Exportação de gado vivo do Brasil dobra em três anos e bate recorde em 2025

Embarques chegaram a quase 4 milhões de quilos, mas avanço reacende críticas sobre impactos sanitários, ambientais e éticos nas viagens marítimas.

19/02/2026 às 08:54 por Redação Plox

O embarque de gado vivo produzido no Brasil dobrou em três anos e atingiu um recorde em 2025, mesmo sob forte contestação de especialistas em bem-estar animal. De acordo com dados da plataforma Agrostat, do Ministério da Agricultura, as exportações chegaram a quase 4 milhões de quilos naquele ano.

O volume ainda é menor do que o de carne bovina refrigerada, que ultrapassou 3 bilhões de quilos em 2025, mas o crescimento do envio de animais inteiros chama atenção e reacende o debate sobre impactos sanitários, ambientais e éticos desse tipo de transporte.


Baias com gado dentro do navio para transporte marítimo

Baias com gado dentro do navio para transporte marítimo

Foto: Divulgação / Abeg


Boa parte desse gado segue em navios para outros países, onde os animais são engordados e abatidos. O modelo é mais caro para o importador do que adquirir carne já refrigerada, porque o transporte ocupa mais espaço e o comprador ainda assume a fase final da produção.

Segundo o presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Gado (Abeg), Lincoln Bueno, essa forma de comércio atende a duas demandas principais: populações que preferem carne de animais abatidos recentemente, por considerá-la mais fresca, e a necessidade de cumprir protocolos religiosos específicos de abate.

Há também transporte aéreo de bovinos, mas esse serviço é voltado a animais de alto valor genético, destinados à reprodução.

Magreb lidera compras e viagens duram até 10 dias

Os principais compradores do gado vivo brasileiro são países do Magreb, região que abrange Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Mauritânia e Saara Ocidental. Em geral, as viagens marítimas duram cerca de 10 dias.

Apesar da alta demanda e da rentabilidade, o transporte em navios é alvo de críticas recorrentes de especialistas em bem-estar animal. Episódios recentes em diferentes países expuseram situações de superlotação, más condições de higiene e mortalidade de animais a bordo.

No fim de 2025, um navio com cerca de 3 mil vacas, vindo do Uruguai, ficou um mês encalhado na Turquia. Ambientalistas relataram dezenas de mortes e suspeita de carcaças lançadas ao mar.

O Brasil também já foi acusado de maus-tratos. Em 2018, uma embarcação com 25 mil bois ficou uma semana atracada no Porto de Santos (SP) após embargo. O navio apresentava superlotação e acúmulo de fezes e urina, o que gerou forte odor e poluição atmosférica na cidade. Após a liberação, seguiu viagem para a Turquia.

De acordo com o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (Anffa Sindical), a fiscalização na saída do país é considerada rígida e os navios deixam o Brasil em conformidade com as exigências legais.

Alguns países já optaram por banir totalmente esse tipo de comércio, como Reino Unido e Nova Zelândia.

Exportação ajuda a regular preço do boi, diz setor

Para Lincoln Bueno, da Abeg, a exportação de gado vivo funciona como uma válvula de escape para o mercado interno de carne bovina, contribuindo para formar preços e garantir renda ao produtor em períodos de baixa.

O pecuarista fica contente, por isso que, quando alguém reclama ou quer proibir, se juntam a Confederação Nacional da Agricultura, a Sociedade Rural Brasileira... Entram todos ali [na discussão] e não deixam [proibir]. Lincoln Bueno, presidente da Abeg

Como funciona a viagem de navio

Os navios utilizados no transporte de gado vivo variam de porte e podem levar de 4 mil a até 30 mil animais, segundo Bueno. O padrão mais comum é o embarque de bezerros com cerca de 300 kg, por serem mais fáceis de manejar a bordo.

Na alimentação, predominam feno e farelos, por serem produtos mais simples de estocar e distribuir em alto-mar. De acordo com a professora Aline Sant’Anna, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), especializada em transporte marítimo de gado vivo, as restrições de espaço fazem com que os animais consumam menos alimento do que em confinamentos em terra.

A ventilação também é um ponto central da operação. Nos conveses superiores, o ar circula de forma natural; nos inferiores, é obrigatório o uso de um sistema de exaustão, semelhante ao instalado em garagens subterrâneas. A medida é fundamental porque o gado consome grande volume de água e urina com frequência, o que gera forte cheiro de ureia, especialmente nos andares mais baixos. Esse tipo de sistema é exigido pela Instrução Normativa 46, de 2018, do Ministério da Agricultura e Pecuária.

Os animais são divididos em baias com até 10 bois, para limitar a movimentação e reduzir o risco de desequilíbrio da embarcação. Em geral, são agrupados animais que já conviviam nas fazendas de origem, tanto para evitar brigas quanto por se tratar de uma espécie gregária.

Normalmente, as viagens contam com um médico-veterinário e vaqueiros, encarregados da alimentação, monitoramento e limpeza das áreas de permanência do gado.

Segundo Gisele Leite Camargo, coordenadora do Conselho de Delegados Sindicais do Anffa Sindical, é comum que ocorram de uma a três mortes por trajeto, embora não existam dados oficiais consolidados sobre o tema. Ela atribui essas perdas ao estresse causado pelo ambiente novo e ao consequente comprometimento da imunidade dos animais.

Críticas: pouco espaço, calor e acúmulo de fezes

Entre os principais questionamentos ao modelo está a falta de espaço adequado para que o gado viaje com conforto. A própria Instrução Normativa 46 de 2018 determina a lotação máxima de acordo com o peso dos animais. Para um bezerro de 300 kg, que é o padrão mais comum, a regra estabelece um animal por metro quadrado.

Na comparação com sistemas de confinamento em terra, a diferença é significativa. Sant’Anna afirma que, em média, cada boi dispõe de cerca de 10 metros quadrados nesses sistemas, bem acima do que ocorre em navios.

Outro ponto sensível é a circulação de ar nos conveses, principalmente nos inferiores, onde se acumulam umidade e amônia. A amônia é liberada a partir da urina e das fezes, que são produzidas com frequência. Segundo a professora, um boi de aproximadamente 300 kg consome por volta de 40 litros de água por dia.

Ela também destaca que muitas embarcações usadas hoje não foram originalmente projetadas para transporte de animais vivos, resultando de adaptações de navios antigos. Nessas situações, aumentam os riscos de falhas no sistema de exaustão e de manejo inadequado do ambiente interno.

A limpeza constante é considerada essencial, mas a docente afirma que não há estrutura suficiente para drenar todo o volume de dejetos gerado. O resultado é o acúmulo de fezes e urina no piso, o que fere o bem-estar dos animais.

Esse tipo de situação foi registrado em uma viagem que saiu do Rio Grande do Sul rumo ao Iraque, em 2024, com parada na África do Sul. Ao deixar a Cidade do Cabo, o navio foi descrito pelo jornal inglês The Guardian como tendo um “fedor inimaginável”. Representantes de um conselho sul-africano de combate à crueldade contra animais embarcaram e relataram encontrar bois mortos, doentes e cobertos de fezes, classificando o cenário como “abominável”.

A professora aponta ainda que alguns navios descartam resíduos diretamente no mar, gerando impacto ambiental, e que parte dos animais enfrenta dificuldades de adaptação ao novo ambiente, com problemas gastrointestinais, redução da alimentação e maior incidência de brigas e ferimentos por causa do espaço reduzido.

Setor alega cumprimento da lei; fiscalização tem limites

Do lado das exportadoras, Bueno afirma que as empresas seguem as normas vigentes.

Agora, se tem alguém que não fez [como na lei] ou se alguém fez algo diferente, isso em todas as atividades pode ser que tenha, mas é muito difícil. Lincoln Bueno, presidente da Abeg

Camargo, do Anffa Sindical, também sustenta que a fiscalização brasileira é rigorosa e que os navios que deixam o país estão em conformidade com a legislação.

Eu não posso garantir para você que todos os navios são excelentes. A gente ouve que há navios muito ruins, principalmente que operam na Ásia. A gente não tem um grande problema desses navios aportando aqui no país. Gisele Leite Camargo, Anffa Sindical

Como é feita a fiscalização do gado vivo

Mesmo pertencendo a empresas estrangeiras, os navios que embarcam gado no Brasil precisam obedecer às regras nacionais e às exigências dos países importadores.

Antes de serem levados ao porto, os animais passam por um Estabelecimento de Pré-Embarque (EPE), que funciona como uma fazenda de confinamento. Ali, o rebanho é examinado, vacinado e, se necessário, medicado, podendo permanecer em quarentena por até 30 dias, de acordo com as normas do país de destino. Animais doentes não podem seguir viagem.

O embarque só começa após a vistoria e aprovação do navio pelas autoridades brasileiras, justamente para evitar que o gado enfrente o estresse do transporte rodoviário até o porto sem a garantia de que haverá espaço e condições para seguir viagem.

Ao final do trajeto, os importadores são obrigados a apresentar relatórios aos órgãos locais e brasileiros, informando a duração da viagem e eventuais mortes ou doenças ocorridas a bordo.

Mesmo assim, a coordenação do Anffa ressalta que, depois de cruzar a linha de saída do território nacional, o Brasil deixa de ter poder de fiscalização direta sobre o que acontece com os animais ao longo da rota e no país de destino. Esse limite de atuação é um dos pontos sensíveis do debate sobre a continuidade da exportação de gado vivo em larga escala.

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