Após encontro com Lula, Bolívia se reaproxima dos EUA e aumenta pressão por enquadrar PCC e CV como terroristas

Agenda boliviana de combate ao “narcoterrorismo” com Washington reacende debate no Brasil, onde o governo Lula discorda da classificação e juristas alertam para riscos legais e políticos

19/03/2026 às 16:12 por Redação Plox

A reaproximação diplomática entre Bolívia e Estados Unidos, em torno de uma agenda regional rotulada por autoridades americanas como de combate ao “narcoterrorismo”, reacende um ponto sensível para o Brasil: a pressão externa para que facções como PCC e Comando Vermelho (CV) sejam enquadradas como organizações terroristas.

Foto: Marcelo Camargo/ABr


Nos documentos e registros disponíveis até o momento, não há confirmação de que a Bolívia tenha decidido, de forma explícita, se alinhar aos EUA para classificar PCC e CV como terroristas após encontro com o presidente Lula. O que se observa de forma documentada é a mudança de orientação externa do governo boliviano e o aumento da pressão norte-americana sobre o tema, acompanhados de reação por parte do governo brasileiro. A informação de que La Paz teria adotado, “ao lado dos EUA”, o enquadramento das facções brasileiras como terroristas segue, portanto, ainda em apuração, especialmente quanto ao fato específico e ao momento em que isso teria ocorrido.

Bolívia muda de rota e busca reaproximação com Washington

Sob a liderança do presidente Rodrigo Paz Pereira, a Bolívia vem sinalizando um descongelamento nas relações com Washington após anos de distanciamento. Relatos da imprensa internacional descrevem esse movimento como parte de uma reabertura diplomática e de uma tentativa de obter apoio externo diante de dificuldades econômicas e de desafios na área de segurança.

Esse realinhamento ocorre em um contexto em que, nos Estados Unidos, órgãos do governo discutem medidas para designar PCC e CV em categorias ligadas ao terrorismo no marco legal americano. Essa possibilidade gerou preocupação dentro do governo Lula, diante do risco de impacto político, jurídico e diplomático para o Brasil.

No cenário interno brasileiro, o tema ganhou tração. Integrantes do Executivo defendem que a legislação nacional não enquadra facções criminosas como terrorismo, enquanto juristas apontam riscos constitucionais e temem o uso político do rótulo de “terrorista” em disputas domésticas.

Posições oficiais e lacunas de confirmação

Pelo lado brasileiro, reportagens registram uma posição de discordância em relação à proposta de classificar PCC e CV como organizações terroristas nos termos defendidos por setores do governo americano. A justificativa central apresentada por autoridades brasileiras se apoia no conceito legal de terrorismo vigente no país, que não abarca automaticamente facções criminosas.

Do lado boliviano, há sinais claros de aproximação com os EUA e de engajamento em discussões regionais sobre combate ao chamado “narcoterrorismo”, em encontros e acordos relatados pela imprensa local. Porém, nas fontes abertas consultadas, não foi identificada nota oficial, ato normativo ou declaração pública do governo boliviano que cite explicitamente PCC e CV como “terroristas”.

Pressão externa e debate sobre soberania

Se Washington avançar em designações formais de terrorismo envolvendo facções brasileiras, o Brasil tende a enfrentar maior pressão em fóruns bilaterais e regionais. Esse movimento pode ampliar tensões diplomáticas, gerar ruído político interno e testar a capacidade do país de sustentar sua própria interpretação jurídica sobre o tema.

A Bolívia, por sua posição geográfica e por ser rota recorrente do narcotráfico na América do Sul, aparece com frequência em reportagens sobre presença e logística associada ao PCC. Uma eventual mudança concreta na postura boliviana, alinhando-se a instrumentos americanos de “narcoterrorismo”, pode alterar o desenho da cooperação policial, das operações de fronteira e dos mecanismos de troca de informações com o Brasil.

Ao mesmo tempo, especialistas citados pela imprensa alertam que importar o rótulo de “terrorismo” para enquadrar facções criminosas teria efeitos profundos no ordenamento jurídico brasileiro. Entre os pontos sensíveis estão disputas constitucionais, reinterpretações legais e possíveis impactos sobre investigação, punição e cooperação internacional.

Pendências de apuração e próximos movimentos

Entre os próximos passos, a checagem documental é considerada crucial. Segue em aberto a verificação de eventual declaração formal do governo boliviano, ato normativo interno, fala de chanceler ou ministro, ou ainda compromisso em documentos bilaterais ou multilaterais que mencionem expressamente PCC e CV como “terroristas”. Até o momento, segundo as fontes consultadas, esse ponto ainda não foi confirmado.

Também permanece no radar a necessidade de monitorar eventuais notas oficiais do Itamaraty e do Planalto sobre a evolução da postura boliviana e sobre conversas com Washington. Em paralelo, a agenda regional de segurança, impulsionada por iniciativas americanas e por encontros hemisféricos, tende a manter em alta a linguagem de “narcoterrorismo” e a pressionar países vizinhos, como o Brasil, a aderir ou responder a novas classificações e instrumentos legais.

Nesse contexto, o eixo da disputa passa a ser não apenas operacional, mas político e jurídico: como o Brasil vai se posicionar diante de uma Bolívia que se aproxima dos EUA e reforça o discurso “antinarcoterrorismo”, enquanto Brasília resiste a enquadrar PCC e CV como terroristas em sua própria legislação.

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