Body cams mostram cabo tentando preservar cena e tenente-coronel impondo hierarquia após tiro que matou soldado no Brás

Gravações feitas no apartamento de Gisele Alves Santana registram o embate entre protocolo e patente: Geraldo Leite Rosa Neto insiste em tomar banho e circular no imóvel, conduta que, segundo Corregedoria da PM e Polícia Civil, fragiliza a versão de suicídio e sustenta suspeitas de feminicídio e fraude processual

20/03/2026 às 13:19 por Redação Plox

Gravações das câmeras corporais de policiais militares expõem um embate de hierarquia em meio à preservação de uma cena de morte violenta no Brás, região central de São Paulo. As imagens mostram o confronto entre um cabo, que insistia em resguardar o apartamento onde a soldado da PM Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi atingida na cabeça, e o marido dela, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, que pressionava para circular livremente pelo local.

As filmagens foram feitas em 18 de fevereiro, dentro do imóvel do casal. Gisele chegou a ser socorrida, mas morreu no mesmo dia no hospital. Segundo o material de inquérito da Corregedoria da Polícia Militar compartilhado com a Polícia Civil, o comportamento do oficial dentro do apartamento passou a ser visto como peça central na reconstrução da dinâmica do caso.

De acordo com essas apurações, Neto é investigado sob suspeita de feminicídio — morte de mulher por razões de gênero, como violência doméstica ou menosprezo à condição feminina — e de fraude processual, por supostamente alterar a cena para simular suicídio. A defesa do oficial sustenta que Gisele tirou a própria vida.


O tenente-coronel Geraldo Neto, preso por suspeita da morte da esposa Gisele Alves Santana.

O tenente-coronel Geraldo Neto, preso por suspeita da morte da esposa Gisele Alves Santana.

Foto: Reprodução/Redes Sociais


Disputa entre preservação da cena e autoridade de alta patente

O eixo das imagens está no conflito entre o protocolo técnico de preservação de vestígios e o peso da hierarquia dentro da corporação. O cabo, que usava câmera corporal, tenta conter o acesso ao banheiro e ao quarto, enquanto o tenente-coronel insiste em tomar banho, trocar de roupa e permanecer circulando pelo apartamento.

Segundo o material ao qual a reportagem teve acesso, Neto pressiona para entrar no banheiro e se higienizar, mesmo após ouvir orientações de que isso poderia comprometer a perícia. Essa conduta, registrada em vídeo, passa a ser considerada pelos investigadores como um dos pontos que fragilizam a versão de suicídio sustentada por ele.

O próprio oficial, em conversa gravada pela câmera do cabo, tenta explicar sua versão sobre o momento do disparo, afirmando que estava no banho, ouviu o barulho, abriu a porta e encontrou a esposa já baleada. O cabo, por sua vez, invoca a “burocracia” e os procedimentos internos da PM para tentar limitar o banho e a troca de roupa a algo mínimo, sem sucesso.

Body cam mostra desembargador (à esquerda), PM (ao centro) e tenente-coronel (à direita). Ele insistiu para tomar banho, desobedecendo ordem policial

Body cam mostra desembargador (à esquerda), PM (ao centro) e tenente-coronel (à direita). Ele insistiu para tomar banho, desobedecendo ordem policial

Foto: Reprodução/Inquérito policial


Cronologia registrada nas câmeras corporais

A cronologia descrita no inquérito da Corregedoria da PM, compartilhado com a Polícia Civil, começa às 9h07. As imagens mostram o tenente-coronel sentado, sem camisa, levantando-se com a chegada do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo, que é conhecido de Neto.

O oficial da Justiça tenta entrar no apartamento, mas é informado por policiais militares que o local estava preservado para perícia. O acesso é, num primeiro momento, restringido.

Por volta das 9h18, Neto avisa que pretende tomar banho e trocar de roupa. Policiais respondem de forma protocolar, orientando que ele vista apenas uma camisa e uma calça para seguir à delegacia, sem banho, justamente para evitar qualquer alteração na cena e em possíveis vestígios no corpo e nas mãos.

Na sequência, o clima fica mais tenso. Um soldado reforça que a ordem é não modificar o ambiente. Ainda assim, o tenente-coronel ignora a orientação e entra no banheiro. As filmagens captam o incômodo dos policiais de patentes mais baixas com a possibilidade de perda de vestígios.

O contraste entre a narrativa apresentada pelo oficial — de que estaria no banho quando ouviu o tiro — e a conduta registrada pelas câmeras, com sua insistência em se limpar e trocar de roupa, é apontado nos autos como fator que começa a corroer a hipótese de suicídio.


Imagens da body cam de PM mostram chegada de desembargador a apartamento após crime

Imagens da body cam de PM mostram chegada de desembargador a apartamento após crime

Foto: Reprodução/Inquérito policial


Preocupação de policiais com possível apagamento de provas

Em diálogos de bastidor, também gravados pela câmera corporal, o cabo demonstra temor de que o banho comprometa provas importantes, como resíduos de disparo nas mãos do tenente-coronel. Em conversa com um capitão e outros oficiais, ele menciona a possibilidade de perda de vestígios e a estranheza das falas do superior.

A discussão expõe, de um lado, o entendimento de parte da tropa de que um cidadão comum seria conduzido de forma muito mais rígida em situação semelhante; de outro, a dificuldade de impor limites a um oficial de alta patente em um cenário de morte violenta dentro de casa.

Quando Neto retorna ao corredor, já vestido com camiseta cinza, calça jeans e tênis preto, o dano à cena é considerado consumado pelos investigadores: exames residuográficos nas mãos, por exemplo, poderiam ter sido afetados. O laudo posterior não encontrou resquícios de pólvora no oficial, algo que, em tese, seria esperado em quem dispara uma arma de fogo.

Para a investigação, as imagens materializam a interferência na conservação de indícios e o uso da hierarquia como elemento de pressão sobre protocolos padronizados de preservação do local de crime.


Coletiva da polícia sobre prisão de tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto

Coletiva da polícia sobre prisão de tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto

Foto: Reprodução


Idas e vindas ao apartamento e limpeza interna

A sequência de registros amplia as dúvidas sobre a versão do tenente-coronel. Às 9h37, chega um coronel que determina o afastamento dos demais policiais militares, autorizando a permanência apenas dele, de Neto e do desembargador, com a orientação de seguir primeiro para o Hospital das Clínicas.

No fim da tarde, novas movimentações são registradas. Por volta das 18h, três policiais militares entram no apartamento para realizar uma limpeza e permanecem no local até cerca de 18h50. Pouco depois, às 19h09, dois PMs retornam com seguranças do condomínio e ficam aproximadamente 40 minutos no imóvel.

À noite, às 21h36, o tenente-coronel volta ao apartamento acompanhado de duas pessoas, entre elas o cabo Rodrigo. Cerca de dez minutos depois, o grupo deixa o local carregando diversas peças de roupa. As imagens mostram ainda mais quatro retornos ao imóvel, sendo o último às 22h46.

Em conjunto, vídeos, áudios e horários não apenas delimitam uma linha do tempo, mas ajudam a contextualizar a intenção por trás de cada entrada, banho, limpeza e retirada de objetos. Essa soma de condutas — insistência no banho, circulação após alertas, afastamento de equipes, limpezas e idas e vindas — fortalece, segundo os investigadores, a desconfiança sobre a tese de suicídio.

Feminicídio, linha investigativa e peso da prova audiovisual

Os registros colhidos no inquérito são utilizados para embasar a suspeita de feminicídio e de fraude processual. A hipótese é de que a cena teria sido manipulada para se aproximar de um cenário de suicídio, em vez de morte provocada por terceiro.

Nas imagens, o conflito entre protocolo e hierarquia deixa de ser apenas um debate teórico dentro da corporação e se converte em prova audiovisual: algo que investigadores conseguem ver, ouvir e cronometrar.

Com isso, cresce a pressão para que órgãos de controle e o comando da PM esclareçam como se deu a preservação do local, quem autorizou as entradas posteriores e as limpezas registradas e se haverá responsabilização disciplinar dos envolvidos na condução da ocorrência.

Posicionamento de defesa e autoridades

A Secretaria da Segurança Pública informou em coletiva de imprensa que o desembargador presente no apartamento não é investigado no caso. Segundo a pasta, o entendimento da polícia é de que ele foi ao local a pedido de Neto, com quem mantém relação de amizade.

Questionada sobre eventual desvio de conduta de agentes que permitiram o banho e as movimentações do tenente-coronel na cena, a SSP declarou que, caso seja constatada irregularidade de qualquer agente, as medidas cabíveis serão adotadas.

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