BC aprovou compra do Banco Voiter por suspeito de fraude bilionária no crédito consignado
Mesmo diante de indícios de irregularidades em carteiras de consignado do Banco Master, Banco Central autorizou em julho de 2025 a transferência de controle do Banco Voiter para Augusto Lima, depois rebatizado como Banco Pleno, alvo de investigações que envolvem fluxo atípico de R$ 12,2 bilhões e questionamentos sobre o nível de escrutínio da autarquia
19/01/2026 às 08:55por Redação Plox
19/01/2026 às 08:55
— por Redação Plox
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Em meio às investigações sobre a possível venda de carteiras de crédito consignado falsas pelo Banco Master, o Banco Central autorizou, em julho de 2025, a transferência do controle de um banco para um dos suspeitos de envolvimento no esquema, o empresário Augusto Lima, ex-principal sócio da instituição.
Sede do Banco Central em Brasília
Foto: Agência Brasil/EBC
Lima foi preso em 17 de novembro de 2025, junto com executivos do Master, entre eles o controlador Daniel Vorcaro, durante a Operação Compliance Zero. Ambos foram liberados posteriormente e estão com tornozeleira eletrônica. Lima e outros executivos do banco foram intimados pela Polícia Federal para depor entre 26 e 28 de janeiro.
Alerta no BC e aprovação em meio às suspeitas
As suspeitas de fraudes nas carteiras de crédito consignado do Master, negócio diretamente ligado a Lima, chegaram ao Banco Central em março de 2025, segundo documentos da autarquia e decisões judiciais analisados pela reportagem. O órgão enviou representação ao Ministério Público Federal relatando indícios de crimes em 15 de julho. Nove dias depois, em 24 de julho, o BC deu sinal verde para que o ex-sócio assumisse o controle de um banco.
O empresário tornou-se controlador do Banco Voiter, antigo Indusval, instituição que encerrou 2024 com R$ 7,5 bilhões em ativos e que era controlada pelo Master desde fevereiro de 2024. Após a operação, a instituição passou a se chamar Banco Pleno, com foco em operações para empresas.
Após a prisão de Lima, o Banco Central determinou seu afastamento da gestão cotidiana do Pleno, mas o banco continua operando normalmente.
Fluxo bilionário e origem das carteiras de crédito
O ponto de partida das investigações foi um fluxo considerado atípico de R$ 12,2 bilhões do BRB para o Banco Master, referente à compra de carteiras de crédito consignado nos primeiros meses de 2025.
Diante do volume, o Banco Central pediu esclarecimentos formais. Em resposta, o Master informou, em 25 de março, que os créditos tinham origem em duas associações de servidores da Bahia: a Asteba (Associação dos Servidores Técnico-Administrativos e Afins do Estado da Bahia) e a Asseba (Associação dos Servidores da Saúde e Afins da Administração Direta do Estado da Bahia). Essas entidades seriam responsáveis pela concessão de crédito consignado, em parceria com o Master, a seus associados.
Após uma checagem, o BC concluiu que as duas associações não tinham condições de gerar o volume financeiro declarado e voltou a questionar o banco. O Master afirmou então que, desde janeiro, contava com um novo parceiro para ofertar crédito consignado. A partir daí, a autarquia identificou uma sucessão de outras irregularidades, agravando o quadro dos envolvidos.
Decisão judicial que embasou as prisões aponta indícios de que Lima mantinha um esquema com as entidades baianas. Ele detinha procuração para representá-las perante instituições financeiras em geral, e o telefone de contato das associações era o mesmo de uma empresa em nome do empresário na Receita Federal. Asteba e Asseba também foram alvo de mandados de busca e apreensão.
Ascensão de Augusto Lima no setor financeiro
Natural de Salvador (BA), Augusto Lima é descrito no meio político pelo trânsito com lideranças da Bahia, sobretudo ligadas ao PT, embora o Master seja associado a políticos do centrão. Desde 2024, ele é casado com Flávia Peres, ex-ministra-chefe da Secretaria de Governo da Presidência da República no governo Jair Bolsonaro.
Sua trajetória no setor bancário começou na Ebal (Empresa Baiana de Alimentos), privatizada em 2018 no governo Rui Costa. A partir do braço financeiro do supermercado Cesta do Povo, que integrava o pacote de ativos, Lima reestruturou um cartão de compras e criou o Credcesta, cartão de benefício consignado, com desconto em folha, voltado a servidores ativos, aposentados e pensionistas.
Ainda em 2018, Lima firmou acordo com o Master para compartilhar o Credcesta. Em 2020, tornou-se sócio do banco, impulsionando a expansão do produto por quase todo o país e consolidando a imagem de “homem do crédito consignado” dentro da instituição.
Em 2024, o Credcesta estava presente em 176 municípios de 24 estados. As demonstrações financeiras daquele ano destacavam crescimento expressivo na base de crédito consignado federal, incluindo beneficiários do INSS.
Inicialmente, a estratégia de venda de carteiras para reforçar a liquidez do Master foi turbinada por operações envolvendo o Credcesta. O ritmo dessas transações no fim de 2024 levou a um aumento de queixas, principalmente na Bahia. Reportagem anterior relatou a insatisfação de clientes que, em alguns casos, diziam não reconhecer a contratação dos créditos depois repassados ao BRB.
Com a compra do Voiter, Lima também assumiu o controle da corretora Intercap e reuniu a totalidade do Credcesta sob o guarda-chuva do Banco Pleno, que hoje atua com servidores estaduais e municipais.
Em outubro de 2025, o INSS suspendeu o convênio de crédito consignado originado no Master, alegando irregularidades como alto volume de reclamações e descumprimento de normas, entre elas a exigência de autorização expressa do tomador.
Críticas à aprovação do BC e regras para controle de bancos
Especialistas em operações de fusões e aquisições bancárias afirmam que não há roteiro único para análise de transferência de controle, mas consideram que casos sensíveis, como o do Master, exigem maior escrutínio, sobretudo quando o comprador é um ex-sócio relevante sob investigação.
A transferência de ativos a ex-sócio, sobretudo em um momento sensível de uma investigação, impõe a ampliação do escrutínio. É indispensável verificar se esse ex-sócio atua como terceiro interposto, consciente ou não, para afastar o bem do alcance de credores, reguladores ou autoridades.
José Andrés Lopes da Costa, sócio do DCLC Advogados
De acordo com ele, deixar de considerar esse risco significaria abrir uma lacuna importante na investigação, uma vez que o dever técnico é o de apurar de forma integral o fluxo patrimonial e seus beneficiários, especialmente quando a transferência ocorre sob suspeita e em ambiente de assimetria de informações.
Questionado sobre como conduziu a análise da venda de um ativo relevante do Master para um ex-sócio de Daniel Vorcaro, em meio às suspeitas de fraudes, o Banco Central informou, por sua assessoria, que não comenta assuntos relativos ao Master por conta de sigilo. Pessoas próximas ao processo, sob reserva, afirmam que a equipe técnica da autarquia sustenta que todas as decisões no caso estão amparadas em fundamentos legais.
O processo de aprovação de mudança de controle em instituições financeiras é regido pela resolução nº 4.970, de 2021, do Conselho Monetário Nacional. A norma estabelece diretrizes como análise de liquidez, solvência e histórico do grupo comprador, além da exigência de que o proponente não responda a processo criminal ou inquérito policial. No histórico encaminhado ao TCU, o BC afirma que autorizou a transferência do Voiter para Lima porque ele atendia aos requisitos da resolução.
Ligação de Lima com o Master e versões conflitantes
Outro ponto de controvérsia é a real extensão da participação de Augusto Lima no Master. Ele era presença frequente na sede do banco, e reportagens de veículos especializados e de circulação nacional apontaram, em mais de uma ocasião em 2025, que sua saída ainda dependia de formalização junto ao Banco Central.
Os dados oficiais, no entanto, são divergentes. O comunicado do BC sobre a liquidação do Master lista sócios e diretores, mas não inclui o nome de Lima. Já consulta feita pela reportagem, em 9 de janeiro, ao site da Receita Federal, indicava que ele seguia como diretor do Master. A decisão judicial que autorizou sua prisão o descreve como sócio e diretor da instituição, posições negadas pela defesa.
Em nota, os advogados de Lima sustentaram que as operações investigadas ocorreram após sua saída do Master, em maio de 2024, e não teriam qualquer vínculo com sua atuação ou decisões tomadas enquanto esteve na instituição. A defesa afirma ainda que a apuração demonstrará a inexistência de relação entre Lima e os fatos sob investigação.
Documento obtido pela reportagem mostra o acordo de saída do empresário, assinado em 28 de maio de 2024. Nele, Lima se compromete a transferir a Vorcaro, sob determinadas condições, 33,3 milhões de ações ordinárias, equivalentes a 18,62% do capital social, que seriam toda a sua participação no Master.
Formulário de Referência divulgado pela Master Corretora, com dados do início de 2024, indicava que os três principais sócios eram Daniel Vorcaro, Maurício Quadrado e Augusto Lima, que então detinha 25,89% do capital. Ao fim do ano, os nomes de Lima e Quadrado deixaram de aparecer, e a estrutura societária passou a mostrar um número maior de fundos no controle, sem detalhar quem são os investidores finais.
Outro ex-sócio barrado e o papel da Trustee
No mesmo 24 de julho em que aprovou a transferência do Voiter para Augusto Lima, o Banco Central negou a operação que previa a venda do Letsbank para Maurício Quadrado, outro ex-sócio do Master, que ingressou no banco em setembro de 2020 e deixou a sociedade em setembro de 2024.
Documento do BC aponta que Quadrado não conseguiu comprovar capacidade financeira para assumir o controle do Letsbank nem a origem lícita dos recursos para a transação. Dias depois, em 14 de janeiro, ele foi alvo de busca e apreensão na segunda fase da Operação Compliance Zero.
Quadrado comandou a área de investimentos do Master e é, desde 2022, proprietário da Trustee DTVM. A corretora prestava serviços ao Master e aparece em diferentes frentes de investigação, envolvendo não apenas Daniel Vorcaro, mas também o empresário Nelson Tanure.
A mesma Trustee foi alvo, em 28 de agosto de 2025, da Operação Carbono Oculto, sob suspeita de movimentar recursos ligados a investigados com conexões com o PCC. A assessoria de Quadrado afirma que o empresário sempre atuou dentro da lei.
Fundamentos da decisão judicial sobre Lima
Na decisão que determinou a prisão de Augusto Lima, a Justiça Federal em Brasília destacou, com base em elementos apresentados pela polícia, que ele controlaria de forma indireta as duas associações de servidores da Bahia envolvidas na narrativa usada para justificar as transferências de recursos entre instituições financeiras como supostas cessões de carteiras de crédito.
O texto ressalta que Lima tem procuração para representar ambas junto a bancos, sendo responsável pela movimentação financeira das entidades, e menciona ainda a coincidência do telefone de contato das associações com o de uma empresa em nome do empresário na Receita Federal. Para o juízo, sua posição de sócio do Master e articulador das operações de crédito o colocaria no centro do esquema de captação fraudulenta de recursos que, depois, seriam cedidos ao BRB.
Cronologia societária do Banco Master
Daniel Vorcaro, Augusto Lima e Maurício Quadrado chegaram a dividir o comando do Master. A seguir, os principais marcos dessa trajetória:
2018
11 de abril – Consórcio do qual participa Augusto Lima arremata a Ebal (Empresa Baiana de Alimentos) no processo de privatização do governo Rui Costa, levando a estrutura que serviu de base para o Credcesta.
2019
12 de outubro – Daniel Vorcaro recebe autorização do Banco Central para assumir o então Banco Máxima, do qual era sócio desde 2017. Em 2021, a instituição passa a se chamar Banco Master.
2020
28 de maio – Augusto Lima torna-se sócio do Master e amplia a presença do Credcesta em nível nacional, reforçando a carteira de crédito consignado.
29 de setembro – Maurício Quadrado deixa a corretora Planner e entra na sociedade do Master, levando consigo os serviços da Trustee, corretora adquirida em 2022 e que não integrou os ativos do banco.
2024
7 de fevereiro – O Master anuncia a compra do Banco Voiter (antigo Indusval).
28 de maio – É firmado o acordo pelo qual Lima se compromete a transferir 33,3 milhões de ações ordinárias do Master, equivalentes a 18,62% do capital, para Daniel Vorcaro.
31 de maio – A Trustee amplia a compra de ações da Ambipar; suspeitas de manipulação de preço são investigadas pela CVM.
26 de setembro – Quadrado deixa a sociedade do Master.
2025
25 de março – Em resposta a questionamento do BC sobre a origem de R$ 12,2 bilhões em operações com carteiras de crédito, o Master informa que os créditos foram originados por duas entidades da Bahia, que o BC mais tarde conclui não terem capacidade financeira para tanto.
28 de março – O BRB anuncia a compra do Master, e o Banco Central inicia a análise da proposta.
15 de julho – O BC apresenta representação criminal ao MPF sobre suspeitas de fraude na venda de carteiras de crédito do Master ao BRB.
24 de julho – O BC autoriza a transferência do Banco Voiter, então pertencente ao Master, para Augusto Lima, e nega a venda do Letsbank, também ligado ao Master, para Maurício Quadrado.
28 de agosto – A corretora Trustee, de Quadrado, é alvo da Operação Carbono Oculto, sob suspeita de operar recursos de investigados associados ao PCC.
17 de novembro – Lima é preso, ao lado de executivos do Master, incluindo Vorcaro, na Operação Compliance Zero, que aponta suspeitas de envolvimento do empresário na fraude de carteiras a partir das associações baianas.
18 de novembro – O Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master.