Estudo revela a idade mais triste da vida e aponta padrão global em mais de 140 países
Pesquisa internacional com dados de mais de 140 países mostra que bem-estar forma curva em U, atinge ponto mínimo por volta dos 50 anos e volta a subir após os 70, padrão também observado no Brasil
19/01/2026 às 09:38por Redação Plox
19/01/2026 às 09:38
— por Redação Plox
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Qual é a idade mais feliz e a mais triste da vida? A resposta varia conforme a trajetória de cada pessoa, mas um estudo internacional aponta que existe um momento da vida em que o bem-estar tende a chegar ao seu ponto mais baixo em diferentes países.
Em 2020, o economista David Blanchflower, professor da faculdade Dartmouth, nos Estados Unidos, analisou dados de mais de 140 países, entre nações desenvolvidas e em desenvolvimento, e utilizou diversos indicadores para medir em que fase da vida o bem-estar e a alegria atingem o nível mínimo.
Os resultados indicam que o ponto mais baixo da satisfação com a vida ocorre, em média, entre os 47 e 48 anos. A meia-idade é descrita como um período de maior vulnerabilidade, em que as pessoas enfrentam o que o autor chama de um “caldo tóxico” de desafios.
Nessa fase, é comum o ajuste de expectativas, quando muitos se deparam com aspirações não realizadas. Ao mesmo tempo, pressões sociais e econômicas — como desemprego, problemas de saúde ou divórcio — tendem a ter impacto mais forte no bem-estar. Também é um período em que aumenta a vulnerabilidade psicológica, com maior incidência de depressão e instabilidade emocional.
O ponto mais baixo na curva da satisfação ocorre globalmente por volta dos 47 a 48 anos.
Foto: Freepik
Impacto biológico e emocional da meia-idade
Do ponto de vista biológico, a meia-idade costuma ser associada ao aumento crônico do cortisol, hormônio ligado ao estresse. Esse quadro pode provocar alterações de humor, problemas de sono, fadiga e redução do prazer em atividades cotidianas.
Mudanças hormonais típicas desse período intensificam esses efeitos. Nos homens, a queda da testosterona contribui para alterações emocionais e físicas. Nas mulheres, as flutuações hormonais da perimenopausa e da menopausa afetam de forma direta o bem-estar emocional.
“A chamada crise da meia-idade não deve ser vista como uma falha pessoal, mas como um período previsível de maior vulnerabilidade, resultado da convergência de fatores psicológicos, sociais e biológicos. Nessa fase, o humor e a sensação de satisfação tornam-se mais sensíveis”, diz Picarelli.
Picarelli
Embora a chamada crise da meia-idade tenha deixado de ser vista como mito, especialistas destacam que esse período é transitório. Após o fundo do poço, o bem-estar tende a se recuperar.
Após o vale, a curva começa a subir
Depois do ponto mínimo, a satisfação com a vida volta a crescer de maneira gradual e consistente em direção aos 70 anos ou mais. Esse movimento de recuperação foi observado em quase todos os países analisados, independentemente do nível de renda.
Na velhice, a satisfação com a vida muitas vezes retorna a patamares semelhantes aos da juventude. Segundo o médico Helder Picarelli, a psicologia indica que esse aumento progressivo do bem-estar na maturidade está ligado, em grande parte, ao desenvolvimento da maturidade emocional e à reorganização das expectativas.
Para muitos, essa etapa coincide com a sensação de ter alcançado, ao menos em parte, objetivos importantes, o que favorece uma visão mais equilibrada sobre conquistas e frustrações ao longo da vida.
Um dos pontos que chamam a atenção no estudo é a repetição desse padrão em contextos culturais variados: as pessoas tendem a se sentir melhor na juventude, passam por um período de menor bem-estar até o final dos 50 anos e, em seguida, voltam a valorizar mais a sensação de bem-estar à medida que se aproximam da velhice.
A “curva em U” da felicidade
Para Helder Picarelli, médico neurocirurgião e neurologista do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), a chamada curva da felicidade em formato de “U” é um fenômeno amplamente descrito na literatura científica, com diversos estudos robustos apontando que a felicidade — ou bem-estar subjetivo — tende a seguir esse padrão ao longo da vida.
“Os resultados foram claros. Mesmo após o controle de múltiplas variáveis, como escolaridade, renda, situação no mercado de trabalho e estado civil, a idade permaneceu como um fator independente e significativo”, afirma o especialista.
Helder Picarelli
Como a pandemia afetou a curva da felicidade
O estudo de Blanchflower considerou apenas os momentos iniciais da pandemia de Covid-19, período que teve impacto profundo na saúde mental em todo o mundo.
O médico psiquiatra Saulo Ciasca explica que a crise da meia-idade já existia antes, mas a pandemia aprofundou esse “vale”, ampliando o esgotamento. Nesse momento da vida, é comum o acúmulo de responsabilidades com filhos, pais idosos, carreira e finanças. Com a Covid-19, somaram-se medo do desemprego, luto, isolamento e sobrecarga emocional.
Embora a curva em U indique que a felicidade costuma aumentar após os 50 anos, o autor do estudo alerta que grandes crises econômicas ou de saúde pública podem ameaçar esse movimento, afetando principalmente quem já apresenta menor resiliência emocional.
Brasil também segue a curva em U
A pesquisa cita o Brasil como exemplo de que a curva da felicidade em formato de U não é exclusividade de países desenvolvidos. O padrão também aparece em nações em desenvolvimento, o que reforça a influência da idade na percepção de bem-estar.
Ao mesmo tempo, especialistas ponderam que essa interpretação não se aplica da mesma forma a todas as culturas. Em sociedades com organização social distinta ou em comunidades mais isoladas, outros fatores podem ter peso maior na determinação do bem-estar, independentemente da idade cronológica.
A conexão entre jovens e idosos, conhecida como relação intergeracional, é apontada como fundamental para a coesão social e para a troca de experiências entre diferentes fases da vida.
Afinal, onde a felicidade é maior: juventude ou velhice?
A felicidade é um sentimento subjetivo e dinâmico, que pode mudar ao longo da vida. Aquilo que gera prazer em uma fase pode não ter o mesmo impacto anos depois. Na juventude, a alegria costuma estar associada a novidades, descobertas e primeiras experiências. Na velhice, o amadurecimento tende a reduzir o estresse ligado a certas preocupações.
Esse contraste entre formas de felicidade é compatível com teorias psicológicas, como a da seletividade socioemocional, segundo a qual, à medida que a percepção do tempo de vida se torna mais limitada, as pessoas passam a priorizar experiências emocionalmente mais significativas.
O psiquiatra Saulo observa que, com o passar do tempo, diminuem a comparação social e a pressão por decisões definitivas, enquanto aumentam a aceitação e a sensação de paz. Em termos populacionais, a curva do bem-estar tende a subir levemente na velhice — embora, na prática, as experiências individuais possam variar bastante.