Mortes no Hospital Anchieta: principal suspeito é ex-funcionário que confessou crimes à polícia; veja o que já se sabe

Profissional de 24 anos admitiu ter aplicado doses elevadas de medicamento e até desinfetante em pacientes; câmeras flagraram ações, hospital demitiu envolvidos e polícia apura outras possíveis vítimas

20/01/2026 às 06:18 por Redação Plox

O técnico de enfermagem apontado como principal suspeito de matar três pacientes internados no Hospital Anchieta, em Taguatinga, no Distrito Federal, confessou os crimes em depoimento à Polícia Civil. Ele é investigado por aplicar doses elevadas de um medicamento, usado de forma intencional como veneno, e, em um dos casos, injetar desinfetante na veia de uma das vítimas.


As vítimas são João Clemente Pereira, de 63 anos, Marcos Raymundo Fernandes Moreira, de 33 anos e Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos

As vítimas são João Clemente Pereira, de 63 anos, Marcos Raymundo Fernandes Moreira, de 33 anos e Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos

Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução


De acordo com a investigação, o homem de 24 anos inicialmente negou participação, mas mudou a versão após ser confrontado com imagens do circuito interno de segurança do hospital, que registraram sua atuação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Além dele, duas técnicas de enfermagem, de 28 e 22 anos, são suspeitas de dar cobertura em dois dos três casos. Na delegacia, a profissional de 22 anos também negou envolvimento a princípio, mas reconheceu o que ocorreu ao assistir às gravações e afirmou se arrepender de não ter impedido o colega.

A Polícia Civil informou que o técnico trabalhava na área havia cinco anos. Após abrir investigação interna, o Hospital Anchieta demitiu os três suspeitos. O homem já atuava em uma UTI pediátrica de outro hospital particular em Taguatinga quando o caso veio à tona.


Hospital Anchieta em Taguatinga no DF.

Hospital Anchieta em Taguatinga no DF.

Foto: TV Globo/Reprodução

Vítimas tiveram piora súbita na UTI

As vítimas são João Clemente Pereira, de 63 anos, Marcos Raymundo Fernandes Moreira, de 33 anos, e Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos. Segundo a diretora do Instituto Médico Legal (IML), Márcia Reis, os três apresentavam quadros clínicos de gravidade distinta, mas em todos os casos uma piora súbita chamou a atenção da equipe médica e dos investigadores.

Imagens das câmeras de segurança da UTI, onde os pacientes estavam internados, mostram que as aplicações de medicamento ocorreram em momentos próximos às pioras registradas. As vítimas são:

a professora aposentada Miranilde Pereira da Silva, 75 anos, moradora de Taguatinga;

o servidor público João Clemente Pereira, 63 anos, do Riacho Fundo I;

o servidor público Marcos Raymundo Fernandes Moreira, 33 anos, de Brazlândia.

De acordo com a Polícia Civil, o técnico usou uma seringa para fazer 13 aplicações de desinfetante em uma das vítimas, a mulher de 75 anos. Antes disso, ele já havia aplicado repetidas doses do medicamento que, segundo os investigadores, teria sido usado de forma deliberada para provocar o agravamento do estado de saúde dos pacientes.

Em um dos casos, o medicamento acabou — ele injetou cerca de 4 vezes esse medicamento. Essa vítima teve seis paradas cardíacas. Como ela não faleceu, e como o medicamento havia acabado, ele utilizou de um desinfetante que estava na pia do leito. Ele encheu cerca de 13 seringas e injetou diretamente na veia da paciente, e isso também causou o óbito dela

delegado Wisllei Salomão

Em outra ocasião, o mesmo técnico utilizou a senha de um médico da instituição para emitir de forma fraudulenta uma receita do medicamento. Em seguida, buscou o remédio na farmácia do hospital e o aplicou nas três vítimas sem consultar a equipe médica. A Polícia Civil do DF não divulgou o nome da substância.

Conforme a investigação, duas aplicações foram feitas em 17 de novembro do ano passado e a terceira em 1º de dezembro. Para tentar disfarçar a autoria, o técnico realizava massagem cardíaca nos pacientes na tentativa aparente de reanimá-los.

O inquérito tramita sob sigilo, e os nomes dos investigados não foram divulgados. A defesa ainda não foi localizada. A Polícia Civil apura se há outros casos relacionados ao profissional nas unidades em que ele atuou.

Hospital diz que identificou “circunstâncias atípicas”

Em nota, o Hospital Anchieta afirmou que, ao detectar “circunstâncias atípicas” ligadas a três óbitos na UTI, instaurou por conta própria um comitê interno de análise. Segundo a instituição, a investigação interna foi conduzida de forma célere e rigorosa e, em menos de 20 dias, apontou evidências envolvendo ex-técnicos de enfermagem.

Essas informações, diz o hospital, foram encaminhadas às autoridades, com pedido de abertura de inquérito policial e de medidas cautelares, incluindo a prisão dos suspeitos, que já haviam sido desligados da unidade.

A instituição afirma ter comunicado as famílias das vítimas e prestado esclarecimentos de forma “responsável e acolhedora”. O hospital destaca que o caso corre em segredo de justiça, o que impede a divulgação de detalhes adicionais e a identificação das partes.

Na nota, o Anchieta declara-se também vítima da conduta dos ex-funcionários, manifesta solidariedade aos familiares e afirma colaborar de maneira irrestrita com as autoridades, reiterando o compromisso com a segurança dos pacientes, com a verdade e com a justiça.

Conselho de Enfermagem acompanha caso

O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF) informou que tomou conhecimento das mortes suspeitas noticiadas na imprensa e que acompanha o caso, adotando as medidas cabíveis dentro de sua competência legal.

A entidade ressalta que o episódio está sob investigação das autoridades e tramita na esfera judicial. Por isso, afirma que não é possível, no momento, emitir juízo de valor ou conclusões definitivas, devendo ser respeitados o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa.

O Coren-DF diz manter compromisso com a segurança do paciente, a ética profissional e uma enfermagem qualificada e responsável, voltada à proteção da vida.

Família de servidor morto fala em indignação

Em manifestação enviada por seus advogados, a família de João Clemente afirmou sentir profundo pesar e indignação com os fatos ocorridos dentro da UTI do Hospital Anchieta, ambiente que, segundo o texto, deveria garantir cuidado máximo e proteção à vida.

Os familiares relatam que, até recentemente, acreditavam que a morte havia sido causada pelo quadro clínico do paciente. A mudança de entendimento veio em 16 de janeiro, quando receberam informações sobre circunstâncias consideradas graves e incompatíveis com uma morte natural, além da notícia de outras duas possíveis vítimas, com as quais passaram a compartilhar a dor.

O documento classifica o crime atribuído ao técnico de enfermagem e a outros envolvidos como de “extrema gravidade” e destaca que, como o inquérito corre sob sigilo, a família ainda não teve acesso aos autos e, por isso, se abstém de comentar detalhes.

Os parentes afirmam confiar na atuação da Polícia Civil, do Ministério Público e do Judiciário e dizem que adotarão todas as medidas legais para buscar a responsabilização criminal dos suspeitos, bem como eventual responsabilização civil do hospital por possíveis falhas no dever de cuidado, vigilância e segurança, visando à apuração completa dos fatos e à reparação devida.

Prisões e novas diligências

Segundo a Polícia Civil, as prisões dos ex-técnicos de enfermagem ocorreram em 11 de janeiro, quando também foram cumpridos três mandados de busca e apreensão em Taguatinga, Brazlândia e Águas Lindas de Goiás.

A segunda fase da operação foi deflagrada em 15 de janeiro, com apreensão de dispositivos eletrônicos em Ceilândia e Samambaia. A corporação segue analisando o material e verificando se há indícios de outros possíveis crimes ligados ao principal suspeito em diferentes unidades de saúde.

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