TCDF cobra explicações do BRB por contrato de R$ 58,3 milhões para sala VIP no aeroporto de Brasília
Acordo prevê três anos de acesso gratuito a clientes do BRB Card e foi questionado em meio à crise ligada à compra de “papéis podres” do Banco Master, investigada pela PF
19/04/2026 às 12:00por Redação Plox
19/04/2026 às 12:00
— por Redação Plox
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Investigadores voltaram a olhar para a política de patrocínios do Banco de Brasília (BRB) após a instituição pública firmar um contrato de R$ 58,3 milhões, com vigência de três anos, para oferecer acesso gratuito a uma sala VIP no Aeroporto Internacional de Brasília a determinados clientes do BRB Card.
O acordo passou a valer em 1º de março, quando já era conhecida a grave crise financeira do banco, atribuída ao rombo provocado pela compra de “papéis podres” do Banco Master — negócio investigado pela Polícia Federal (PF). A estimativa citada no caso é de que o BRB precise de ao menos R$ 8 bilhões para cobrir os prejuízos.
Sala VIP do aeroporto de Brasília: BRB firmou contrato de R$ 58,3 milhões, com vigência de três anos, para determinados clientes acessarem o espaço de forma gratuita
Foto: /BRB Card
TCDF pede explicações sobre contrato da sala VIP
Agora, o Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) quer esclarecimentos sobre o contrato ligado à sala VIP. Do valor total, R$ 29,1 milhões seriam repassados pelo BRB e R$ 29,1 milhões pela BRB Card. O banco tem até a próxima quarta-feira (22/4) para apresentar resposta e documentação solicitada.
O TCDF atendeu parcialmente a um pedido do deputado distrital Ricardo Vale (PT), que solicitava a suspensão do contrato e a abertura de auditoria para apurar outros patrocínios do BRB desde 2019, incluindo o contrato com o Flamengo, renovado recentemente, com repasse de R$ 42,6 milhões até março de 2027.
Relator do processo, o conselheiro Márcio Michel apontou a necessidade de reunir mais informações antes de interromper o contrato da sala VIP. BRB e BRB Card deverão apresentar documentos e dados sobre motivação do acordo, estudos de viabilidade, retorno institucional e a compatibilidade da despesa com a situação financeira da instituição.
O acesso à sala VIP é destinado a clientes com um cartão específico e que cumpram o gasto mínimo previsto nas regras. O espaço funciona 24 horas e fica na praça de alimentação do aeroporto, que também conta com outras salas VIP em diferentes pontos.
Patrocínios do BRB cresceram durante o governo Ibaneis
O texto aponta que, ao longo de mais de sete anos de Ibaneis Rocha (MDB) à frente do Governo do Distrito Federal (2019-2026), o BRB teria ampliado em 14 vezes o gasto com eventos e apoios comerciais. Em 2025, o banco reservou R$ 125,8 milhões para essa finalidade, enquanto uma década antes gastava anualmente R$ 1 milhão com patrocínios.
A inflexão teria começado em 2019: no primeiro ano do governo Ibaneis, a despesa foi de R$ 7,2 milhões, com aceleração nos anos seguintes. Parte relevante dos valores, segundo o texto, foi direcionada ao Flamengo.
Contrato com o Flamengo e mudanças no modelo
O BRB patrocina o Flamengo desde 2020. No pedido apresentado ao TCDF, Ricardo Vale menciona alterações no modelo do contrato, que teria deixado de priorizar a marca BRB para promover o banco digital Nação BRB Fla, além de citar exigências financeiras do clube, como pagamento antecipado de parte dos valores.
O texto também informa que, em 2020, o banco fechou contrato com o Flamengo e passou a repassar R$ 32 milhões anuais. O caso chegou ao TCDF a pedido do Ministério Público, que questionou a regularidade do negócio.
Em 2021, Ibaneis comprou uma franquia da loja de produtos do time, a Nação Rubro-Negra, com três sócios e seus filhos, então com 2, 16 e 23 anos. A unidade fica no Brasília Shopping, próximo ao Estádio Nacional.
O material ainda relata episódios envolvendo o ex-governador com o clube, como a tentativa de trazer para Brasília a final da Taça Libertadores da América de 2025 entre Flamengo e Palmeiras, e a participação de Ibaneis em 2019 como chefe de delegação do Flamengo em Guayaquil, no Equador, em partida contra o Emelec. Uma semana depois, segundo o texto, o BRB firmou patrocínio de R$ 2,5 milhões com o time de basquete do Flamengo.
No mesmo dia, ainda conforme a reportagem original, o banco fechou um contrato de R$ 1,5 milhão com o Brasília, equipe de basquete da capital federal e então único representante da cidade no NBB.
Patrocínios incluem competições fora do país e automobilismo
Entre os patrocínios esportivos citados, o texto menciona a equipe Mubadala Brazil SailGP Team, de barco à vela: são R$ 26 milhões para as temporadas 2025 a 2027 na liga SailGP, com etapas em diferentes países.
No automobilismo, a reportagem aponta que o Autódromo Internacional de Brasília foi reformado com dinheiro do BRB, ao custo de R$ 60 milhões. O banco administra o espaço desde 2023 e, segundo o texto, pretendia aportar mais de R$ 40 milhões na praça esportiva em 2026.
Além disso, o BRB patrocinou a equipe Alpine, da Fórmula 1, que recebeu R$ 1.657.433,33, conforme publicação no Diário Oficial do DF em 2024. Ainda de acordo com o balanço citado, o banco destinou R$ 28.274.196,38 em patrocínios em 2024, sendo R$ 16.647.024,18 para eventos e equipes esportivas, além de atletas.
Ex-presidente do BRB preso e possível delação no caso Master
A reportagem também aborda a prisão do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, ocorrida na última quinta-feira (14/4), e a possibilidade de ele falar sobre patrocínios e outros negócios em eventual colaboração com as investigações da PF. Pessoas próximas a Costa disseram à equipe de O TEMPO em Brasília que ele já era aconselhado por amigos e familiares a fazer delação antes da prisão.
Segundo o texto, a colaboração poderia implicar integrantes do primeiro escalão da administração pública do Distrito Federal e empresários da capital. A PF avalia que ele pode apresentar provas e informações sobre negócios do BRB com o banco de Daniel Vorcaro, além de esclarecer empréstimos e patrocínios considerados generosos do banco público.
Costa deixou o BRB por ordem judicial em setembro de 2025, na primeira fase da Operação Compliance Zero. Ele foi preso preventivamente na quarta fase da operação, por ordem do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF). A defesa, ainda conforme a reportagem, nega publicamente uma delação, diz que vai recorrer da prisão e sustenta que o cliente já estava colaborando. Costa está no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília.
PF aponta oferta de imóveis e mensagens recuperadas
O texto afirma que a PF aponta que Costa recebeu propinas para facilitar esquemas envolvendo o Master dentro do BRB, com benefícios que incluíam imóveis de alto luxo, de acordo com mensagens encontradas em celulares de Vorcaro. Diálogos entre os dois foram tornados públicos após a deflagração da quarta fase da Compliance Zero.
A investigação citada na matéria aponta ainda que Costa teria aceitado R$ 146 milhões por meio da transferência de seis imóveis de luxo, com R$ 74 milhões pagos, segundo a PF. Dois imóveis ficam em Brasília e quatro em São Paulo.
Ministro cita mensagens e proximidade entre investigados
O Banco Central barrou o negócio e liquidou o Master, segundo o texto. A reportagem diz que, ao citar mensagens de WhatsApp entre Costa e Vorcaro, André Mendonça escreveu que elas “revelam, simultaneamente, a forte proximidade de ambos e a comunhão de desígnios para a prática de ilícitos”. O ministro também registra que isso ocorreria “ao mesmo tempo em que o investigado [Costa] anuncia medidas em relação a negócios envolvendo o banco que seriam de interesse de Daniel Vorcaro [...] demonstrando ânimo de que sua esposa possa visitar o apartamento luxuoso”.
Mensagem cita conversa com o “governador”
“Amigo, obrigado pela conversa de hoje. A cada passo o caminho está mais claro e estou mais empolgado com o que vamos construir. Além disso, dou muito valor ao alinhamento pessoal. E acho que estamos bem alinhados em relação ao trabalho, visão de mundo e perfil. Estou trabalhando para lançar a operação amanhã ou, no mais tardar, na segunda-feira”, começa o texto.
“O Governador me pediu que preparasse um material para a argumentação dele, porque vamos receber críticas. Acredito que aquele desenho de CEO da holding financeira e/ou da empresa financeira consolidadora com participação no conselho do BRB e da empresa de private equity vai ser o mais funcional e que gera sinergia entre todas as empresas”, prossegue Costa.
“Se o Daniel [Monteiro] puder fazer e enviar o contrato, seria ótimo. Conversei com a minha esposa e estaremos em SP na próxima semana. Seria legal mostrar o apartamento para ela. Assim, ela também vai se ambientando. Dia 01/03 está logo aí. Acabei de pousar em Salvador e estou trabalhando na Renogrid. Um forte abraço”, completou.
Paulo Henrique Costa
Daniel Monteiro, citado na mensagem, era advogado do Master e também foi preso preventivamente na quarta fase da Compliance Zero. A PF o comparou a um “compliance paralelo” de Vorcaro, segundo a reportagem.
Ibaneis muda discurso após prisão, e Celina afirma não ter informações
O texto informa que, em nota divulgada na quinta-feira após a prisão de Costa, a defesa de Ibaneis afirmou que ele “não acompanhava, não pressionou e tampouco teve qualquer ingerência” nas operações do BRB, sustentando que as decisões — sobretudo as relacionadas ao Master — eram de responsabilidade da área técnica.
A reportagem registra, porém, que esse posicionamento contrasta com declarações anteriores atribuídas ao próprio Ibaneis, nas quais ele dizia ter acompanhado a operação de aquisição do Master. Também relata que, em fevereiro de 2025, quando o nome de Costa não apareceu na lista aprovada pelo BC para a diretoria do BRB, Ibaneis tratou o caso como “erro material” e defendeu a permanência do executivo.
Já a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PSD), disse na quinta-feira, após a prisão, que nada sabia sobre a gestão do BRB, do qual o governo local é o maior acionista (71,92%). Ela afirmou que sua administração tem colaborado com as investigações e cobrou punição aos responsáveis.