Técnicos de enfermagem são presos suspeitos de matar três pacientes em UTI
Trio é investigado por aplicar doses elevadas de medicamento e até desinfetante em idosos e servidor público, após detecção de óbitos atípicos pelo Hospital Anchieta, em Taguatinga (DF)
Três técnicos de enfermagem que trabalhavam no Hospital Anchieta, em Taguatinga, no Distrito Federal, foram presos suspeitos de assassinar três pacientes entre novembro e dezembro de 2025. De acordo com as investigações, eles teriam aplicado doses elevadas de um medicamento, usando a substância como veneno contra os internados.
Além desse remédio, o técnico apontado como principal suspeito utilizou uma seringa para fazer 13 aplicações de desinfetante em uma paciente de 75 anos. Segundo a Polícia Civil, todas as aplicações ocorreram no mesmo dia, após a idosa sofrer seis paradas cardíacas.
Em outra ocasião, o mesmo técnico, de 24 anos, usou a senha de um médico do hospital para emitir uma receita fraudulenta do medicamento. Com o documento, retirou o remédio na farmácia da unidade e o aplicou nas três vítimas, sem consultar a equipe médica, conforme a apuração policial. A Polícia Civil do DF decidiu não divulgar o nome da substância.
Foto: PCDF
Aplicações em série e disfarce do crime
De acordo com a investigação, duas das aplicações foram feitas em 17 de novembro de 2025 e a terceira em 1º de dezembro do mesmo ano. Para tentar ocultar a autoria do crime, o técnico de enfermagem realizava massagem cardíaca nas vítimas, simulando esforço para reanimá-las, segundo a Polícia Civil.
O inquérito tramita sob sigilo, e, por isso, os nomes dos investigados não foram divulgados.
Piora súbita das vítimas acendeu alerta
De acordo com a diretora do Instituto Médico Legal, Márcia Reis, os pacientes tinham quadros clínicos de gravidade diferente, mas um ponto em comum chamou a atenção de médicos e investigadores: a piora súbita de todos eles.
Imagens das câmeras de segurança da Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde as vítimas estavam internadas, mostram que a aplicação dos medicamentos ocorria justamente em momentos de agravamento do estado de saúde dos pacientes, segundo a Polícia Civil.
As vítimas são:
a professora aposentada Miranilde Pereira da Silva, 75 anos, de Taguatinga;
o servidor público João Clemente Pereira, 63 anos, do Riacho Fundo I;
o servidor público Marcos Raymundo Fernandes Moreira, 33 anos, de Brazlândia.
Em nota, a família de João Clemente afirmou que acreditava que a morte dele havia ocorrido por “causas naturais”. A informação sobre a suspeita de crime só chegou à família na sexta-feira (16).
Reação do Hospital Anchieta e demissões
Também por meio de nota, o Hospital Anchieta informou que, ao identificar “circunstâncias atípicas” relacionadas a três óbitos na UTI, instaurou um comitê interno para apurar os fatos e, com base no resultado dessa análise, solicitou a abertura de inquérito policial.
Os ex-técnicos de enfermagem supostamente envolvidos nos crimes foram demitidos. Segundo o hospital, as famílias das vítimas foram comunicadas e receberam esclarecimentos “de forma responsável e acolhedora”.
Foto: PCDF
Operação policial e novas frentes de investigação
A Polícia Civil informou que as prisões dos ex-técnicos ocorreram em 11 de janeiro de 2026. Na mesma data, foram cumpridos três mandados de busca e apreensão em Taguatinga, Brazlândia e Águas Lindas de Goiás.
A segunda fase da operação foi deflagrada em 15 de janeiro, com a apreensão de dispositivos eletrônicos em Ceilândia e Samambaia.
A corporação ainda apura se há outras possíveis vítimas no Hospital Anchieta e em outras unidades de saúde onde o técnico de 24 anos já trabalhou.
Posicionamento do Hospital Anchieta
O Hospital Anchieta S.A., referência em cuidados de saúde em Brasília/DF há 30 anos, vem a público esclarecer as providências adotadas diante de fatos graves envolvendo ex-funcionários da instituição.
Ao identificar circunstâncias atípicas relacionadas a três óbitos ocorridos em sua Unidade de Terapia Intensiva, o Hospital instaurou, por iniciativa própria, em cumprimento ao seu dever civil, ético e ao seu compromisso com a transparência, comitê interno de análise e conduziu investigação célere e rigorosa, que em menos de vinte dias resultou na identificação de evidências envolvendo ex-técnicos de enfermagem, as quais foram formalmente encaminhadas às autoridades competentes.
Com base nessas evidências, fruto da investigação interna realizada pela instituição, o próprio Hospital requereu a instauração de inquérito policial, bem como a adoção das medidas cautelares cabíveis, inclusive a prisão cautelar dos envolvidos os quais já haviam sido desligados da Instituição, prisões as quais foram cumpridas pelas autoridades nos dias 12 e 15 de janeiro de 2026.
Pautado pela transparência de seus processos e pela confiança nos protocolos internos que norteiam sua atuação, o Hospital entrou em contato com as famílias envolvidas, prestando todos os esclarecimentos necessários de forma responsável e acolhedora. Reitera, ainda, que o caso tramita em segredo de justiça, o que impossibilita a divulgação de informações adicionais bem como a identificação das partes envolvidas.
O hospital entende que o segredo de justiça é imprescindível à preservação da apuração, à proteção das partes envolvidas e ao regular exercício das atribuições das autoridades competentes, o qual deve ser estritamente observado de acordo com os limites impostos pela decisão judicial.
O Hospital, enquanto também vítima da ação destes ex-funcionários, solidariza-se com os familiares das vítimas, e informa que está colaborando de forma irrestrita e incondicional com as autoridades públicas, reafirmando seu compromisso permanente com a segurança dos pacientes, com a verdade e a justiça.
Hospital Anchieta
O que diz o Conselho Regional de Enfermagem
Em nota, o Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF) informou que tomou conhecimento dos fatos noticiados pela imprensa sobre mortes suspeitas de pacientes em uma unidade hospitalar do DF e que acompanha o caso dentro de sua competência legal.
O conselho afirmou que o episódio também é investigado pelas autoridades e tramita na esfera judicial, o que impede, neste momento, qualquer conclusão definitiva ou juízo de valor, devendo ser respeitados o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa.
Na nota, o Coren-DF reforçou o compromisso com a segurança do paciente, a ética profissional e uma enfermagem qualificada, responsável e comprometida com a vida.
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