a visão de economia aberta e liberdade, mencionando possibilidades que vão dos Estados Unidos ao Japão.

Uruguai fala em democracia e direitos humanos

O uruguaio Yamandú Orsi avaliou que o instrumento fortalece o diálogo baseado na democracia e nos direitos humanos. Para ele, o Uruguai aposta em acordos, regras claras, construção de consensos e em regimes democráticos como caminho para melhorar a vida das pessoas.

Bolívia busca aproximação após isolamento

O presidente boliviano Rodrigo Paz criticou o isolamento do governo anterior e defendeu uma nova regulação para a exploração de gás, com o objetivo de atrair investimentos e impulsionar a integração regional. Ele recordou ter votado, ainda como senador, pela entrada da Bolívia no Mercosul e afirmou que, agora na Presidência, pretende trabalhar para a adesão plena do país ao bloco.

Impacto no Mercosul e recuperação da coesão política

Especialistas em comércio exterior avaliam que o entendimento pode ajudar a reposicionar o Mercosul, que passa por uma crise de identidade e desacordos internos. Enquanto Argentina e Uruguai pressionam por mais autonomia, inclusive com tratativas fora do bloco, Brasil e Paraguai defendem ampliar as negociações conjuntas.

Para analistas, a assinatura do acordo representa um passo relevante para recompor a coesão política entre os países sul-americanos, num contexto de disputas sobre rumos e estratégias de inserção internacional.

Tarifas, exportações e pressões de agricultores

O ato em Assunção ganha peso adicional diante de um cenário de recuos na liberalização comercial, simbolizado pelas tarifas impostas por Donald Trump a diversos países em anos recentes, o que elevou a incerteza nas relações de comércio exterior.

Pelo texto, haverá redução tarifária em mais de 90% do comércio bilateral. O acordo deve impulsionar as exportações europeias de automóveis, máquinas e bebidas, ao mesmo tempo em que facilita a entrada, no mercado europeu, de produtos sul-americanos como carne e soja.

A ampliação da concorrência, porém, gera forte reação entre agricultores europeus, que temem o impacto de importações mais baratas sobre a estabilidade do mercado na União Europeia.

Cláusulas de proteção e próximos passos

Para tentar atenuar a insatisfação do campo, a Comissão Europeia incluiu cláusulas de salvaguarda, com garantias específicas para alguns setores sensíveis, como carne e arroz. A ideia é criar mecanismos que possam ser acionados em caso de desequilíbrios significativos.

Após a assinatura, o texto ainda precisa ser ratificado por cada Estado membro do Mercosul e pelo Parlamento Europeu. Nesta etapa, não há garantia de aprovação, e a resistência mais forte se concentra na França, que lidera críticas internas ao acordo.

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