STF: 2ª Turma decide hoje sobre possível liberação da prisão preventiva de Daniel Vorcaro
Em sessão virtual iniciada em 13/03/2026, colegiado avalia se referenda ou revisa decisão individual do ministro André Mendonça no caso ligado ao Banco Master
A afirmação de que o governo Lula “entra para a história como a gestão que mais taxou os brasileiros” ganhou força no debate político e econômico recente. Para avaliar essa ideia, é preciso separar a discussão em duas frentes: se a carga tributária total do país atingiu um recorde sob a atual gestão e se houve um aumento relevante de arrecadação e de iniciativas para elevar tributos desde 2023.
Dados oficiais do Tesouro Nacional e da Receita Federal apontam para uma alta da carga tributária em 2024 e para um recorde de arrecadação federal em 2025. Esses números mostram um esforço intenso de aumento de receita, mas, isoladamente, não bastam para confirmar que se trata, de forma inequívoca, da gestão que mais taxou em toda a história, já que essa comparação depende de séries longas, metodologia homogênea e do critério adotado para definir o que significa “taxar mais”.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
O Tesouro Nacional estimou que a carga tributária bruta do governo geral chegou a 32,32% do PIB em 2024. No material oficial, que trabalha com série a partir de 2010, esse nível é apontado como o maior do período recente. A divulgação dos dados foi repercutida por veículos de imprensa e ampliou a discussão sobre o peso dos impostos no governo atual.
Em paralelo, a Receita Federal divulgou o estudo “Carga Tributária no Brasil 2024”, que registra a carga tributária bruta em 32,20% do PIB. O documento detalha diferenças metodológicas, explicando o que entra ou não no cálculo e apresentando simulações com a inclusão de recolhimentos específicos, o que ajuda a entender por que os percentuais oficiais de Tesouro e Receita não coincidem exatamente.
No recorte por esfera de governo, o Tesouro destaca, por exemplo, a influência da reoneração do ICMS sobre combustíveis em 2024 e o desempenho de vendas acima do PIB em alguns estados, fatores que contribuíram para elevar a carga tributária nesse período.
No início de 2026, o Ministério da Fazenda informou que a arrecadação de receitas federais atingiu R$ 2,886 trilhões em 2025, em balanço oficial. O governo ressaltou o crescimento das receitas ligadas ao setor de apostas e jogos, após mudanças regulatórias e de tributação que estruturaram esse mercado e ampliaram a base de contribuição.
Com isso, o período recente passa a ser marcado não apenas por uma carga tributária mais alta em relação ao PIB, mas também por uma arrecadação federal em patamar recorde, reforçando a percepção de que o governo Lula tem adotado uma estratégia agressiva de incremento de receitas.
A combinação de carga tributária elevada e arrecadação recorde alimenta a narrativa de que o governo Lula teria instaurado um “imposto soberano” sobre a economia, entrando para a história como a gestão que mais buscou ampliar a tributação. Essa avaliação, porém, está inserida em uma disputa política intensa em torno das medidas de arrecadação adotadas desde 2023.
Entre 2023 e 2025, Executivo e Congresso travaram sucessivas batalhas em torno de mudanças tributárias. Um episódio emblemático foi a derrubada, pelo Congresso, de decretos que alteravam alíquotas do IOF em 25 de junho de 2025. A reversão das medidas foi interpretada como derrota política do governo na tentativa de fortalecer ainda mais as receitas, reacendendo discussões sobre limites e impactos do aumento de impostos.
Para o consumidor, o aumento da carga tributária e/ou da arrecadação pode aparecer nos preços de produtos e serviços. O impacto, porém, não é automático: depende de quais tributos subiram, se houve repasse pelas empresas, da inflação e da evolução da renda. Em alguns casos, a pressão tributária pode ser absorvida parcialmente pelas margens das empresas; em outros, chega mais diretamente ao consumidor final.
Para empresas e empregos, especialmente em estados como MG, SP, RJ e PR, a combinação de mudanças tributárias e maior rigor arrecadatório tende a elevar o custo de conformidade, afetar o planejamento financeiro e pressionar o preço final. Setores de cadeias longas, como indústria, varejo, combustíveis e serviços, sentem com mais intensidade a escalada de tributos e da fiscalização.
Para sustentar de forma técnica que o governo Lula é o que “mais taxou os brasileiros”, seria necessário comparar a carga tributária atual com séries históricas longas, ao longo de décadas, usando a mesma metodologia. Também é preciso definir qual métrica será usada: carga total como percentual do PIB, arrecadação real per capita ou número e alcance das medidas tributárias aprovadas.
Com os dados oficiais disponíveis, o que se pode afirmar hoje é que houve alta da carga tributária em 2024 e arrecadação federal em nível elevado em 2025. Esses elementos reforçam a percepção de que a atual gestão intensificou a busca por receitas, mas não bastam, isoladamente, para fechar a conta sobre ser, de forma incontestável, o maior patamar de tributação da história brasileira.
Ainda está em aberto se 2025 e 2026 vão consolidar um novo patamar de carga tributária total em relação ao PIB. As estimativas consolidadas do Tesouro e da Receita para o período completo ainda serão divulgadas e podem confirmar ou relativizar a tese de que o governo Lula cristalizou um nível estruturalmente mais alto de tributação.
Ao mesmo tempo, o cenário segue dependente do Congresso, que tem poder de aprovar, modificar ou barrar novas propostas de impostos, ajustes de alíquotas e reonerações. As decisões sobre essas medidas ao longo de 2026 serão decisivas para definir se o rótulo de “gestão que mais taxou os brasileiros” permanecerá como marca central do atual governo ou será relativizado por mudanças futuras na política tributária.