Estudo da S.O.S. Mata Atlântica aponta piora na qualidade da água em rios de 14 estados

Monitoramento mensal em 2025 avaliou 128 rios do bioma e mostrou queda dos pontos com água boa; esgoto doméstico e falta de saneamento seguem como principais causas

20/03/2026 às 10:00 por Redação Plox

Um estudo da Fundação S.O.S. Mata Atlântica revelou uma piora na qualidade da água em rios de 14 estados brasileiros, com destaque para o bioma Mata Atlântica. O monitoramento mostra que, em muitos casos, a aparência engana: água que parece limpa esconde um cenário de degradação e pressão crescente sobre os cursos d’água.


Estudo revela piora na qualidade da água em rios de 14 estados brasileiros

Estudo revela piora na qualidade da água em rios de 14 estados brasileiros

Foto: Jornal Nacional/ Reprodução


Rio Trapicheiro simboliza a piora na Mata Atlântica

O rio Trapicheiro, que nasce no Parque Nacional da Tijuca e deságua na Baía de Guanabara, é um exemplo dessa contradição. À primeira vista, suas águas podem parecer limpas, mas os testes que medem os principais indicadores de qualidade apontam um quadro de deterioração em apenas um ano.

Segundo o estudo, os indicadores laboratoriais mostram perda de qualidade, com piora em parâmetros que compõem o Índice de Qualidade da Água (IQA), como oxigênio dissolvido, turbidez e presença de contaminantes associados ao esgoto doméstico.

Monitoramento mensal em 128 rios de 14 estados

Ao longo de 2025, voluntários da S.O.S. Mata Atlântica realizaram coletas mensais de água em 128 rios que atravessam a Mata Atlântica em 14 estados brasileiros. As amostras foram analisadas com base no IQA, que classifica a água em cinco faixas: ótima, boa, regular, ruim e péssima.

Os resultados consolidam a tendência já observada pela fundação em ciclos anteriores: a maior parte dos pontos monitorados permanece na faixa “regular”, o que indica água impactada, que exige tratamento para consumo humano e revela pressão constante de esgoto e poluição difusa.

Em comparação com o ciclo anterior, a média de qualidade da água piorou. O número de pontos de coleta com água considerada boa caiu de nove para três, identificados como Rio Betume, em Sergipe, e rios Piraí e Água Limpa, em São Paulo.

Queda histórica na água de boa qualidade

De acordo com o levantamento, apenas 3% das amostras analisadas em 2025 foram classificadas como de boa qualidade. É o menor percentual desde o início da série histórica, em 2014. Nenhuma amostra alcançou a classificação de água ótima.

O restante das amostras se distribuiu em faixas que reforçam o alerta:

  • 78% foram classificadas como regulares, indicando água já degradada;
  • 15% foram consideradas ruins;
  • 3% atingiram a pior classificação, de água péssima.

Esse quadro confirma que a recuperação dos rios da Mata Atlântica segue estagnada, em um contexto em que a pressão urbana, o lançamento de esgoto sem tratamento e a falta de infraestrutura de saneamento pesam mais do que ações pontuais de recuperação.

Esgoto doméstico ainda é o principal vilão

Os resultados reforçam o diagnóstico recorrente do programa Observando os Rios, da Fundação S.O.S. Mata Atlântica: o saneamento básico insuficiente continua sendo o principal fator de degradação dos cursos d’água no bioma, especialmente em áreas urbanas densamente ocupadas.

O monitoramento, feito com coletas mensais e metodologia padronizada, permite detectar variações na qualidade da água com mais rapidez do que levantamentos oficiais de menor frequência. Em boa parte dos pontos analisados, o impacto do despejo de esgoto doméstico permanece evidente, mesmo onde a água pode aparentar visualmente maior limpeza.

Água regular ainda serve, mas exige tratamento

Apesar do cenário preocupante, o estudo mostra que, em mais de 80% dos pontos avaliados, a água foi classificada como própria para múltiplos usos, como agricultura e indústria. Isso não significa, porém, que a água seja potável.

Para consumo humano, é indispensável tratamento químico, o que aumenta a pressão sobre sistemas de abastecimento e encarece a gestão da água em cidades e regiões dependentes desses mananciais.

Em áreas metropolitanas, como no entorno do Parque Nacional da Tijuca e da Baía de Guanabara, o contraste entre mata preservada na nascente e poluição no trecho urbano evidencia a falta de coleta e tratamento adequados de esgoto e a fragilidade da fiscalização.

Participação social e saneamento como chave de mudança

Os dados do monitoramento indicam que, sem avanços estruturais em saneamento e sem maior envolvimento da sociedade no acompanhamento dos rios, a tendência de estagnação tende a se prolongar. A Fundação S.O.S. Mata Atlântica aponta a necessidade de ampliar o controle social sobre o tema, fortalecer o monitoramento independente e pressionar por metas claras de coleta e tratamento de esgoto.

Em paralelo, o programa Observando os Rios segue como uma das principais iniciativas de monitoramento cidadão da qualidade da água em rios da Mata Atlântica, com rede de voluntários que atuam em diferentes estados e ajudam a expor, com dados, a realidade dos corpos hídricos que abastecem milhões de pessoas.

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