Câmara adia votação de projeto que tipifica misoginia como crime até o fim das eleições

Presidente Hugo Motta retirou a proposta da pauta após acordo com líderes; texto já foi aprovado por unanimidade no Senado e prevê pena de dois a cinco anos de prisão, além de multa

20/04/2026 às 08:58 por Redação Plox

A retirada do projeto que tipifica a misoginia como crime da pauta da Câmara dos Deputados expôs divergências entre governo e oposição e também dentro da própria bancada feminina. A decisão foi tomada pelo presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), após reunião com líderes partidários. O acordo, segundo o texto, foi não levar a proposta ao plenário até o fim das eleições, com o argumento de evitar que o debate seja contaminado por disputas eleitorais.

  • Já aprovado por unanimidade no Senado, o projeto define misoginia como a conduta que exterioriza ódio ou aversão às mulheres e, em determinados casos, a equipara aos crimes de preconceito e discriminação. A proposta prevê pena de dois a cinco anos de prisão, além de multa, e amplia punições para crimes contra a honra praticados contra mulheres, especialmente em contextos de violência doméstica.
    Bancada feminina pressiona por urgência enquanto Hugo Motta adia votação até depois das eleições

    Bancada feminina pressiona por urgência enquanto Hugo Motta adia votação até depois das eleições

    Foto: • Câmara dos Deputados


Pressão por urgência e críticas ao adiamento

O adiamento da votação provocou reação de parlamentares que atuam na linha de frente do tema. A coordenadora-geral da bancada feminina, deputada Jack Rocha (PT-ES), classificou a decisão como um obstáculo à proteção das mulheres e associou a postergação ao contexto de aumento da violência e do feminicídio no país.

Jack Rocha também afirmou que a mobilização deve se intensificar nas próximas semanas, inclusive no Colégio de Líderes, com o objetivo de recolocar o assunto na agenda do plenário.

Na mesma direção, a deputada Dandara Tonantzin (PT-MG) disse que busca acelerar a tramitação por meio de um pedido de urgência, que depende da assinatura de ao menos 171 parlamentares. Segundo a parlamentar, a coleta de apoios pretende garantir a votação em plenário com prioridade.

Dandara também citou críticas ao texto e a circulação de informações falsas sobre possíveis efeitos da proposta, afirmando que conteúdos do tipo têm sido usados para distorcer o debate.

Bancada feminina diverge sobre ritmo e construção de consenso

Apesar da pressão por votação imediata, a bancada feminina não apresenta posição totalmente homogênea. A deputada Laura Carneiro (PSD-RJ), 1ª vice-presidente da Comissão da Mulher, defendeu cautela e destacou que não há unanimidade em torno do texto.

De acordo com Laura Carneiro, o encaminhamento defendido pelo presidente da Câmara é que a proposta passe por comissões, especialmente pela Comissão da Mulher, para buscar um texto com maior grau de acordo antes de ir a plenário. Para a deputada, construir maioria é decisivo para evitar que o projeto não avance.

Oposição vê adiamento como adequado e critica texto

Na oposição, a retirada do projeto da pauta foi tratada como uma decisão apropriada diante das críticas ao conteúdo. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) negou que a posição contrária ao projeto represente descompromisso com a proteção das mulheres e disse que o adiamento foi definido, ao menos, até o período eleitoral.

Crítico do texto, Nikolas sustenta que a proposta abre margem para interpretações amplas e poderia ser usada como instrumento de restrição a opiniões.

Notificação ao X e debate sobre alcance da tipificação

A Advocacia-Geral da União notificou a plataforma X para a retirada de conteúdos considerados desinformativos sobre o projeto, após denúncia da deputada Erika Hilton (PSOL-SP). Enquanto isso, o texto informa que mais de 40 propostas relacionadas ao enfrentamento à misoginia seguem em tramitação na Câmara.

No debate jurídico apresentado na matéria, o Subprocurador-Geral da República, Procurador Federal dos Direitos do Cidadão e Conselheiro do Conselho Superior do Ministério Público Federal Nicolau Dino e a assessora jurídica na Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal Maíza Viana afirmam que a misoginia não se limita a manifestações episódicas ou conflitos interpessoais, mas se caracteriza como um fenômeno estrutural que atravessa relações sociais, operando como mecanismo de desvalorização, controle e silenciamento.

a expressão contemporânea, intensificada em ambientes digitais, amplia exponencialmente o alcance da violência, permitindo que práticas de desumanização se disseminem com rapidez, escala e impacto que transcendem a esfera individual Nicolau Dino e Maíza Viana

Os dois também apontam que o enfrentamento da violência de gênero não se resolveria apenas com uma nova tipificação penal, mas exigiria um reposicionamento cultural e investimento permanente em educação de base. Ao final, concluem que a tipificação da misoginia seria um passo necessário, por conferir tratamento jurídico compatível com a gravidade do fenômeno e reafirmar o compromisso do Estado com uma sociedade justa e solidária, em que a dignidade da mulher seja um valor inegociável.

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