Polícia Civil investiga esquema de ‘carrossel financeiro’ que movimentou R$ 97 milhões com jogo do bicho em SP
Operação ‘Quebrando a Banca’ cumpre 14 mandados em cinco cidades paulistas e mira grupo suspeito de lavar dinheiro do jogo do bicho por meio de empresas e plataforma de apostas on-line, com estimativa de até R$ 500 milhões envolvidos
17/01/2026 às 06:32por Redação Plox
17/01/2026 às 06:32
— por Redação Plox
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Um grupo investigado pela Polícia Civil é suspeito de movimentar cerca de R$ 97 milhões com a exploração de jogos de azar em cinco cidades do estado de São Paulo. As apurações apontam para uma estrutura criminosa complexa e organizada, batizada pelos investigadores de “carrossel financeiro”.
Segundo a polícia, a atuação se estende há décadas, com um esquema que começou no jogo do bicho e se ramificou por diversas empresas, incluindo construtoras, negócios de importação e exportação, até chegar a uma plataforma de apostas on-line, as chamadas “bets”.
Durante as investigações, a Polícia Civil identificou o uso de pessoas de origem humilde para tentar despistar o rastreamento das transações. Um dos homens investigados, por exemplo, trabalha como operador de caixa, com salário declarado de R$ 1,8 mil, mas teria movimentado milhões de reais em Pix nos últimos meses.
Como funcionaria o ‘carrossel financeiro’
Relatórios do Setor de Inteligência da Polícia Civil indicam que o esquema de lavagem de dinheiro seguia uma cadeia de etapas articuladas. Primeiro, o grupo arrecadava valores com jogos de azar, em especial o jogo do bicho, atividade proibida no Brasil.
Em seguida, esse dinheiro era escoado por meio de diferentes empresas, como construtoras, negócios de importação e exportação, comércios em geral, empreendimentos ligados ao comércio de peixes e agropecuárias. Após circular por esses ramos, os valores chegavam a uma empresa de apostas esportivas on-line com sede em Ribeirão Preto.
Ao final do circuito, os recursos retornavam diretamente para o CPF apontado como sendo do líder da organização, dando aparência de legalidade ao dinheiro obtido com a exploração de jogos de azar.
Responsável pelas investigações, o delegado Ivan Luis Constâncio, da Divisão Especializada em Investigações Criminais (Deic) de Piracicaba (SP), informou que ainda são apurados detalhes sobre o fluxo de entrada e saída dos valores. A corporação, porém, já considera comprovado que as movimentações financeiras dos investigados são incompatíveis com as rendas declaradas.
O esquema funciona como um ‘carrossel financeiro’: os recursos ilícitos transitam por empresas como construtoras e incorporadoras. Posteriormente, o capital é injetado na empresa de apostas on-line, por meio de transferências concentradas, retornando então à cúpula da organização com aparência de licitude
delegado Ivan Luis Constâncio
A polícia também divulgou imagens de dinheiro em espécie apreendido durante a operação realizada em municípios paulistas.
Dinheiro em espécie apreendido durante operação contra grupo suspeito de exploração de jogos de azar em SP
Foto: Polícia Civil
Milhões movimentados e uso de laranjas
De acordo com a investigação, o grupo contava com uma estrutura formada por gerentes e operadores financeiros responsáveis por pulverizar milhões de reais em transferências e depósitos fracionados, prática conhecida como “smurfing”, usada para dificultar o rastreamento das origens dos recursos.
Como parte da estratégia para ocultar o dinheiro, a quadrilha recorria a transações imobiliárias pagas em espécie e à aquisição de bens e ativos em nome de terceiros. Em um dos casos, um dos alvos comprou um imóvel avaliado em cerca de R$ 800 mil, pago em dinheiro vivo, após receber quase R$ 40 milhões provenientes de uma única pessoa investigada em Mogi Mirim (SP).
As apurações apontam ainda que o homem identificado como líder da quadrilha chegou a movimentar mais de R$ 25 milhões apenas em um semestre de 2024.
Segundo o delegado, considerando a compra de bens pelos investigados, a movimentação total associada ao grupo pode chegar a R$ 500 milhões.
Operação ‘Quebrando a Banca’ mira estrutura do grupo
A operação deflagrada na terça-feira (13), batizada de “Quebrando a Banca”, teve como alvos o suposto líder da organização criminosa, ao menos outros sete integrantes e o braço empresarial utilizado como destino das transferências bancárias.
Foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão em Ribeirão Preto (SP), Santa Rosa de Viterbo (SP), São João da Boa Vista (SP), Mogi Mirim (SP) e na capital paulista. Ninguém foi preso durante a ação.
Entre os itens apreendidos estão dispositivos eletrônicos, instrumentos ligados às apostas, grandes quantias em dinheiro em espécie, joias, relógios de luxo, um cofre, documentos e dez veículos, incluindo modelos considerados de alto padrão, como Porsche 911, Porsche Cayenne GTS, BMW X1, caminhonetes RAM e SUVs.
Com base no material recolhido, a Polícia Civil tenta identificar indícios de fraude no destino do dinheiro arrecadado com os jogos de azar e na movimentação por meio das empresas.
Os investigados devem responder por lavagem ou ocultação de bens, associação criminosa e exploração de jogos de azar. Os nomes dos suspeitos não foram divulgados.
Veículos de luxo apreendidos na Operação 'Quebrando a Banca', contra exploração de jogos de azar em SP