São Paulo registra queda de 25% em atendimentos por uso abusivo de álcool na rede pública
Caps AD somaram 7.900 atendimentos em 2023 e 5.907 no ano passado; especialistas apontam maior conscientização e mudança de comportamento, sobretudo entre jovens
19/02/2026 às 12:36por Redação Plox
19/02/2026 às 12:36
— por Redação Plox
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Nos últimos três anos, a cidade de São Paulo registrou queda de 25% nos atendimentos relacionados ao uso abusivo de álcool na rede pública de saúde mental. A redução acompanha um movimento mais amplo de conscientização sobre os impactos da bebida no organismo e a busca por hábitos de vida mais saudáveis.
Dados da Secretaria Municipal da Saúde (SMS) indicam que os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) da capital realizaram 7.900 atendimentos por uso abusivo de álcool em 2023, 6.626 em 2024 e 5.907 no ano passado. Esse comportamento também vem sendo observado em outras regiões do país e segue uma tendência internacional.
Capital paulista tem 35 Caps AD, que oferecem tratamento gratuito contra álcool e drogas — Foto: Divulgação/SMS
Foto: Prefeitura de São Paulo
Em entrevista ao podcast O Assunto, do g1, a socióloga Mariana Thibes, coordenadora do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), relacionou a mudança de hábitos entre jovens ao maior acesso à informação sobre riscos à saúde, à preocupação com a reputação nas redes sociais e à rejeição crescente à embriaguez, vista como sinal de fragilidade.
A capital paulista conta com 35 Caps AD, que oferecem tratamento gratuito para problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas.
ModeraSP oferece aconselhamento em saúde e acesso ao tratamento para pessoas com risco de dependência por álcool
Foto: Divulgação/Prefeitura de São Paulo
Jovens bebem menos e rejeitam a embriaguez
Segundo a análise de especialistas, a percepção sobre o consumo de álcool mudou entre gerações. Enquanto para muitos adultos mais velhos a embriaguez já foi associada a socialização e descontração, entre os mais jovens ela tende a ser vista como fator de risco, exposição e perda de controle.
Para as gerações anteriores, ficar embriagado ainda era visto como algo positivo, muito presente na sociabilidade. Para essa geração, ficar bêbado é visto como símbolo de vulnerabilidade, de você estar se expondo a situações de violência. Essa também é uma geração que frequenta muito mais academia, preocupada com o corpo, com a saúde, com a estética.
Mariana Thibes, socióloga
Uma pesquisa do Ipsos-Ipec, com dados de 2025, mostra que 64% dos brasileiros declararam não ter consumido álcool durante todo o ano. Em 2023, esse índice era de 55%. A queda é ainda mais marcante entre jovens de 18 a 24 anos: nessa faixa etária, a proporção dos que dizem não ter bebido subiu de 46% para 64%.
Redução do álcool traz benefícios rápidos ao organismo
O consumo de bebida alcoólica pode afetar o organismo mesmo quando restrito a situações consideradas “sociais”. Especialistas apontam que diminuir a ingestão, e não apenas interromper totalmente, já traz ganhos à saúde.
De acordo com o cirurgião gastrointestinal Lucas Nacif, a melhora é perceptível mesmo entre quem apenas reduz a frequência ou a quantidade de bebida.
O álcool causa lesões em vasos sanguíneos, danos cerebrais e problemas gastrointestinais. Quando há abstenção, o corpo rapidamente mostra sinais de recuperação.
Lucas Nacif, cirurgião gastrointestinal
O médico ressalta que até o consumo tido como social pode afetar os sistemas neurológico, cardiovascular e digestivo, com reflexos diretos na qualidade de vida.
Evitar a bebida previne gastrite, esofagite e até pancreatite. Além disso, o sono, o desempenho físico e o equilíbrio emocional melhoram bastante.
Lucas Nacif, cirurgião gastrointestinal
Mesmo reduções parciais no consumo já podem significar menos inflamações, melhor descanso noturno e mais disposição no dia a dia, segundo os especialistas.
Quando o consumo se torna um problema
O Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) define consumo abusivo como a ingestão de cinco ou mais doses de bebida alcoólica em uma única ocasião para homens, e quatro ou mais para mulheres, pelo menos uma vez no último mês.
A instituição alerta que a dependência não está ligada apenas à quantidade ingerida. Dificuldade em interromper o uso, sintomas físicos na abstinência, conflitos familiares ou profissionais e isolamento social são sinais de alerta.
Quando o consumo começa a trazer prejuízos à saúde, às relações ou ao trabalho, a orientação é buscar ajuda especializada.
Nesses casos, a recomendação é procurar os Caps AD, unidades do SUS voltadas ao tratamento de transtornos relacionados ao álcool e a outras drogas. Somente na capital paulista, existem 35 centros dedicados a esse atendimento.
O serviço nos Caps é gratuito, de livre demanda e não exige agendamento prévio. A unidade mais próxima pode ser localizada pela plataforma Busca Saúde.
Rede de apoio: Caps, AA e atenção básica
Além dos serviços públicos de saúde mental, o Alcoólicos Anônimos (AA) oferece apoio gratuito e complementar a quem enfrenta problemas com o álcool. Os grupos realizam reuniões presenciais e online baseadas em um programa de 12 passos, com foco na recuperação por meio do compartilhamento de experiências.
Há encontros em todas as regiões da cidade, com informações disponíveis no site oficial da entidade.
A Secretaria de Estado da Saúde (SES) informa que a porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) para a Rede de Atenção Psicossocial (Raps) é a Atenção Básica, por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBSs), administradas pelos municípios. Esses serviços são fortalecidos pela SES com cursos, palestras, eventos, apoio técnico em programas, projetos e ações.
Tecnologia como aliada na prevenção
Lançado em 2024, o ModeraSP já soma mais de 100 mil usuários cadastrados e mais de 35 mil triagens realizadas com base nas orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS).
A ferramenta, disponível no aplicativo e-saudeSP para Android e iOS, identifica o nível de risco do consumo de álcool e orienta o usuário com o acompanhamento de uma assistente virtual chamada Susana.
Nos casos mais graves, a plataforma já encaminhou 1.872 pessoas a Unidades Básicas de Saúde (UBSs) desde 2024, conectando o uso da tecnologia aos serviços presenciais do SUS.
Ao combinar informação, atendimento especializado, grupos de apoio e ferramentas digitais, a rede de cuidado busca reduzir danos e ampliar o acesso à prevenção e ao tratamento do consumo abusivo de álcool.