Gordura abdominal altera estrutura do coração e preocupa mais que IMC, aponta estudo

Pesquisa apresentada em congresso nos EUA, com mais de 2.200 adultos, mostra que a relação cintura-quadril e a gordura visceral estão ligadas a remodelamento do músculo cardíaco, sobretudo em homens, mesmo sem doença cardiovascular diagnosticada

20/01/2026 às 18:25 por Redação Plox

A forma como a gordura se distribui pelo corpo pode pesar mais na saúde do coração do que o número indicado na balança, sobretudo entre os homens. Essa é a principal conclusão de um estudo apresentado no fim de 2025, no congresso da Sociedade Radiológica da América do Norte (RSNA), nos Estados Unidos, que analisou o impacto da gordura abdominal — a popular “barriga de chope” — sobre a estrutura cardíaca de adultos sem diagnóstico prévio de doença cardiovascular.

Uma das explicações está no padrão de distribuição de gordura, já que homens tendem a acumular gordura do tipo androide, concentrada no abdômen

Uma das explicações está no padrão de distribuição de gordura, já que homens tendem a acumular gordura do tipo androide, concentrada no abdômen

Foto: crédito: Freepik


O trabalho avaliou mais de 2.200 homens e mulheres entre 46 e 78 anos, submetidos a exames detalhados de ressonância magnética do coração. Os pesquisadores compararam duas medidas usadas na prática clínica: o índice de massa corporal (IMC), que reflete o peso total, e a relação cintura-quadril, que revela a concentração de gordura no abdômen. O acúmulo abdominal mostrou associação com alterações cardíacas consideradas mais preocupantes do que aquelas ligadas apenas ao excesso de peso global.

Gordura visceral e inflamação silenciosa

A obesidade abdominal chama atenção porque está diretamente relacionada à gordura visceral, que se deposita profundamente no abdômen, ao redor de órgãos como o fígado. Diferentemente da gordura subcutânea, localizada logo abaixo da pele, a gordura visceral é metabolicamente ativa e libera substâncias inflamatórias na circulação, conhecidas como adipocinas ou citocinas inflamatórias, segundo a cardiologista Juliana Soares, do Hospital Israelita Albert Einstein.

Esse mecanismo alimenta um quadro de inflamação crônica de baixo grau e favorece o surgimento de problemas como resistência à insulina, alterações no colesterol e aumento da pressão arterial — um conjunto de fatores que, ao longo do tempo, sobrecarrega o coração.

Como a “barriga de chope” remodela o coração

De acordo com o estudo, os exames de imagem mostraram um remodelamento do músculo cardíaco à medida que aumentava a relação cintura-quadril. Houve espessamento do músculo, especialmente no ventrículo esquerdo, acompanhado de redução do espaço interno das cavidades. O coração funciona como uma bexiga elástica: precisa de espaço para se encher de sangue e de flexibilidade para se esvaziar a cada batida.

Com a obesidade e a inflamação crônica, o órgão passa a bombear contra uma pressão maior. Como qualquer músculo submetido a esforço contínuo, suas paredes tendem a ficar mais espessas. O problema é que esse espessamento reduz o volume interno das câmaras cardíacas e torna o músculo mais rígido, diminuindo a quantidade de sangue acomodada a cada batimento.

Num primeiro momento, o coração tenta compensar batendo mais rápido. Com o tempo, porém, essa sobrecarga prejudica a capacidade de relaxamento do órgão. O resultado pode ser um tipo de insuficiência cardíaca em que o coração ainda contrai, mas não se enche adequadamente, comprometendo a distribuição de oxigênio e nutrientes pelo corpo e levando a uma perda gradual de eficiência, mesmo antes do aparecimento de sintomas.

No estudo, essas alterações foram observadas em pessoas aparentemente saudáveis, sem histórico de doença cardiovascular. Isso reforça o caráter silencioso do problema e a importância de adotar medidas preventivas precoces, baseadas em mudanças sustentáveis de estilo de vida.

IMC alto nem sempre significa o mesmo risco

Quando os pesquisadores analisaram apenas o peso total pelo IMC, o padrão observado foi diferente. Indivíduos com IMC elevado, mas sem grande concentração de gordura na região abdominal, apresentaram aumento do tamanho das câmaras cardíacas, porém sem o mesmo grau de espessamento da musculatura.

Esse achado ajuda a explicar por que duas pessoas com IMC semelhante podem ter riscos cardiovasculares bastante distintos. O IMC não distingue massa muscular de gordura nem informa onde essa gordura está localizada. Já a relação cintura-quadril direciona a atenção para a gordura central, a mais associada ao remodelamento cardíaco considerado deletério.

Homens sofrem mais com a gordura abdominal

O estudo também registrou diferenças claras entre homens e mulheres. Embora ambos os sexos apresentem alterações ligadas à obesidade abdominal, os impactos foram mais intensos entre os homens.

Uma das explicações está no padrão de distribuição de gordura: homens tendem a acumular gordura do tipo androide, concentrada no abdômen, o que favorece maior proporção de gordura visceral. Já as mulheres, sobretudo antes da menopausa, costumam ter padrão ginoide, com mais gordura subcutânea em quadris e coxas, metabolicamente menos agressiva.

Aspectos hormonais também entram em cena. O estrogênio exerce efeito cardioprotetor e influencia o metabolismo da gordura, direcionando seu armazenamento para regiões menos nocivas. Com a queda desse hormônio após a menopausa, essa proteção diminui, e o risco feminino se aproxima mais do masculino.

Além disso, diferenças na resposta inflamatória parecem contribuir: homens tendem a apresentar níveis mais elevados de inflamação sistêmica associada à gordura visceral, o que pode acelerar as alterações estruturais do coração.

Fita métrica como aliada na prevenção

Os resultados indicam a necessidade de ampliar a forma como o risco cardiovascular é avaliado. Medidas simples, como a circunferência da cintura e a própria relação cintura-quadril, podem ser obtidas com uma fita métrica e oferecem pistas importantes sobre a saúde cardíaca.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), valores de circunferência da cintura acima de 90 cm para homens e 85 cm para mulheres indicam maior risco cardiovascular.

Reduzir a gordura visceral exige mudança de hábito

Para além dos números, os especialistas ressaltam que o emagrecimento precisa ocorrer a partir de hábitos saudáveis e sustentáveis. Atividade física regular e alimentação equilibrada são apontadas como pilares, especialmente porque a gordura visceral responde melhor ao exercício e pode ser reduzida mesmo sem grande perda de peso total.

Nesse contexto, estratégias de prevenção e controle da obesidade abdominal, com foco em estilo de vida, tornam-se fundamentais para evitar que o remodelamento cardíaco avance até um estágio irreversível.

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