Polilaminina: o que é a substância que fez paciente voltar a andar
Substância estudada na UFRJ desde 1997 será aplicada em pacientes com lesão medular aguda para avaliar segurança; especialistas alertam que não há cura comprovada
20/02/2026 às 12:11por Redação Plox
20/02/2026 às 12:11
— por Redação Plox
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A polilaminina voltou ao centro do debate público após vídeos de pacientes com lesão medular ganharem repercussão nas redes sociais, mostrando casos de recuperação de movimentos.
Entre os relatos que chamaram atenção está o de Bruno Drummond de Freitas, bancário de 35 anos. Em 2018, ele sofreu um grave acidente de carro que provocou uma lesão cervical completa e o deixou tetraplégico.
Vídeo: YouTube
De acordo com a família, duas semanas após participar de um estudo experimental, com autorização dos responsáveis, Bruno conseguiu mover o dedão do pé — um gesto simbólico, apontado como o primeiro sinal de recuperação. Desde então, ele usa as redes sociais para falar sobre o tratamento envolvendo a polilaminina.
Bruno Drummond, que sofreu um acidente com lesão medular aguda em 2018 e aplicou polilaminina.
Foto: Reprodução / Redes sociais.
O avanço do tema despertou esperança em pacientes e familiares, mas também levantou dúvidas sobre o que já foi comprovado pela ciência e o que ainda precisa ser testado.
Pesquisa brasileira de quase três décadas
A pesquisa com polilaminina é liderada pela bióloga Tatiana Coelho Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ.
Tatiana Sampaio, que lidera a pesquisa, diz que substância pode ser uma esperança, mas ainda não é certeza.
Foto: Divulgação.
Desde 1997, ela estuda a substância, uma versão derivada da laminina — proteína produzida naturalmente pelo corpo humano — desenvolvida em laboratório.
No início deste ano, o resultado de quase três décadas de trabalho se transformou em um medicamento 100% brasileiro, autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a iniciar a fase 1 de estudos clínicos em humanos.
O que é a polilaminina e como ela atua
A polilaminina é uma versão modificada da laminina, proteína que exerce papel fundamental na organização dos tecidos e no crescimento celular, especialmente durante o desenvolvimento embrionário. Ao longo da vida, a presença dessa rede de proteínas no organismo se torna mais escassa.
A cientista conseguiu produzir em laboratório uma estrutura proteica capaz de atuar diretamente no local da lesão medular.
Em um estudo preliminar, foram extraídas proteínas de placentas e a polilaminina foi aplicada em oito pacientes com lesão medular aguda, entre paraplégicos e tetraplégicos.
Segundo os dados divulgados, seis desses pacientes apresentaram algum tipo de recuperação motora. Em um dos casos, um paciente que estava paralisado do ombro para baixo voltou a andar sem auxílio.
Esses resultados, porém, ainda não passaram por revisão de especialistas independentes, etapa considerada essencial para a validação científica.
“Ponte microscópica” na medula espinhal
A medula espinhal funciona como um canal de comunicação entre o cérebro e o restante do corpo. Quando há uma lesão, essa comunicação é interrompida.
Nesse contexto, a polilaminina é descrita como uma espécie de “ponte microscópica”, criando um suporte para que os neurônios possam restabelecer conexões e, assim, recuperar parte dos movimentos.
Início dos testes regulatórios em humanos
Agora, a substância deixa o ambiente exclusivamente acadêmico e entra na primeira fase regulatória exigida para a aprovação de um medicamento. Nessa etapa inicial, o foco não é comprovar eficácia, mas avaliar a segurança do uso.
Cinco pacientes com lesão completa da medula espinhal receberão uma única aplicação de polilaminina em até 48 horas após o trauma. Eles serão acompanhados por seis meses para monitorar possíveis reações adversas.
Somente se não houver complicações graves as próximas fases do estudo serão iniciadas, com o objetivo de avaliar se a substância é, de fato, eficaz na recuperação dos movimentos.
Promessa científica, não cura comprovada
Especialistas destacam que, mesmo diante de resultados iniciais considerados promissores, ainda não é possível afirmar que a polilaminina seja uma cura para lesões medulares.
Isso porque até 30% dos pacientes com lesão aguda podem recuperar algum grau de movimento espontaneamente, dependendo da gravidade do caso e do tratamento recebido.
A própria pesquisadora reforça que, até o momento, o que existe é uma promessa científica, e não uma revolução consolidada. Para que o medicamento chegue aos hospitais e ao Sistema Único de Saúde, será necessário cumprir todas as etapas dos ensaios clínicos e obter o registro definitivo junto à Anvisa.
Até lá, a polilaminina representa uma esperança construída ao longo de quase 30 anos de pesquisa nacional, mas que ainda precisa passar por todo o rigor do processo científico para ter sua eficácia e segurança confirmadas.