STF: 2ª Turma decide hoje sobre possível liberação da prisão preventiva de Daniel Vorcaro
Em sessão virtual iniciada em 13/03/2026, colegiado avalia se referenda ou revisa decisão individual do ministro André Mendonça no caso ligado ao Banco Master
Em 1990, a cada mil crianças nascidas no Brasil, 25 morriam antes de completar 28 dias de vida. Em 2024, esse número caiu para sete a cada mil, o que representa redução de 72% na mortalidade neonatal em cerca de três décadas e meia. O mesmo movimento de queda se repete entre crianças menores de cinco anos: em 1990, 63 em cada mil não chegavam ao quinto aniversário; nos anos 2000, a taxa caiu para 34 por mil; e, em 2024, chegou a 14,2 por mil, uma queda de 77% em relação ao início da série histórica.
Os dados fazem parte do relatório “Levels & Trends in Child Mortality”, divulgado pelo Grupo Interagencial das Nações Unidas para Estimativas de Mortalidade Infantil (UN IGME), instância liderada pelo UNICEF e que reúne também a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Banco Mundial e a Divisão de População da ONU.
Segundo o levantamento, o Brasil alcançou as menores taxas de mortalidade neonatal e de menores de cinco anos desde o início do monitoramento sistemático. Em números absolutos, o país passou de cerca de 92 mil mortes de recém-nascidos em 1990 para menos de 19 mil em 2024 — mais de 70 mil vidas a menos perdidas por ano.
No Brasil, um conjunto de políticas adotadas nacionalmente têm diminuído as mortes preveníveis de crianças, em consonância com a tendência global.
Foto: Freepik
O relatório associa a redução expressiva da mortalidade infantil no Brasil à consolidação e à ampliação de políticas públicas a partir dos anos 1990, como o Programa Saúde da Família, o Programa de Agentes Comunitários de Saúde, a expansão da atenção primária no SUS e iniciativas de incentivo à vacinação e à amamentação.
De acordo com a avaliação, essas estratégias foram decisivas para ampliar o acesso a cuidados básicos de saúde, prevenção e acompanhamento na primeira infância, sustentando a queda das mortes evitáveis entre bebês e crianças pequenas.
Ao mesmo tempo, o documento aponta um movimento de desaceleração, em linha com a tendência global. Entre 2000 e 2009, a mortalidade neonatal brasileira caía, em média, 4,9% ao ano. De 2010 a 2024, o ritmo diminuiu para 3,16% anuais, indicando perda de velocidade no avanço.
Para o UNICEF no Brasil, os números traduzem em vidas o impacto de políticas públicas continuadas e de base territorial. A estimativa é de que dezenas de milhares de bebês e crianças que, em décadas anteriores, não sobreviveriam, hoje conseguem crescer, se desenvolver com saúde e chegar à vida adulta graças ao acesso ampliado a serviços essenciais.
O relatório destaca, em especial, o papel de ações como vacinação em larga escala, promoção do aleitamento materno, atenção primária fortalecida e presença de equipes de saúde mais próximas das famílias, em especial nas áreas mais vulneráveis.
Manter e acelerar esse conjunto de políticas é apontado como condição central para evitar uma estagnação da queda da mortalidade infantil, em um cenário em que o ritmo de melhora já mostra sinais de arrefecimento no Brasil e em outros países.
No mundo, o relatório estima que cerca de 4,9 milhões de crianças morreram antes de completar cinco anos em 2024, incluindo 2,3 milhões de recém-nascidos. A maioria dessas mortes é considerada evitável, desde que haja acesso a serviços de saúde de qualidade e a intervenções de baixo custo.
O documento aponta ainda que, desde 2015, o ritmo de redução global da mortalidade infantil desacelerou mais de 60%. A tendência preocupa especialistas, sobretudo diante da retração do financiamento internacional em saúde, o que pode comprometer a continuidade de políticas essenciais.
As mortes no período neonatal concentraram quase metade dos óbitos de menores de cinco anos em 2024, mostrando que a prevenção nessa fase inicial da vida avança de forma mais lenta. Entre recém-nascidos, as principais causas de morte foram complicações da prematuridade, responsáveis por 36% dos casos, e problemas durante o parto, com 21%.
Após o primeiro mês de vida, o perfil muda: doenças infecciosas como malária, diarreia e pneumonia passam a liderar as causas de morte infantil.
O relatório traz, pela primeira vez, estimativas específicas sobre mortes diretamente associadas à desnutrição aguda grave. Em 2024, mais de 100 mil crianças entre um mês e quatro anos morreram por essa condição, o que corresponde a cerca de 5% do total global.
Os autores observam que o número pode estar subestimado, uma vez que a desnutrição agrava outras doenças e nem sempre aparece como causa principal nos registros oficiais. Ainda assim, a estimativa reforça o peso da pobreza extrema, da insegurança alimentar e da falta de acesso a cuidados básicos de saúde na mortalidade infantil.
Os dados também evidenciam forte desigualdade geográfica. A África Subsaariana concentrou 58% de todas as mortes de menores de cinco anos em 2024. Em países afetados por conflitos ou com alta fragilidade institucional, o risco de uma criança morrer antes de completar cinco anos é quase três vezes maior.
No conjunto de comunicados divulgados com o relatório, agências da ONU alertam que décadas de avanços podem estar em risco diante da desaceleração observada e da redução de recursos para a área de saúde.
Nesse contexto, o caso brasileiro aparece como exemplo de país que conseguiu reduzir de forma consistente a mortalidade neonatal e de menores de cinco anos, mas que agora precisa reforçar esforços para não perder o ritmo de melhora, sobretudo entre populações e territórios onde as políticas de saúde ainda não chegam com a intensidade necessária.
Entre as prioridades apontadas estão a manutenção e a expansão da atenção primária, o fortalecimento da rede de maternidades, a ampliação da cobertura vacinal, o apoio ao aleitamento materno e o monitoramento constante de óbitos evitáveis — medidas consideradas decisivas para proteger o progresso obtido desde os anos 1990.
“Nenhuma criança deveria morrer de doenças que sabemos como prevenir. Mas vemos sinais preocupantes de que esse progresso está desacelerando — e num momento em que estamos vendo cortes adicionais no orçamento global”, afirmou Catherine Russell, diretora executiva do UNICEF. UNICEF