STF: 2ª Turma decide hoje sobre possível liberação da prisão preventiva de Daniel Vorcaro
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Finalizado um mês após o crime, o inquérito da Polícia Civil sobre a morte da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana aponta quatro principais contradições na versão apresentada pelo tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, preso em 18 de março, além de outras inconsistências entre o depoimento do oficial e os elementos técnicos reunidos pela perícia.
A soldado Gisele, de 32 anos, foi encontrada morta com um tiro na cabeça em 18 de fevereiro, dentro do apartamento onde vivia com o marido, na região central de São Paulo. O inquérito embasou a prisão do tenente-coronel, que passou a ser tratado como principal suspeito de feminicídio.
Preso pela morte da PM Gisele Santana, coronel Geraldo Neto mostrou contradições sobre posição da arma, do corpo, e sangue na cena do crime
Foto: Reprodução
O primeiro ponto levantado pela investigação envolve a posição de uma árvore de Natal na sala do apartamento. O oficial afirmou que o objeto teria sido removido do local onde estava antes de ele entrar no banheiro, chegando a sugerir que Gisele poderia tê-la deslocado.
Fotos registradas pelos primeiros socorristas, porém, mostram a árvore exatamente no mesmo lugar descrito inicialmente, ao lado do sofá. O laudo pericial conclui que o objeto só foi retirado depois, durante o atendimento, para abrir espaço.
Para os peritos, a divergência não é um mero detalhe. O tenente-coronel disse que estava tomando banho no momento do disparo e que abriu a porta para ver o que havia ocorrido. A posição da árvore, entretanto, dificultaria a visão da cena a partir do banheiro, o que coloca em dúvida a versão apresentada por ele. O Metrópoles teve acesso ao documento e detalhou os principais pontos que colocaram em dúvida o relato do militar.
Outro ponto central diz respeito à arma usada no disparo. Em momentos distintos, o tenente-coronel deu versões diferentes: primeiro, disse que Gisele estava com a arma nas mãos; depois, afirmou que o objeto estava caído no chão.
Imagens e relatos dos socorristas indicam, no entanto, que a pistola permanecia na mão da vítima quando a equipe chegou ao local. A perícia ressalta que, em disparos na cabeça, é considerado extremamente improvável que a pessoa mantenha a arma firmemente empunhada após o impacto, em razão do relaxamento muscular imediato.
Para os investigadores, a mudança de versão sobre esse ponto é relevante, já que a posição da arma é um dos elementos mais importantes para diferenciar um suicídio de um homicídio.
A análise das manchas de sangue é apontada pelo inquérito como uma das evidências mais fortes. De acordo com o laudo, o padrão de escorrimento indica que o sangue escoou enquanto a vítima ainda estava em posição vertical ou semivertical.
Essa informação é incompatível com a posição em que o corpo foi encontrado, já caído no chão. Segundo os peritos, se as manchas se formaram enquanto Gisele ainda estava em pé ou próxima da vertical, ela não poderia ter caído sozinha e, ao mesmo tempo, produzido a trajetória observada no corpo.
Diante disso, a conclusão técnica é de que o corpo foi movido após o disparo e reposicionado no local por outra pessoa. O tenente-coronel, entretanto, afirmou que ninguém teria tocado em Gisele antes da chegada do socorro. Para a perícia, há indícios de alteração da cena, o que reforça a suspeita de fraude processual.
O quarto ponto destacado pela investigação envolve vestígios de sangue encontrados no banheiro usado pelo investigado. Exames identificaram marcas nos registros de água, paredes, chão do box, além da bermuda e de uma toalha.
Segundo o laudo, o tipo de mancha é decisivo: o sangue na roupa apresenta características de gotejamento, isto é, caiu diretamente sobre o tecido, gota a gota, e não foi espalhado por contato ou limpeza. Isso indica que o investigado estava próximo à vítima enquanto ela ainda sangrava.
Para os especialistas, se o sangue tivesse sido transferido por toque ou atrito, as marcas seriam diferentes, com sinais de arrasto ou pressão, o que não foi identificado. A forma das manchas sugere que o oficial estava parado ou muito perto de Gisele durante o sangramento.
Essa dinâmica exige a presença física do investigado no raio imediato do corpo da vítima durante o sangramento ativo, condição absolutamente incompatível com sua versão de que não manteve qualquer tipo de contato com a vítima. O gotejamento não mente: ele documenta
delegado Lucas de Souza Lopes, do 8º Distrito Policial
Essa dinâmica contradiz a versão apresentada pelo tenente-coronel, que diz ter permanecido no banheiro sem contato com a vítima. Além disso, a presença de sangue dentro do box reforça a suspeita de que ele teria entrado no local já com vestígios e tomado banho antes da chegada do socorro.
A soldado Gisele Alves Santana foi encontrada gravemente ferida na manhã de 18 de fevereiro, no apartamento onde vivia com o marido no Brás, região central de São Paulo. Ela foi socorrida por equipes do Corpo de Bombeiros e levada pelo helicóptero Águia da PM ao Hospital das Clínicas, onde morreu horas depois, em decorrência de traumatismo cranioencefálico provocado por disparo de arma de fogo, conforme o atestado de óbito.
O caso foi inicialmente tratado como suicídio consumado, mas, diante das contradições técnicas e do avanço das análises periciais e da reconstituição dos fatos dentro do imóvel, a classificação passou a ser de morte suspeita, com “dúvida razoável” de tratar-se de suicídio.
Com base nesse conjunto de elementos, a Polícia Civil concluiu que a dinâmica do disparo não correspondia à hipótese inicialmente apresentada. A corporação solicitou à Justiça, em 17 de março, a prisão preventiva do tenente-coronel, apontado como principal suspeito pela morte da esposa.
A Justiça Militar do Estado de São Paulo decretou a prisão preventiva do oficial em 18 de março. Ele foi detido no mesmo dia em um condomínio residencial em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, e conduzido ao Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte da capital paulista.
O habeas corpus apresentado pela defesa deve ser analisado pela Justiça, assim como a audiência de custódia por videoconferência, que poderá definir se o tenente-coronel permanecerá detido ou responderá ao processo em liberdade.