STF: 2ª Turma decide hoje sobre possível liberação da prisão preventiva de Daniel Vorcaro
Em sessão virtual iniciada em 13/03/2026, colegiado avalia se referenda ou revisa decisão individual do ministro André Mendonça no caso ligado ao Banco Master
Gravações de câmeras corporais de policiais militares revelam um cenário de tensão e quebra de protocolo no apartamento onde a soldado Gisele Alves foi baleada, no Brás, região central de São Paulo. As imagens mostram o embate entre um cabo, que tentava preservar o local para perícia, e o tenente-coronel Geraldo Neto, marido da vítima, que insistia em circular pelo imóvel e tomar banho.
A conduta do oficial, que desobedeceu orientações diretas da equipe, passou a ser tratada como um dos principais elementos que fragilizam a versão de suicídio apresentada por ele. Neto está preso preventivamente e responde por feminicídio e fraude processual.
Foto: Arquivo pessoal / Rede social
Os vídeos mostram o desconforto entre os policiais diante da postura do tenente-coronel. Mesmo sendo alertado sobre a necessidade de preservar possíveis vestígios, ele insiste em se lavar no banheiro do apartamento.
Em um dos diálogos, o cabo questiona a situação e tenta convencê-lo a, ao menos, interromper o banho e vestir uma camiseta e um short, reforçando a “burocracia” interna da corporação e a importância de agilizar os procedimentos. O oficial, no entanto, reage com base em sua antiguidade na carreira e reafirma que vai tomar banho, dizendo não estar em condições de permanecer como estava.
Nos bastidores, outros áudios reforçam a preocupação com a perda de provas. O cabo demonstra incômodo com a possibilidade de o tenente-coronel lavar as mãos antes da realização do exame residuográfico, que poderia apontar vestígios de pólvora, e comenta que as falas do oficial lhe parecem estranhas. Em conversa com um tenente, ele questiona se será permitido que o oficial tome banho, destacando que, em situação semelhante envolvendo um civil, a abordagem seria diferente.
Foto: Reprodução / Inquérito policial
A insistência em tomar banho é vista pelos investigadores como um ponto central do caso. A avaliação é de que a atitude pode ter comprometido exames importantes, como o residuográfico, que identifica resíduos de pólvora nas mãos.
Posteriormente, o teste realizado em Neto não encontrou vestígios. O contraste entre o banho tomado no local e o resultado negativo do exame passou a ser analisado como fator de enfraquecimento da tese de suicídio apresentada pelo tenente-coronel.
As imagens ainda mostram o oficial circulando pelo apartamento, mesmo após orientações expressas para que o local fosse preservado. Para a investigação, essa movimentação pode ter alterado a cena do crime e afetado a coleta de indícios.
Foto: Reprodução / Inquérito policial
A cronologia registrada no inquérito começa às 9h07, quando o tenente-coronel está no apartamento e tenta liberar a entrada de um desembargador conhecido, sendo impedido pelos policiais militares que já atuavam na preservação do local.
Às 9h18, Neto informa que pretende tomar banho, contrariando procedimentos recomendados em locais de crime com possíveis vestígios a serem periciados.
Às 9h37, um coronel chega ao condomínio e limita a presença de outros policiais no interior do apartamento, mantendo apenas ele, Neto e o desembargador. A partir desse momento, a orientação passa a ser seguir para o Hospital das Clínicas.
Ao longo do dia, novas entradas e saídas são registradas pelo sistema de controle de acesso:
Por volta das 18h, policiais entram no imóvel e realizam uma limpeza. Às 19h09, ocorre um novo acesso ao apartamento, dessa vez com seguranças do condomínio.
Às 21h36, Neto retorna acompanhado e deixa o local levando roupas. Outras quatro entradas ainda são registradas, com a última às 22h46.
Foto: Reprodução
Para a investigação, o conjunto de vídeos, áudios e registros de horários permite não apenas reconstruir a sequência de acontecimentos, mas também apontar interferências diretas na preservação de evidências dentro do apartamento.
A sucessão de ações — do banho do tenente-coronel à limpeza do imóvel e à retirada de objetos — reforça as suspeitas sobre a versão de suicídio apresentada pelo oficial.
As gravações ainda evidenciam o peso da hierarquia militar nas decisões tomadas no local. O contraste entre os protocolos técnicos defendidos por policiais de patentes mais baixas e a autoridade de oficiais superiores expõe um conflito interno que, segundo a investigação, impactou diretamente na forma como a cena foi preservada — e, potencialmente, na qualidade das provas disponíveis no inquérito.
Posicionamentos
A defesa de Geraldo Neto não foi localizada para comentar o conteúdo das gravações. Em declarações anteriores, o advogado afirmou que o cliente é inocente e sustenta a hipótese de suicídio.
A Secretaria da Segurança Pública informou que o desembargador presente no local não é investigado e que foi ao apartamento após ser chamado pelo oficial. Sobre a atuação dos policiais, a pasta declarou que eventuais irregularidades serão apuradas e podem resultar em medidas cabíveis.