Luto prolongado pode alterar circuitos de recompensa do cérebro, aponta revisão
Estudos reunidos em artigo na Trends in Neurosciences associam o transtorno a mudanças em áreas como núcleo accumbens, amígdala e ínsula e a um ciclo de anseio, dor e hipervigilância
19/02/2026 às 10:10por Redação Plox
19/02/2026 às 10:10
— por Redação Plox
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Ninguém duvida da intensidade da dor que se segue à morte de alguém querido. Mesmo assim, na maior parte dos casos, a rotina é gradualmente retomada e o sofrimento perde força com o tempo. Para uma parcela das pessoas, porém, esse processo não acontece: a dor permanece praticamente intacta, configurando o transtorno do luto prolongado (TLP). Em uma revisão publicada na revista Trends in Neurosciences, pesquisadores analisaram o que já se sabe sobre a neurobiologia desse quadro e destacaram como alterações nas redes cerebrais de recompensa podem ajudar a explicar por que o luto se cristaliza em alguns indivíduos.
Imagem Ilustrativa
Foto: Freepik
O transtorno do luto prolongado tem sido associado a interrupções em circuitos ligados à recompensa no cérebro, um tipo de rede neural envolvida na motivação, na busca de prazer e na atribuição de valor às experiências.
O transtorno do luto prolongado é uma espécie de ‘novato’ nos diagnósticos psiquiátricos
Richard Bryant
Segundo o trabalho, a experiência central do TLP se parece muito com o luto considerado típico, incluindo uma saudade profunda e dor emocional. A diferença é que, em cerca de um em cada 20 enlutados, esses sentimentos não diminuem sequer seis meses após a perda. Nesses casos, é comum a percepção de que a vida perdeu o sentido e de que uma parte essencial da própria identidade deixou de existir.
O que a neurobiologia revela sobre o luto prolongado
Para investigar o transtorno, a equipe recorreu à neurobiologia, área que utiliza métodos como a neuroimagem para observar o cérebro em ação. Em estudos reunidos na revisão, pessoas enlutadas foram convidadas a recordar memórias ou manusear objetos do falecido durante exames de imagem. O TLP apareceu repetidamente ligado a alterações em circuitos de recompensa, envolvendo estruturas como o núcleo accumbens, o córtex orbitofrontal, a amígdala e a ínsula.
Recompensa que nunca chega: núcleo accumbens e córtex orbitofrontal
Localizado em uma região subcortical do cérebro, o núcleo accumbens é conhecido por liberar dopamina quando antecipamos ou recebemos uma recompensa, como comida, dinheiro ou interação social. Nos casos de luto prolongado, essa estrutura continua a ser fortemente ativada quando a pessoa vê fotos ou se lembra do falecido.
Esse padrão mantém um estado de intenso anseio por uma “recompensa” — a presença do outro — que não pode mais ser obtida. O resultado é um ciclo de dor e desejo irrealizável, que dificulta a adaptação à perda.
Já o córtex orbitofrontal (COF), situado logo acima dos olhos, participa da tomada de decisões com base no valor que atribuímos a pessoas, objetos e situações. Ele ajuda o cérebro a atualizar o comportamento quando as recompensas mudam ou deixam de existir. Quando essa atualização falha no TLP, o COF pode reforçar a sensação de que aquela pessoa ainda deveria estar disponível, alimentando a ideia de que a existência perdeu o sentido.
Alerta constante: amígdala em hipervigilância
A amígdala, pequena estrutura em forma de amêndoa, integra o centro de resposta de “lutar ou fugir” e seleciona o que deve ser registrado como crucial para a sobrevivência. Em indivíduos com transtorno de luto prolongado, ela tende a permanecer em estado de hipervigilância.
Nessa condição, a perda de um vínculo afetivo passa a ser interpretada como uma ameaça biológica grave, o que ajuda a explicar quadros persistentes de ansiedade, sensação de perigo iminente e grande dificuldade de relaxar.
Quando a saudade dói no corpo: o papel da ínsula
A ínsula tem função central na interocepção, isto é, na capacidade do sistema nervoso de perceber sinais internos do corpo, como batimentos cardíacos, tensão muscular ou vazio no estômago. Em estudos com pessoas em luto prolongado, a visualização de uma foto do ente querido aciona a ínsula de forma semelhante ao que ocorre diante de um ferimento real.
Esse padrão sugere que, no TLP, a saudade é frequentemente traduzida em dor física, com o cérebro interpretando a ausência como se fosse um dano concreto ao corpo.
Semelhanças com depressão e estresse pós-traumático
Os pesquisadores observam que alguns dos padrões neurais descritos não são exclusivos do transtorno de luto prolongado. Alterações parecidas aparecem em quadros de depressão e de transtorno de estresse pós-traumático, que compartilham características como ruminação — um fluxo de pensamentos repetitivo e difícil de interromper — e sofrimento emocional intenso.
Para os autores, essa sobreposição não é surpreendente e reforça a ideia de que parte dos mecanismos de sofrimento psíquico é comum a diferentes transtornos, o que abre caminho para abordagens terapêuticas potencialmente eficazes em mais de um diagnóstico.