Análise da trajetória do disparo, indícios de cena forjada e lesões no pescoço fazem polícia tratar morte de soldado da PM como feminicídio

Polícia Civil aponta que trajetória do tiro e lesões no pescoço de Gisele Alves Santana indicam imobilização, possível desmaio e cena montada no apartamento do casal no Brás, em São Paulo; Neto também foi indiciado por fraude processual

18/03/2026 às 07:44 por Redação Plox

Para indiciar o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, marido da policial militar Gisele Alves Santana, por feminicídio e fraude processual, a Polícia Civil apontou dois dos 24 laudos da Polícia Técnico-Científica elaborados após a morte como decisivos para afastar a hipótese de suicídio.

O crime ocorreu há exato um mês e foi registrado inicialmente como suicídio. Depois, passou a ser investigado como morte suspeita. O corpo da PM foi exumado e submetido a novos exames em 7 de março, no Instituto Médico-Legal (IML) Central da capital, incluindo uma tomografia.

Nesta terça-feira (17), a Polícia Civil solicitou à Justiça a decretação da prisão do oficial, com aval do Ministério Público de São Paulo. A Corregedoria da PM também pediu a prisão. Até a última atualização, o Poder Judiciário ainda não havia se manifestado sobre o pedido. A defesa do tenente-coronel não se pronunciou após o pedido de prisão e o indiciamento.


Caso da PM morta em São Paulo.

Caso da PM morta em São Paulo.

Foto: Reprodução


Laudos afastam versão de suicídio

Segundo os peritos, as hipóteses construídas a partir dos laudos indicaram que a cena era incompatível com suicídio e apontaram que Gisele:

  • foi imobilizada pelo pescoço, sem apresentar defesa;
  • possivelmente desmaiou antes de ser baleada;
  • teve a cena do crime reconstruída, montada pelo tenente-coronel, com sangue em “lugares errados” e posição dos pés incompatível com um suicídio.

Essas conclusões se basearam, principalmente, em dois documentos periciais:

  • o laudo que analisou a trajetória da bala que atingiu a cabeça da policial;
  • o laudo sobre a profundidade dos ferimentos encontrados no pescoço.

A Polícia Civil concluiu que a profundidade das lesões no pescoço indicava imobilização e que a trajetória do disparo não era compatível com suicídio.

Os documentos também confirmaram que Gisele não estava grávida e não foi dopada. Em contrapartida, indicaram a existência de mais manchas de sangue da soldado espalhadas por outros cômodos do apartamento onde ela morreu.

O laudo necroscópico, obtido pela imprensa, descreve as lesões como “contundentes” e produzidas “por meio de pressão digital e escoriação compatível com estigma ungueal”, expressão que se refere a arranhões que sugerem marcas de unhas.


Socorrista diz que desconfiou da forma em que arma estava encaixada na mão de PM encontrada baleada

Socorrista diz que desconfiou da forma em que arma estava encaixada na mão de PM encontrada baleada

Foto: Reprodução/TV Globo


Morte no apartamento e início da investigação

A PM, de 32 anos, foi encontrada morta no apartamento onde morava com o marido, no Brás, região central de São Paulo, em 18 de fevereiro. Ele estava no local e foi quem acionou o socorro.

Em mensagens anteriores à morte, Gisele havia se queixado de ciúmes do tenente-coronel, chegando a dizer que “qualquer hora” poderia ser morta. Também foi lembrado que o oficial já havia sido condenado por abuso de autoridade contra um colega, em caso descrito como tendo “objetivo de atingir sua dignidade”.

Horário do disparo e ligações de emergência

Um dos pontos que chamaram a atenção dos investigadores é o horário da morte. Uma vizinha afirmou ter acordado às 7h28 ao ouvir um estampido único e forte vindo do apartamento do casal.

Isso teria ocorrido cerca de meia hora antes da primeira ligação feita pelo marido da vítima ao serviço de emergência. Na chamada à PM, registrada às 7h57, ele informou que a esposa havia se matado. Minutos depois, às 8h05, ligou para o Corpo de Bombeiros, afirmando que a mulher ainda respirava. As equipes chegaram ao local às 8h13.

Arma “bem encaixada” e cena incomum

Outro questionamento relevante diz respeito ao disparo e à posição da arma. Um dos socorristas relatou que a pistola parecia estar “bem encaixada” na mão de Gisele, de um modo que ele nunca havia visto em casos de suicídio. Considerando a cena incomum, decidiu fotografá-la.

O mesmo profissional relatou que, quando a equipe chegou ao apartamento, o sangue já estava coagulado e não havia cartucho de bala no local, o que contribuiu para o estranhamento dos peritos e dos investigadores.

Versão do banho e contradições apontadas por socorristas

No inquérito da Polícia Civil, depoimentos de socorristas que atenderam a ocorrência põem em dúvida a versão apresentada pelo tenente-coronel. Em depoimento, o oficial declarou que estava tomando banho quando ouviu o disparo.

Os primeiros bombeiros, porém, relataram que o encontraram seco e sem qualquer vestígio de água no chão do apartamento.

O tenente-coronel disse ter entrado no banheiro por volta das 7h e que, cerca de um minuto depois, ouviu um barulho que julgou ser de uma porta batendo. Ao sair, teria encontrado Gisele caída na sala.

Um sargento do Corpo de Bombeiros, com 15 anos de experiência, afirmou que encontrou o oficial de bermuda, sem camisa e completamente seco, sem pegadas molhadas que indicassem saída repentina do chuveiro. Ele também relatou que o chuveiro do banheiro do corredor estava ligado, mas não havia poças de água no chão ou no corredor.

Um tenente da PM cuja equipe foi a primeira a chegar ao apartamento reforçou que nem Geraldo nem Gisele aparentavam estar molhados ou terem tomado banho antes do disparo.

Comportamento do marido após o tiro

O estado emocional do tenente-coronel na cena também chamou a atenção das equipes de resgate. O sargento dos Bombeiros relatou não ter observado qualquer sinal de desespero ou choro por parte do marido.

Um segundo bombeiro estranhou que ele falasse com calma ao telefone, questionasse a todo momento o atendimento prestado e insistisse para que a vítima fosse retirada com pressa e levada imediatamente ao hospital.

Os socorristas ainda destacaram que o oficial não tinha marcas de sangue no corpo ou nas roupas, o que indicaria que não tentou prestar os primeiros socorros à esposa.

Ligação para desembargador e movimentação no prédio

Entre os contatos feitos por Geraldo na manhã da ocorrência, um em especial chamou a atenção da família de Gisele: a ligação para o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Imagens mostram que o magistrado chegou ao prédio às 9h07 e subiu ao apartamento com o tenente-coronel. O advogado da família, José Miguel da Silva Junior, questiona a presença do desembargador no local, afirmando que, segundo o relato obtido, ele teria sido a primeira pessoa acionada após o disparo.

Registros indicam que, às 9h18, o desembargador reaparece no corredor do prédio e, às 9h29, o tenente-coronel surge com outra roupa.

Em nota, o Tribunal de Justiça, por meio de sua Diretoria de Comunicação, informou que o desembargador foi chamado ao apartamento como amigo do tenente-coronel e que eventuais esclarecimentos serão prestados à polícia judiciária.

Fui chamado como amigo, após os fatos, pelo Cel., anunciando ocorrência do suicídio. Eventuais esclarecimentos, se necessários, serão dados à Polícia Judiciária

Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan

Limpeza do apartamento e nova linha de apuração

Outro ponto sensível da investigação é a movimentação de policiais no apartamento horas após a morte. Uma câmera de segurança registrou a entrada e saída de três agentes no imóvel onde Gisele morreu.

Segundo uma testemunha, as policiais teriam ido ao local cerca de 10 horas após a ocorrência para fazer a limpeza do apartamento. Elas chegaram ao prédio às 17h48 de 18 de fevereiro, acompanhadas por uma funcionária, e permaneceram ali por aproximadamente 50 minutos.

As imagens mostram que elas não saíram carregando objetos. As policiais serão ouvidas no inquérito para esclarecer o motivo da ida ao local e o que foi feito no interior do imóvel.

Com o conjunto de laudos, depoimentos e imagens, a investigação segue centrada na tese de feminicídio e fraude processual, tendo como eixo a conclusão pericial de que a cena foi montada e a dinâmica do disparo não corresponde a um suicídio.

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