STF: 2ª Turma decide hoje sobre possível liberação da prisão preventiva de Daniel Vorcaro
Em sessão virtual iniciada em 13/03/2026, colegiado avalia se referenda ou revisa decisão individual do ministro André Mendonça no caso ligado ao Banco Master
A perícia realizada pela Corregedoria da Polícia Militar concluiu que a soldado Gisele Alves Santana, de 1,65 metro de altura, não tinha condições físicas de alcançar a pistola que, segundo o marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, ficava guardada sobre o guarda-roupa no quarto do casal.
O laudo do Instituto de Criminalística apontou que, mesmo esticada na ponta dos pés, Gisele alcançaria cerca de 1,73 metro, medida inferior aos 1,96 metro da base onde a arma permanecia apoiada. O móvel tem altura total de 2,04 metros. A conclusão contraria frontalmente a versão apresentada pelo oficial, que sustenta que a esposa retirou a arma do armário antes do disparo.
Laudo indica que altura onde pistola ficava era incompatível com alcance da vítima; Gisele tinha 1,65 metro de altura, e o guarda-roupa, 2,04 metros.
Foto: Reprodução / TV Globo.
A soldado foi encontrada em 18 de fevereiro caída na sala do apartamento onde vivia com o marido, na região central de São Paulo, com um tiro na cabeça. Ela chegou a ser socorrida, mas teve a morte confirmada no hospital.
Na reprodução simulada feita no apartamento, o tenente-coronel relatou que, na manhã do crime, comunicou a intenção de se separar. Segundo seu relato, houve discussão, Gisele o empurrou para fora do quarto e fechou a porta. Em seguida, ele diz ter ido tomar banho e, cerca de um minuto depois, ouvido um barulho alto que teria associado a uma porta batendo. Ao abrir parcialmente a porta do banheiro, afirmou ter visto a esposa já caída na sala, com sangramento na cabeça.
O oficial foi preso nesta quarta-feira (18), depois que a Justiça Militar decretou sua prisão preventiva, sob acusação de feminicídio e fraude processual. A Corregedoria da PM cumpriu a ordem em São José dos Campos, no interior paulista, por volta das 8h17.
Tenente-coronel, preso nesta quarta, sustenta que esposa pegou a arma antes do disparo.
Foto: Reprodução / TV Globo.
A defesa do tenente-coronel contestou a decisão e argumentou, em nota, que a Justiça Militar não teria competência para analisar o caso nem para decretar medidas cautelares. O advogado afirma que vai suscitar conflito de competência com a Justiça comum. O pedido de prisão preventiva havia sido apresentado pelo Ministério Público e pela Polícia Civil e foi aceito pelo Judiciário.
Como se trata de crime doloso contra a vida, a tendência é que o processo tramite apenas na Justiça comum. Nesse cenário, o tenente-coronel poderá ser julgado pelo Tribunal do Júri, onde sete jurados definem condenação ou absolvição. A Promotoria também pediu que, em eventual condenação, seja fixada indenização mínima de R$ 100 mil aos familiares de Gisele.
A Corregedoria da Polícia Militar obteve, a partir do celular do tenente-coronel, trocas de mensagens entre o casal. Nos diálogos divulgados pelo SP1, da TV Globo, Gisele relata episódios de humilhação, piadas e um comportamento que ela classificava como “babaca” por parte do marido, inclusive no ambiente de trabalho, onde ele costumava ir ao setor em que ela atuava e permanecer por horas observando-a.
Em uma das mensagens, a soldado reclama do tratamento recebido e condiciona a continuidade da relação a uma mudança de postura. Ela menciona humilhações, provocações e agressividade, além de se referir a atitudes que considerava estúpidas, ignorantes, intolerantes e sem escrúpulos. Em outro trecho, protesta contra piadas, xingamentos e insinuações sobre sua vida profissional e afetiva.
A Corregedoria da Polícia Militar conseguiu extrair do celular do tenente-coronel trocas de mensagens entre ele e Gisele.
Foto: Reprodução / TV Globo.
Segundo a investigação, o próprio tenente-coronel enviou mensagens com declarações de teor machista, afirmando, por exemplo, que lugar de mulher seria em casa, cuidando do marido, e não na rua.
Para a Corregedoria da PM, os diálogos revelam uma dinâmica de relacionamento baseada em submissão, controle e violência psicológica, com constrangimentos e tentativas de desqualificar a autonomia da soldado, em um ambiente descrito como tenso e potencialmente violento já antes da morte.
O Tribunal de Justiça Militar informou, em nota, que a prisão preventiva foi decretada com base na garantia da ordem pública, na conveniência da instrução criminal e na preservação da hierarquia e disciplina militares. A decisão menciona risco de interferência nas investigações, inclusive pela possibilidade de influência sobre testemunhas, e autoriza apreensão de celulares, quebra de sigilo de dados eletrônicos e compartilhamento de provas com a Polícia Civil, que conduz inquérito paralelo.
O juiz responsável determinou ainda que o tenente-coronel seja submetido à audiência de custódia e que as apurações continuem até completo esclarecimento dos fatos. De acordo com a Secretaria da Segurança Pública, o oficial seria inicialmente levado ao 8º Distrito Policial, no Brás, onde é investigado pelo assassinato da esposa, para interrogatório e exames de corpo de delito, e depois transferido ao Presídio Militar Romão Gomes. A pasta informou que o Inquérito Policial Militar será concluído nos próximos dias.
A versão de que Gisele teria se suicidado após uma discussão começou a ruir com o avanço das investigações da Polícia Civil e a chegada de sucessivos laudos periciais ao inquérito. Ao todo, foram produzidos 24 documentos técnico-científicos, vários refeitos a pedido dos investigadores diante de dúvidas sobre as circunstâncias da morte.
Em 18 de fevereiro, Gisele foi encontrada caída no chão, com um tiro na cabeça, na sala do apartamento em que vivia com o marido no Centro de São Paulo.
Foto: Reprodução / Redes Sociais.
Entre os laudos considerados determinantes estão o que analisa a trajetória do projétil e o que detalha a profundidade dos ferimentos. Exames necroscópico, de exumação e toxicológico reforçaram a conclusão de que a soldado foi morta por ciúmes e possessividade. O necroscópico apontou marcas de dedos no pescoço e indicou que ela desmaiou antes de levar o tiro na cabeça. A trajetória do disparo foi descrita como de baixo para cima, com o cano encostado na cabeça. O exame toxicológico não encontrou traços de álcool ou drogas, afastando a hipótese de que estivesse alcoolizada ou dopada.
O laudo residuográfico não detectou pólvora nas mãos de Gisele nem nas de Geraldo. Já o exame de local de crime registrou que a vítima foi encontrada caída, ainda segurando a arma, situação considerada incomum em casos de suicídio, cenário em que, segundo peritos, seria mais provável que a arma caísse ao chão.
Outros pontos reforçaram as suspeitas contra o tenente-coronel: o intervalo de 29 minutos entre o momento em que uma vizinha ouviu o disparo e o telefonema dele para a PM pedindo socorro; o fato de ter sido encontrado com o corpo seco, apesar de afirmar que havia tomado banho antes do tiro; a ida de um desembargador ao apartamento antes de o oficial decidir se banhar, contrariando orientação de policiais presentes; e a detecção de sangue de Gisele no box do banheiro e em outros cômodos, identificada com o uso de luminol.
Após a perícia, três policiais militares mulheres foram ao imóvel limpar o local. A conduta levou a Corregedoria a abrir apuração também por abuso de autoridade, já que o coronel havia pedido afastamento da corporação depois da morte da esposa. Exames sexológicos apontaram que Gisele não estava grávida. A reprodução simulada, com registro fotográfico das versões do tenente-coronel e de testemunhas, ainda estava em finalização, segundo os investigadores.