Retatrutida vira alvo de venda ilegal para emagrecimento, apesar de ainda estar em testes
Anvisa determinou apreensão e proibição de produtos com a substância; FDA e EMA também alertam que ela não tem aprovação e que a comercialização é irregular
20/02/2026 às 09:41por Redação Plox
20/02/2026 às 09:41
— por Redação Plox
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Usuários de redes sociais têm relatado o uso da retatrutida para emagrecimento e, nas mesmas plataformas, já surgem fornecedores que afirmam importar a fórmula em canetas e embalagens com aparência comercial.
A compra de canetas emagrecedoras pela internet pode ser arriscada
Foto: Freepik/imagem ilustrativa
A substância, porém, ainda está em fase de estudo clínico e não recebeu autorização para uso em nenhum país.
Órgãos reguladores barram uso e apreendem produtos
No início deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a apreensão e a proibição de todos os produtos que contenham o princípio ativo retatrutida. O órgão regulador de medicamentos dos Estados Unidos (FDA) também declarou que a substância não pode ser utilizada em manipulação farmacêutica e não está aprovada.
Na Europa, o órgão regulador EMA igualmente não autorizou a comercialização da retatrutida e emitiu um alerta sobre o uso de canetas emagrecedoras vendidas de forma ilegal.
“Pessoas que usam esses produtos correm um risco muito alto de falha no tratamento, problemas de saúde inesperados e graves e interações perigosas com outros medicamentos”, declarou. EMA
Medicamento experimental e mais potente que opções atuais
De propriedade da Eli Lilly, a retatrutida é uma enzima agonista dos receptores GLP-1, GIP e glucagon, com maior potência em relação a medicamentos já disponíveis, como semaglutida (Ozempic, Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro). Resultados preliminares da fase dois do estudo, publicados no The New England Journal of Medicine, apontam que a maior parte dos participantes apresentou perda de peso superior a 24%, frente aos 20% observados com o uso de Mounjaro.
Apesar dos dados iniciais considerados promissores, a substância ainda deve percorrer um longo caminho na pesquisa clínica até uma eventual aprovação para uso em seres humanos. Atualmente na fase três de estudo, a retatrutida já passou por testes em animais, avaliação de segurança e efeitos colaterais em voluntários saudáveis, além da definição de dose e análise inicial de eficácia, mas ainda falta concluir a etapa que compara o novo medicamento com tratamentos existentes e amplia a avaliação de segurança.
Riscos do mercado clandestino e de impurezas
Especialistas alertam que o uso de retatrutida fora de estudos clínicos configura uma exposição significativa a riscos, pois se trata de um medicamento experimental, sem registro e sem controle sanitário adequado. O endocrinologista Alexandre Hohl, diretor da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica), classifica a venda clandestina e o uso de um produto ainda em pesquisa como uma atrocidade científica e ressalta que, mesmo com indicação de benefício, o risco é elevado e desconhecido.
Ele destaca que o perigo não se limita à substância ativa. A ausência de regulação na produção deixa margem para a presença de impurezas nos frascos e canetas comercializadas ilegalmente. Essas impurezas podem acionar o sistema imune e servir de gatilho para doenças autoimunes ou até câncer, segundo o médico. O mesmo tipo de risco se aplica a outras substâncias produzidas de forma irregular, como a tirzepatida.
Falta de controle, efeitos adversos e ambiente não estéril
Paulo Miranda, coordenador da Comissão Internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), enumera diversos riscos associados ao uso de uma medicação que ainda não foi aprovada por agências reguladoras. Ele lembra que, mesmo após a aprovação oficial, efeitos adversos seguem sendo monitorados, mas o processo formal garante uma avaliação mínima de segurança para uso em seres humanos.
De acordo com ele, a produção de canetas emagrecedoras no mercado irregular impede qualquer garantia sobre a origem, o caminho percorrido, o ambiente de envase ou o grau de pureza do que é injetado. Como se trata de formulações injetáveis, deveriam ser produzidas e armazenadas em ambiente estéril. Sem esse padrão, aumenta o risco de impurezas, reações alérgicas e infecções.
Venda ilegal, violação de patente e risco ao consumidor
A comercialização de um medicamento ainda não aprovado e patenteado por um laboratório é crime. Segundo a advogada Lays Serpa, especialista em crimes contra a propriedade intelectual, essa prática viola direitos de patente e expõe diretamente a população a riscos à vida e à integridade física.
Ela explica que a imitação do chamado conjunto-imagem — que inclui formato de caneta, cores e embalagem — amplia a confusão e induz o consumidor ao erro quanto à origem e à qualidade do produto. Boa parte dessas canetas entra contrabandeada no país, sem qualquer controle sanitário, sem garantia de origem, de armazenamento adequado ou de autenticidade, o que torna o cenário ainda mais perigoso.
Posição da farmacêutica sobre o acesso à retatrutida
Em comunicado, a Lilly do Brasil informa que a retatrutida está legalmente disponível apenas para participantes dos ensaios clínicos. A empresa afirma que qualquer pessoa que alegue vender o produto para uso humano está agindo em desacordo com a lei e alerta que medicamentos que não passam por testes e pela aprovação de autoridades regulatórias podem colocar pacientes em risco.