Quem era o agricultor morto por PMs dentro de casa no RS: pai, trabalhador e querido na comunidade
Marcos Nörnberg, de 48 anos, foi morto a tiros dentro de casa durante operação da Brigada Militar na zona rural de Pelotas; comandante-geral admite "grande equívoco", afasta 18 policiais e determina inquérito
17/01/2026 às 07:04por Redação Plox
17/01/2026 às 07:04
— por Redação Plox
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Familiares e amigos se despediram, nesta sexta-feira (16), do produtor rural Marcos Nörnberg, de 48 anos, morto a tiros dentro de casa durante uma ação da Brigada Militar (BM) na zona rural de Pelotas, na madrugada de quinta-feira (15). Descrito como “um homem trabalhador e ligado à família”, ele foi enterrado no Cemitério Ecumênico São Francisco de Paula, em Pelotas.
O enteado de Marcos, Rodrigo Motta, relatou o impacto da perda para a família e para a comunidade rural, que o via como um produtor ativo e presente. A sensação entre os mais próximos é de vazio e injustiça.
A viúva, Raquel Nörnberg, lembra que o casal morava em Caxias do Sul, na Serra Gaúcha, e se mudou para o município no Sul do estado em busca de tranquilidade. Marcos assumiu a produção de morango e milho doce na propriedade da família após o pai perder um dos braços em decorrência de um câncer.
O velório ocorreu com o caixão fechado por causa dos ferimentos causados pelos disparos, o que reforçou a dor dos familiares no momento da despedida.
Produtor rural foi morto a tiros durante operação da BM em Pelotas
Foto: Reprodução/RBS TV
Família contesta versão da Brigada Militar
O episódio ocorreu na madrugada de quinta-feira (15), na Estrada da Cascata, área rural de Pelotas. Segundo a viúva, o casal dormia quando percebeu movimentação no pátio da propriedade. Marcos teria saído para verificar o que acontecia e, pouco depois, ela ouviu gritos e tiros. O agricultor morreu no local.
A Brigada Militar afirma que o homem atirou contra os policiais, dando início ao confronto. A versão é contestada pela esposa, que sustenta que os disparos ocorreram dentro da residência e nega que Marcos tenha saído da casa armado.
O caso é investigado pela Delegacia de Homicídios de Pelotas, que passou a ouvir familiares e outras testemunhas para esclarecer as circunstâncias da morte.
Comandante da BM fala em 'grande equívoco'
O comandante-geral da Brigada Militar, Cláudio Feoli, reconheceu publicamente que houve um “grande equívoco” na operação realizada na propriedade rural onde Marcos foi morto. Os 18 policiais militares que participaram da ação foram afastados de suas funções, e a Corregedoria-Geral da Corporação instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar o ocorrido. As armas usadas pelos agentes foram recolhidas para perícia.
Paralelamente, a Polícia Civil também abriu inquérito. O delegado responsável afirmou que a instituição não havia sido informada previamente da operação da BM e considerou incomum o número de policiais e viaturas envolvidos na ação. A partir de segunda-feira (19), devem ser ouvidos a viúva, familiares da vítima e outras testemunhas.
Segundo a cúpula da BM, a operação em Pelotas foi desencadeada após a prisão, no Paraná, de dois suspeitos de integrar um grupo criminoso que atuaria no município. Eles teriam indicado o endereço na zona rural onde estariam outros envolvidos, o que levou à mobilização de diversas guarnições.
Contexto da operação e reação do governo
De acordo com a Brigada Militar, a intervenção em Pelotas foi planejada depois de um roubo a residência registrado na terça-feira (13), quando um caseiro foi mantido refém por 36 horas e três veículos e um reboque foram levados.
Na quarta-feira (14), na cidade de Guaíra, no Paraná, a polícia militar local prendeu dois suspeitos do roubo. Eles são moradores de Pelotas, têm 20 e 21 anos e antecedentes por tráfico de drogas, roubo e adulteração de veículo. A partir de informações repassadas por essa prisão, a BM organizou uma ação na propriedade em que estariam outros integrantes do grupo, armas e veículos roubados.
Durante a averiguação do endereço, conforme a versão oficial, os policiais se depararam com um homem armado que não teria atendido às ordens da guarnição e efetuou disparos, gerando o confronto que resultou na morte. O local foi isolado para perícia, e a corporação afirma ter apreendido com o agricultor uma carabina semiautomática, cerca de R$ 27 mil em dinheiro e pequena quantia em dólares.
A Brigada Militar informou que a Corregedoria-Geral instaurou um inquérito para apurar todas as circunstâncias da ação. O governo estadual, por sua vez, manifestou a necessidade de apuração rigorosa da conduta dos policiais envolvidos.