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O uso recreativo de drogas ilícitas pode mais do que dobrar o risco de Acidente Vascular Cerebral (AVC), segundo uma ampla revisão de estudos conduzida por pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. A análise aponta que anfetaminas, cocaína e cannabis estão ligadas a um aumento significativo na probabilidade de sofrer um evento cerebrovascular, reforçando o alerta para a saúde pública.
Uso de anfetamina é o que traz mais risco de AVC.
Foto: Freepik
Para investigar a relação entre drogas ilícitas e AVC, a equipe de Cambridge realizou uma meta-análise com dados de 32 pesquisas, somando mais de 100 milhões de participantes. Os resultados foram publicados no International Journal of Stroke, periódico ligado à World Stroke Organization (WSO).
Os pesquisadores avaliaram o risco relativo de AVC associado ao uso de diferentes substâncias ilícitas. Os achados mostram aumentos expressivos:
Anfetaminas apareceram como a droga associada ao maior risco, com um aumento de 122% na chance de AVC, o que significa que o risco mais do que dobra em comparação com quem não utiliza esse tipo de substância.
No caso da cocaína, o estudo apontou um aumento de 96% no risco, valor que praticamente dobra a probabilidade de um evento cerebrovascular.
Já a cannabis também foi relacionada a maior risco de AVC, embora em menor magnitude. Na comunicação da Universidade de Cambridge, o aumento estimado ficou em torno de 37%.
Além de revisar estudos observacionais, o grupo utilizou a técnica de randomização mendeliana, que se baseia em variações genéticas naturalmente presentes na população e associadas ao uso ou dependência de drogas. Essa abordagem ajuda a avaliar se há evidências de uma relação causal entre a exposição às substâncias ilícitas e a ocorrência de AVC.
Combinando os dados dos estudos, os pesquisadores apontaram possíveis mecanismos biológicos que podem explicar a ligação entre cada droga e o risco aumentado de AVC.
No caso da cannabis, foram descritos efeitos como constrição dos vasos cerebrais, comprometimento da função vasomotora no cérebro, flutuação da pressão arterial e maior formação de coágulos sanguíneos. Esses fatores contribuem para o risco de obstruções em grandes artérias cerebrais.
A cocaína foi associada a elevações súbitas da pressão arterial e a episódios de vasoespasmo, em que há contração intensa dos vasos sanguíneos. Esses efeitos favorecem, entre outros quadros, os chamados AVCs cardioembólicos, quando um coágulo se forma no coração e migra para o cérebro.
Já as anfetaminas estiveram ligadas a elevações agudas da pressão arterial, vasoconstrição cerebral e arritmias. De acordo com a análise, o uso dessas substâncias mostra maior associação com AVCs hemorrágicos, caracterizados pelo rompimento de um vaso sanguíneo no cérebro, embora o risco aumente para todos os tipos de AVC.
Os dados indicam, portanto, que diferentes drogas ilícitas se relacionam a mecanismos distintos e a tipos específicos de AVC, o que reforça a complexidade do impacto dessas substâncias no sistema cerebrovascular.
No comunicado institucional sobre o trabalho, a Universidade de Cambridge destaca que se trata da análise mais abrangente já feita sobre o vínculo entre drogas recreativas e AVC, e ressalta que o uso de substâncias ilícitas é um fator de risco prevenível para o evento cerebrovascular. O material também chama atenção para a possível baixa percepção desse risco, especialmente entre pessoas mais jovens.
Em alinhamento com esse cenário, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já inclui o uso de drogas ilícitas, como a cocaína, entre os fatores que aumentam a probabilidade de um AVC, ao lado de condições como hipertensão, diabetes, colesterol elevado, obesidade, sedentarismo e uso nocivo de álcool.
Para os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de considerar o consumo de substâncias ilícitas na avaliação de risco de AVC e em estratégias voltadas à prevenção.
Os achados da revisão têm implicações diretas para políticas de prevenção e para o debate público. De um lado, apontam que o uso recreativo de drogas ilícitas não se restringe a riscos crônicos ou distantes, mas pode estar ligado a eventos agudos graves, como AVC, inclusive em faixas etárias mais jovens.
Para o público em geral, a mensagem central é de caráter preventivo: se o consumo de drogas já traz uma série de danos potenciais, as evidências agora reforçam a ligação com eventos cerebrovasculares graves, que podem resultar em morte ou incapacidades permanentes.
No âmbito familiar e escolar, os dados podem servir de base para conversas mais objetivas sobre consequências imediatas do uso de substâncias, indo além da noção de “risco futuro” e reforçando que AVC é uma urgência médica.
Em países como o Brasil, onde o AVC segue como uma das principais causas de morte, a associação entre drogas ilícitas e risco cerebrovascular acrescenta uma camada importante ao debate sobre prevenção, políticas de redução de danos e campanhas educativas.
O Acidente Vascular Cerebral é reconhecido como uma das maiores urgências médicas globais. Ocorre quando há uma obstrução total ou parcial dos vasos sanguíneos no cérebro ou o rompimento de um vaso, interrompendo o fluxo sanguíneo e levando à morte de células cerebrais.
Existem dois principais tipos de AVC:
Isquêmico, responsável por cerca de 85% dos casos, acontece quando um vaso sanguíneo que leva sangue ao cérebro é entupido, levando a um bloqueio parcial da irrigação. Costuma estar ligado à pressão alta e doenças cardíacas.
Hemorrágico, mais raro (em torno de 15% dos episódios), ocorre quando há rompimento de um vaso sanguíneo, causando sangramento no tecido cerebral. Apesar de menos frequente, é considerado mais grave, com maior risco de sequelas e morte.
Entre as principais sequelas deixadas pelo AVC estão fraqueza ou dificuldade para se movimentar, rigidez muscular, problemas na fala, alterações de memória e raciocínio, além de mudanças emocionais significativas.
Na prática clínica, um ponto central é o tempo de resposta. Diante de sinais como fraqueza em um lado do corpo, alteração súbita na fala, assimetria facial, confusão ou perda visual repentina, a orientação é buscar atendimento de urgência imediatamente. O rápido acesso a cuidados especializados é decisivo para reduzir danos ao cérebro e a gravidade das sequelas.
Os autores da revisão destacam que os resultados reforçam a importância de incluir a avaliação do uso de substâncias ilícitas nas investigações de risco de AVC e em protocolos de atendimento, assim como em ações de saúde pública voltadas a reduzir o abuso de drogas como estratégia de prevenção de eventos cerebrovasculares.