Quatro em cada dez infartos atingem pessoas classificadas como de baixo risco

Estudos internacionais liderados pela coorte PURE expõem falhas na avaliação do risco cardiovascular e mostram que a maioria dos infartos e AVCs poderia ser evitada com controle de fatores comportamentais e metabólicos.

18/01/2026 às 07:27 por Redação Plox

Um grande estudo internacional, o PURE (Prospective Urban Rural Epidemiology), trouxe um alerta que desafia a forma tradicional de prevenir doenças cardiovasculares: quatro em cada dez infartos acontecem em pessoas classificadas como de baixo risco pelos modelos usados hoje na prática clínica. Ou seja, uma parcela expressiva das vítimas não está no centro das estratégias preventivas, não recebe acompanhamento intensivo e não costuma ser prioridade nas políticas de saúde.

Na prática, isso revela uma lacuna importante: cerca de 40% dos infartos ocorrem fora do radar de médicos e pesquisadores, o que reforça a necessidade de revisar os critérios de avaliação do risco cardiovascular e expõe os limites das ferramentas atuais.

O PURE é uma coorte prospectiva internacional que acompanha cerca de 200 mil pessoas em 21 países, incluindo o Brasil, distribuídos em cinco continentes. Em estudos de coorte, o mesmo grupo é monitorado ao longo do tempo para entender como fatores diversos se relacionam com adoecimento e mortalidade. No caso do PURE, o foco está sobretudo nas doenças cardiovasculares, comparando contextos urbanos e rurais e diferentes níveis de renda ao redor do mundo.

Para traduzir esse conjunto de evidências para o público, os pesquisadores organizaram as principais conclusões em “lições” derivadas do PURE e de estudos complementares, como o InterHeart e o InterStroke, desenvolvidos pelo mesmo centro de pesquisa.

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A forma como a sociedade vive molda o risco de adoecer

Os estudos analisaram os fatores associados ao infarto e ao acidente vascular cerebral (AVC) em diversas regiões do mundo. A ideia central é ambiciosa: viver mais e melhor, buscando a chamada LongeVitalidade com base em ciência, e não em promessas. As lições ajudam a entender por que adoecemos e o que pode ser feito para reduzir esse risco.

Um dos conceitos-chave é o da transição epidemiológica. Quando saneamento e vacinação avançam, as doenças infecciosas diminuem, mas a vida urbana passa a impor outros desafios: aumenta o sedentarismo, a alimentação se torna mais calórica e o estresse emocional se intensifica. A partir daí crescem obesidade, hipertensão, alterações de colesterol e diabetes. Com o tempo, surgem infarto, AVC e câncer.

Assim, o adoecimento deixa de ser visto apenas como fenômeno individual e passa a refletir escolhas coletivas sobre como organizamos a vida em sociedade.

O estudo InterHeart reforça esse quadro ao mostrar que nove fatores respondem por 90% do risco de infarto: tabagismo, hipertensão, dislipidemia, obesidade abdominal, diabetes, alimentação não saudável, sedentarismo, consumo de álcool, estresse e depressão.

No Brasil, chamam mais atenção a dislipidemia, a obesidade abdominal, o tabagismo, a pressão alta e o estresse emocional. Esses achados ajudam a explicar por que o infarto raramente é totalmente imprevisível e por que modelos que apenas somam fatores de risco podem falhar em identificar pessoas classificadas como de baixo risco, mas que, ainda assim, sofrerão um evento cardiovascular.

Infarto e AVC compartilham os mesmos gatilhos

O estudo InterStroke, voltado para o AVC, encontrou um padrão semelhante: dez fatores explicam 90% dos casos, tanto de AVC isquêmico quanto hemorrágico. Entre eles estão os mesmos componentes comportamentais e metabólicos já associados ao infarto do miocárdio, além de condições cardíacas específicas, como a fibrilação atrial.

Os resultados convergem para uma conclusão robusta: a maior parte dos AVCs e infartos poderia ser evitada, o que reforça o papel da prevenção em escala populacional.

Renda, acesso ao cuidado e o paradoxo do risco cardiovascular

O PURE também ampliou o debate sobre a relação entre risco, acesso e desfechos em saúde, ao evidenciar o chamado paradoxo do risco cardiovascular. Países de maior renda apresentam risco cardiovascular mais elevado, mas registram menos eventos graves e menor mortalidade. Já nas regiões de menor renda, há mais infartos, mais AVCs e mais mortes.

A explicação mais provável está no acesso desigual a diagnóstico, acompanhamento contínuo, medicamentos e serviços de saúde. Onde há estrutura, há mais chance de sobrevivência. Onde ela falta, os eventos cardiovasculares tendem a ser mais fatais, inclusive entre pessoas que, em teoria, não seriam classificadas como de alto risco.

O que a alimentação revela sobre proteção e risco

A análise dos padrões alimentares no PURE trouxe evidências relevantes sobre o que efetivamente faz diferença no prato. Dietas ricas em carboidratos se associaram a maior mortalidade, enquanto um maior consumo de frutas, legumes e verduras se relacionou de forma consistente à redução do risco de morte. O consumo de proteínas também se associou a menor mortalidade.

Um dado que contraria percepções comuns foi a associação da gordura animal a menor mortalidade, ao passo que a gordura trans mostrou efeito claramente prejudicial.

O equilíbrio entre sal e potássio também se mostrou fundamental. Tanto o excesso quanto a ingestão muito baixa de sal estiveram ligados a maior risco cardiovascular, com uma faixa intermediária indicando menor risco. Já o potássio, abundante em alimentos in natura, teve efeito protetor nítido.

Movimento e força muscular como pilares de proteção

A atividade física aparece como um dos pilares universais da proteção cardiovascular. Níveis mais elevados de atividade aeróbica foram associados a menos infartos, menos AVCs e menor mortalidade total e cardiovascular.

Além disso, a força muscular desponta como um marcador poderoso de proteção: quanto maior a força, menor a mortalidade, inclusive por causas cardiovasculares. Manter o corpo em movimento e preservar a massa muscular se tornam componentes centrais da LongeVitalidade.

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Hipertensão: risco conhecido, controle insuficiente

A hipertensão arterial segue como o principal fator de risco cardiovascular no Brasil e no mundo. No país, cerca de 45% dos adultos são hipertensos. Embora haja tratamentos eficazes, o controle ainda é baixo: apenas uma minoria mantém a pressão em níveis adequados, tanto globalmente quanto no Brasil.

Um agravante é que aproximadamente metade das pessoas com pressão alta desconhece o diagnóstico, o que atrasa intervenções preventivas e amplia a probabilidade de infarto e AVC.

Prevenção secundária ainda falha após infarto e AVC

Mesmo depois de um evento cardiovascular, quando o risco de recorrência é elevado, a prevenção secundária apresenta brechas importantes. O PURE mostrou que terapias eficazes para evitar novos episódios, embora amplamente conhecidas, continuam subutilizadas.

No Brasil, uma parcela relevante dos pacientes que já sofreram infarto ou AVC não fazia uso de medicações preventivas. O cenário evidencia a dificuldade de transformar evidências científicas sólidas em rotinas de cuidado consistentes.

Um pequeno grupo de fatores explica a maior parte dos eventos

Ao integrar os dados, o PURE indica que 12 fatores respondem por cerca de 70% dos eventos cardiovasculares no mundo. Na América do Sul, um conjunto de dez fatores explica proporção semelhante. Algo parecido se observa em relação à mortalidade: aproximadamente 70% das mortes precoces estão associadas a um grupo limitado de fatores modificáveis, como tabagismo, hipertensão, baixa escolaridade, obesidade abdominal, alimentação não saudável, força muscular reduzida, sedentarismo, depressão, consumo de álcool e poluição.

A mensagem é direta: o estilo de vida importa. Mudanças possíveis, sustentadas e baseadas em evidência aumentam não só a expectativa, como também a qualidade de vida. Para ser efetiva, a prevenção deve começar cedo, idealmente desde a gestação, e se estender por todas as fases da vida: infância, adolescência, idade adulta e envelhecimento.

Do conhecimento à prática: o desafio central

Hoje, o grande desafio da saúde cardiovascular não é descobrir novos fatores de risco, mas implementar o que já se sabe. As evidências demonstram com clareza o que reduz infarto e AVC, e o que aumenta a probabilidade de que aconteçam. O obstáculo está em transformar esse conhecimento em rotina clínica, políticas públicas e escolhas individuais sustentáveis ao longo do tempo.

A LongeVitalidade não é um conceito abstrato. Ela envolve aumento da expectativa de vida livre de eventos cardiovasculares e câncer, menor declínio cognitivo, maior autonomia e benefícios associados a dimensões subjetivas, como propósito e satisfação com a vida, gratidão e disposição ao perdão, entre outros aspectos.

É a soma de prevenção, acesso oportuno ao cuidado, adesão ao tratamento e decisões repetidas dia após dia. Quando esses elementos se alinham, o resultado não é apenas viver mais anos, mas ter mais vida em cada ano vivido.

O autor do artigo original declara não prestar consultoria, não trabalhar, não possuir ações nem receber financiamento de empresas ou organizações que possam se beneficiar da publicação, e não ter vínculos relevantes além de seu cargo acadêmico.

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