Crianças na Austrália migram do papel para o digital, mas ainda se sentem mais capazes escrevendo à mão

Pesquisa com mais de 500 alunos mostra que a qualidade do texto no computador depende da fluência no teclado, enquanto atitudes positivas com a escrita manuscrita se associam a melhor desempenho no papel

19/02/2026 às 10:23 por Redação Plox

Alunos do 2º ano do ensino fundamental na Austrália se preparam para uma mudança importante: deixar gradualmente o uso exclusivo de papel e caneta para incorporar teclados e plataformas digitais ao cotidiano escolar. Uma pesquisa nacional com mais de 500 estudantes mostra que, nesse processo, crianças desenvolvem conexões e reações distintas dependendo do modo como escrevem.

A partir do 3º ano, as avaliações nacionais passam a ser feitas em formato digital. Para acompanhar essa exigência, as escolas intensificam o uso de plataformas online em sala de aula, preparando os alunos para os testes padronizados.


Imagem ilustrativa

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Foto: Freepik

Pesquisa investiga efeitos da transição para o digital

O estudo foi conduzido pela Dra. Anabela Malpique, professora sênior de alfabetização da Faculdade de Educação da Edith Cowan University (ECU). A pesquisa buscou entender se a mudança na forma de escrever — do manuscrito para o computador — gera impactos no desempenho e na experiência dos alunos.

Os exames nacionais manuscritos foram descontinuados nas escolas primárias australianas. Os alunos são obrigados a fazer testes online de alfabetização e matemática a partir do 3º ano — por isso, é importante entender a diferença no desempenho da escrita entre as modalidades em papel e em computadorDra. Anabela Malpique

Os resultados, divulgados em novembro de 2025, indicam que, embora os estudantes tenham atitudes bastante positivas em relação ao uso de computadores, eles ainda se sentem mais “capazes” quando escrevem à mão.

Motivação, confiança e qualidade dos textos

Os pesquisadores analisaram como atitude e motivação dos escritores iniciantes influenciam a qualidade de seus textos. Um dos principais achados é que uma postura positiva em relação à escrita à mão tem impacto direto no sucesso das produções em papel.

De acordo com a Dra. Malpique, atitudes negativas ou falta de confiança na escrita manuscrita também se refletem no resultado: nesses casos, os textos tendem a apresentar qualidade inferior.

Já no meio digital, a dinâmica é diferente. Gostar de usar o computador, por si só, não garante um texto melhor. Para o desempenho na escrita em teclado, o fator decisivo é a “automaticidade no teclado” — a habilidade técnica e a rapidez ao digitar — e não apenas a motivação do estudante.

A especialista ressalta que atitudes específicas em relação à escrita no computador não se mostraram um fator único ou estatisticamente significativo para prever a qualidade e a produtividade dos textos digitais.

Fadiga na escrita à mão e entraves na digitação

Entrevistas com os estudantes revelaram percepções distintas sobre os desafios de cada formato.

Na escrita à mão, as crianças frequentemente associam a atividade à fadiga física. Muitos relatos mencionam que “dói a mão” ou que se sentem “cansadas” em função do esforço psicomotor contínuo exigido pela caligrafia.

Já na escrita digital, os obstáculos aparecem principalmente no campo técnico: dificuldades para coordenar os movimentos, localizar letras no teclado e manter o ritmo de digitação tornam o processo mais lento e, em alguns casos, frustrante.

Desafio para escolas: equilibrar papel e teclado

Diante da digitalização crescente das avaliações, especialistas defendem que as escolas adotem uma abordagem equilibrada. A recomendação é que a transição não seja tratada como substituição simples do papel pelo computador, mas como um processo que exige suporte específico.

Segundo a Dra. Malpique, os professores devem investir tanto no desenvolvimento das habilidades psicomotoras necessárias à caligrafia quanto na fluência técnica no uso do teclado, além de trabalhar crenças motivacionais positivas em relação aos dois formatos.

A orientação para as instituições é clara: não ignorar a transição e garantir que o avanço tecnológico não resulte em perdas na qualidade do aprendizado. Isso implica equilibrar o apoio à escrita manuscrita com estratégias que fortaleçam a confiança e a competência dos alunos na escrita digital.

O estudo integra o projeto “Escrita para Todos”, voltado a investigar como a alfabetização se transforma em um contexto cada vez mais digitalizado.

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