CMED divulga preço do Leqembi, novo remédio para Alzheimer, e tratamento pode chegar a R$ 11 mil por mês

Lecanemabe foi aprovado pela Anvisa e deve chegar ao Brasil no fim de junho; aplicação é endovenosa a cada 15 dias e exige acompanhamento em centros de infusão

17/04/2026 às 16:27 por Redação Plox

A Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), órgão vinculado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), divulgou nesta sexta-feira (17/4) o preço do lecanemabe, indicado para o tratamento da doença de Alzheimer em estágio inicial e para casos de comprometimento cognitivo leve.

Segundo a CMED, um mês de tratamento — com aplicação endovenosa a cada 15 dias, para um paciente com peso médio de 70 kg — custará R$ 8.108,94, desconsiderando taxas e impostos. Com alíquota de 18% (adotada na maioria dos estados), o valor chega a R$ 11.075,62. No Brasil, o medicamento será comercializado com o nome de Leqembi.

Fabricado pela empresa japonesa Eisai em parceria com a Biogen, o lecanemabe foi aprovado pela Anvisa em 22 de dezembro de 2025 e deve chegar ao mercado brasileiro no final de junho.


Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos vinculado a ANVISA, divulgou preço do medicamento para o tratamento do Alzheimer.

Foto: Divulgação / EISAI


Como o lecanemabe age no cérebro

O lecanemabe é um anticorpo monoclonal que tem como alvo a beta-amiloide, proteína que pode se acumular no cérebro de pessoas com Alzheimer anos antes do início dos sintomas. As evidências indicam que o remédio reduz a velocidade de progressão da doença, mas não promove a melhora dos sintomas.

A ação do medicamento tem como alvo as protofibrilas de beta-amiloide, descritas como a forma tóxica da proteína, associada ao acúmulo que leva à morte de neurônios.

O diferencial do medicamento é o duplo mecanismo de ação: remove as placas de beta-amiloide e neutraliza a cascata de neurotoxicidade que alimenta a progressão da doença

Tatiana Branco, diretora da área médica da Biogen no Brasil

O que mostram os estudos sobre eficácia

O neurologista Paulo Caramelli, professor da faculdade de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirma que o estudo de fase 3 que investigou eficácia e segurança do lecanemabe observou que pacientes com Alzheimer em fase inicial — demência leve ou comprometimento cognitivo leve — tratados por 18 meses tiveram, em média, redução de 27% na velocidade de progressão da doença em relação ao placebo.

Caramelli ressalta que o efeito não é considerado elevado e cita estimativas, com base em modelos matemáticos, de que em um ano e meio de tratamento seria como se as pessoas tivessem ganhado alguns meses ao longo do período.

Efeitos adversos e grupo de maior risco

Entre os efeitos adversos citados estão edema e hemorragia cerebral. De acordo com Caramelli, o grupo de maior risco para eventos colaterais é o de pessoas com um tipo genético chamado apolipoproteína E4.

Segundo ele, a Anvisa não aprovou a medicação para esse subgrupo, devido ao risco mais elevado de efeitos colaterais. Fora esse grupo, a possibilidade de eventos adversos é estimada por ele entre 5% e 11%.

Exames e critérios antes do início do tratamento

De acordo com Paulo Caramelli, alguns exames devem ser solicitados antes da prescrição. Um deles é o estudo do genótipo apolipoproteína E, procedimento que, segundo o neurologista, não é coberto pelo SUS, mas é simples e está disponível em laboratórios privados.

Também é obrigatória uma ressonância magnética feita até um ano antes do início do tratamento, para confirmar que não há lesão hemorrágica nem alterações cerebrais que impeçam a terapia. Outro critério de exclusão apontado é o uso de anticoagulantes, já que o paciente não pode utilizar esse tipo de medicação.

Como o medicamento é administrado

Por ser um anticorpo monoclonal, o tratamento exige acompanhamento médico. A administração é intravenosa, com prescrição em unidades hospitalares ou centros de infusão. São realizadas duas aplicações ao mês, a cada 15 dias, na dose de 10 mg por quilo de peso do paciente.

Critérios de preço e justificativa do valor

Segundo Rodrigo Nascimento, diretor médico da Eisai no Brasil, a CMED segue regras de precificação que levam em conta a categoria do medicamento, comparação com países onde o produto já é vendido, além de benefícios clínicos e evidências científicas.

Ele afirma que se trata de uma terapia inovadora, desenvolvida com tecnologia construída ao longo de décadas, e que a combinação de fatores — inovação, complexidade e critérios regulatórios de precificação — resulta no valor divulgado.

Perspectivas para novas terapias

Para Paulo Caramelli, o lecanemabe e o donanemabe (aprovado em 2025) indicam, pela primeira vez, um caminho para medicamentos que atuam em mecanismos biológicos básicos da doença. Na avaliação do neurologista, a tendência é que surjam terapias mais potentes para esses alvos, com a expectativa de perfis de segurança melhores.

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