STF: 2ª Turma decide hoje sobre possível liberação da prisão preventiva de Daniel Vorcaro
Em sessão virtual iniciada em 13/03/2026, colegiado avalia se referenda ou revisa decisão individual do ministro André Mendonça no caso ligado ao Banco Master
Gravações das câmeras corporais de policiais militares expõem um embate de hierarquia em meio à preservação de uma cena de morte violenta no Brás, região central de São Paulo. As imagens mostram o confronto entre um cabo, que insistia em resguardar o apartamento onde a soldado da PM Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi atingida na cabeça, e o marido dela, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, que pressionava para circular livremente pelo local.
As filmagens foram feitas em 18 de fevereiro, dentro do imóvel do casal. Gisele chegou a ser socorrida, mas morreu no mesmo dia no hospital. Segundo o material de inquérito da Corregedoria da Polícia Militar compartilhado com a Polícia Civil, o comportamento do oficial dentro do apartamento passou a ser visto como peça central na reconstrução da dinâmica do caso.
De acordo com essas apurações, Neto é investigado sob suspeita de feminicídio — morte de mulher por razões de gênero, como violência doméstica ou menosprezo à condição feminina — e de fraude processual, por supostamente alterar a cena para simular suicídio. A defesa do oficial sustenta que Gisele tirou a própria vida.
O tenente-coronel Geraldo Neto, preso por suspeita da morte da esposa Gisele Alves Santana.
Foto: Reprodução/Redes Sociais
O eixo das imagens está no conflito entre o protocolo técnico de preservação de vestígios e o peso da hierarquia dentro da corporação. O cabo, que usava câmera corporal, tenta conter o acesso ao banheiro e ao quarto, enquanto o tenente-coronel insiste em tomar banho, trocar de roupa e permanecer circulando pelo apartamento.
Segundo o material ao qual a reportagem teve acesso, Neto pressiona para entrar no banheiro e se higienizar, mesmo após ouvir orientações de que isso poderia comprometer a perícia. Essa conduta, registrada em vídeo, passa a ser considerada pelos investigadores como um dos pontos que fragilizam a versão de suicídio sustentada por ele.
O próprio oficial, em conversa gravada pela câmera do cabo, tenta explicar sua versão sobre o momento do disparo, afirmando que estava no banho, ouviu o barulho, abriu a porta e encontrou a esposa já baleada. O cabo, por sua vez, invoca a “burocracia” e os procedimentos internos da PM para tentar limitar o banho e a troca de roupa a algo mínimo, sem sucesso.
Body cam mostra desembargador (à esquerda), PM (ao centro) e tenente-coronel (à direita). Ele insistiu para tomar banho, desobedecendo ordem policial
Foto: Reprodução/Inquérito policial
A cronologia descrita no inquérito da Corregedoria da PM, compartilhado com a Polícia Civil, começa às 9h07. As imagens mostram o tenente-coronel sentado, sem camisa, levantando-se com a chegada do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo, que é conhecido de Neto.
O oficial da Justiça tenta entrar no apartamento, mas é informado por policiais militares que o local estava preservado para perícia. O acesso é, num primeiro momento, restringido.
Por volta das 9h18, Neto avisa que pretende tomar banho e trocar de roupa. Policiais respondem de forma protocolar, orientando que ele vista apenas uma camisa e uma calça para seguir à delegacia, sem banho, justamente para evitar qualquer alteração na cena e em possíveis vestígios no corpo e nas mãos.
Na sequência, o clima fica mais tenso. Um soldado reforça que a ordem é não modificar o ambiente. Ainda assim, o tenente-coronel ignora a orientação e entra no banheiro. As filmagens captam o incômodo dos policiais de patentes mais baixas com a possibilidade de perda de vestígios.
O contraste entre a narrativa apresentada pelo oficial — de que estaria no banho quando ouviu o tiro — e a conduta registrada pelas câmeras, com sua insistência em se limpar e trocar de roupa, é apontado nos autos como fator que começa a corroer a hipótese de suicídio.
Imagens da body cam de PM mostram chegada de desembargador a apartamento após crime
Foto: Reprodução/Inquérito policial
Em diálogos de bastidor, também gravados pela câmera corporal, o cabo demonstra temor de que o banho comprometa provas importantes, como resíduos de disparo nas mãos do tenente-coronel. Em conversa com um capitão e outros oficiais, ele menciona a possibilidade de perda de vestígios e a estranheza das falas do superior.
A discussão expõe, de um lado, o entendimento de parte da tropa de que um cidadão comum seria conduzido de forma muito mais rígida em situação semelhante; de outro, a dificuldade de impor limites a um oficial de alta patente em um cenário de morte violenta dentro de casa.
Quando Neto retorna ao corredor, já vestido com camiseta cinza, calça jeans e tênis preto, o dano à cena é considerado consumado pelos investigadores: exames residuográficos nas mãos, por exemplo, poderiam ter sido afetados. O laudo posterior não encontrou resquícios de pólvora no oficial, algo que, em tese, seria esperado em quem dispara uma arma de fogo.
Para a investigação, as imagens materializam a interferência na conservação de indícios e o uso da hierarquia como elemento de pressão sobre protocolos padronizados de preservação do local de crime.
Coletiva da polícia sobre prisão de tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto
Foto: Reprodução
A sequência de registros amplia as dúvidas sobre a versão do tenente-coronel. Às 9h37, chega um coronel que determina o afastamento dos demais policiais militares, autorizando a permanência apenas dele, de Neto e do desembargador, com a orientação de seguir primeiro para o Hospital das Clínicas.
No fim da tarde, novas movimentações são registradas. Por volta das 18h, três policiais militares entram no apartamento para realizar uma limpeza e permanecem no local até cerca de 18h50. Pouco depois, às 19h09, dois PMs retornam com seguranças do condomínio e ficam aproximadamente 40 minutos no imóvel.
À noite, às 21h36, o tenente-coronel volta ao apartamento acompanhado de duas pessoas, entre elas o cabo Rodrigo. Cerca de dez minutos depois, o grupo deixa o local carregando diversas peças de roupa. As imagens mostram ainda mais quatro retornos ao imóvel, sendo o último às 22h46.
Em conjunto, vídeos, áudios e horários não apenas delimitam uma linha do tempo, mas ajudam a contextualizar a intenção por trás de cada entrada, banho, limpeza e retirada de objetos. Essa soma de condutas — insistência no banho, circulação após alertas, afastamento de equipes, limpezas e idas e vindas — fortalece, segundo os investigadores, a desconfiança sobre a tese de suicídio.
Os registros colhidos no inquérito são utilizados para embasar a suspeita de feminicídio e de fraude processual. A hipótese é de que a cena teria sido manipulada para se aproximar de um cenário de suicídio, em vez de morte provocada por terceiro.
Nas imagens, o conflito entre protocolo e hierarquia deixa de ser apenas um debate teórico dentro da corporação e se converte em prova audiovisual: algo que investigadores conseguem ver, ouvir e cronometrar.
Com isso, cresce a pressão para que órgãos de controle e o comando da PM esclareçam como se deu a preservação do local, quem autorizou as entradas posteriores e as limpezas registradas e se haverá responsabilização disciplinar dos envolvidos na condução da ocorrência.
A Secretaria da Segurança Pública informou em coletiva de imprensa que o desembargador presente no apartamento não é investigado no caso. Segundo a pasta, o entendimento da polícia é de que ele foi ao local a pedido de Neto, com quem mantém relação de amizade.
Questionada sobre eventual desvio de conduta de agentes que permitiram o banho e as movimentações do tenente-coronel na cena, a SSP declarou que, caso seja constatada irregularidade de qualquer agente, as medidas cabíveis serão adotadas.