‘Hamnet’ transforma luto de Shakespeare em arte e desponta para o Oscar de 2026

Dirigido por Chloé Zhao e estrelado por Paul Mescal e Jessie Buckley, filme vencedor do Globo de Ouro explora a morte do filho de Shakespeare, o luto de Agnes e a ligação entre a tragédia íntima e a criação de ‘Hamlet’, reforçando a atualidade da obra do autor

19/01/2026 às 10:58 por Redação Plox

Uma tragédia pouco conhecida da vida de William Shakespeare chega aos cinemas e já surge como uma das principais apostas para o Oscar de 2026. O filme "Hamnet, a vida antes de Hamlet" acompanha como o dramaturgo e sua esposa enfrentaram o luto pela morte precoce do filho.


Jessie Buckley e Paul Mescal estrelam 'Hamnet: A Vida Antes de Hamlet', de Chloé Zhao

Jessie Buckley e Paul Mescal estrelam 'Hamnet: A Vida Antes de Hamlet', de Chloé Zhao

Foto: Divulgação


O Shakespeare antes de Shakespeare

Dirigida por Chloé Zhao, a produção é baseada no romance de Maggie O’Farrell e apresenta um William “pré-Shakespeare”, ainda em busca de sua voz literária. Ao mesmo tempo, reconstrói a história de amor com Agnes — ou Anne, como alguns historiadores sustentam — e o impacto da peste bubônica, que devastou cidades europeias entre os séculos XIV e XVI e atingiu a família do escritor.

Stephen Greenblatt, professor de Harvard e especialista em Shakespeare, lembra que o dramaturgo conviveu com a epidemia desde o nascimento:

No ano em que Shakespeare nasceu, uma parcela significativa da população da cidade dele tinha morrido por causa da peste. Era um perigo que ele conhecia bem de perto

Stephen Greenblatt

O pesquisador ressalta que cada família reagia de forma distinta à perda, algumas criando uma espécie de proteção emocional, outras mergulhando no que hoje se reconhece como depressão. O livro e o filme são apresentados como uma tentativa de imaginar como Shakespeare e a esposa atravessaram essa tragédia íntima que moldou a obra.

Da dor à arte em “Hamlet”

Quatro anos após a morte do filho, o dramaturgo transformou o luto em criação ao escrever "Hamlet", peça cujo título é considerado uma variação do nome da criança. A relação entre a experiência pessoal e a dramaturgia está no centro da leitura contemporânea da obra.

O olhar de Jessie Buckley sobre Agnes

Intérprete de Agnes, a atriz Jessie Buckley recorda que se sentia intimidada ao ler Shakespeare na escola e que só mais tarde compreendeu a potência da linguagem do autor, descrevendo suas palavras como profundas e a humanidade de seus textos como inesgotável. Para ela, "Hamlet" nasce de algo extremamente pessoal que acabou por atravessar séculos.

Buckley tornou-se mãe logo após as filmagens e conecta a experiência à personagem: a chegada da filha, conta, reacendeu nela um sentimento de deslumbramento que atravessa o filme e reforça a ideia de um renascer do olhar para o mundo. O longa já venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático e é apontado como um dos destaques na corrida pelo Oscar.

Bastidores de um mundo recriado

Em Londres, uma exposição apresentou bastidores da produção, com cenários e fotografias. Buckley enfatizou a forma como Chloé Zhao constrói universos imersivos, em que o set se aproxima de uma vida real, com detalhes que incluem até cheiros, criando um ambiente do qual, segundo a atriz, é difícil querer sair.

Shakespeare, a família e os silêncios

O papel de William Shakespeare é interpretado por Paul Mescal. Seu dublê relatou ter se surpreendido ao conhecer aspectos da vida privada do autor, chamando atenção para o fato de que a imagem pública do dramaturgo costuma se concentrar nas obras, e não na família ou nos primeiros passos da carreira.

O filme é descrito como uma narrativa de silêncios e emoções à flor da pele, que conecta o amor materno ao gesto criativo. A história mostra como a dor pode se converter em arte e como Shakespeare encontrou, em sua tragédia pessoal, combustível para sua imaginação.

A atualidade de Shakespeare mais de 400 anos depois

Mais de quatro séculos após sua morte, Shakespeare segue influente. "Hamnet" reforça a atualidade de sua obra e evidencia que, além de um dos maiores contadores de histórias da humanidade, sua vida íntima ainda guarda segredos e emoções capazes de tocar plateias em todo o mundo.

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